Duck Lamp: vida nova ao pato empalhado e sem cabeça

Ao folhear uma Wallpaper, a gente, aqui na redação, deparou com a antropomórfica Duck Lamp, produzida por Sebastian Errazuriz, a partir de um resto de pato empalhado. Surgiu a polêmica: uns acharam incrível; outros, de mau gosto. Seja como for for, veio a vontade de conhecer um pouco mais a produção do designer chileno de 28 anos, que assina Sebastian E. No site dele, dá para ver uma versatilidade em que há intervenções urbanas, moda, luminárias, mobiliário e até uma seção chamada inclassificáveis.
Sebastian vive e trabalha em Nova York. Criado entre Santiago e Londres, fez cursos de arte em Washington e oficinas de cinema em Edimburgo, design em Santiago e Milão e,finalmente, mestrado em Fine Art, em NY. Já participou de 40 exposições, em cidades como Tóquio, Nova York, Paris e Barcelona, e de coletivas com Zaha Hadid, Marcel Wanders e Ingo Maurer. Foi selecionado como um dos mais importantes designers em ascensão pela revista ID e escolhido como o Designer Chileno do Ano. Ele e os irmãos Campana foram os únicos sul-americanos a entrar no rol da Sotheby’s Important 20th Century Designs. “Sou obcecado pela ideia de que a vida é muito curta e que é importante olhá-la com outros olhos todos os dias”, diz.
Foi Olívia Fraga que logo se ofereceu para entrevistá-lo, por e-mail, para ajudar a obter uma nota bacana para a coluna Plural. É da repórter a conversa virtual com o personagem, transcrita abaixo. Olívia não está mais no Casa&. Foi convidada a integrar a equipe do Paladar, outro suplemento de O Estado de S.Paulo, e aceitou. Ali poderá experimentar diferentes sabores da profissão. A ela, boa sorte no novo caminho.


Sebastian E interage com uma de suas luminárias

Plural – O que influencia e inspira seu trabalho?
Sebastian E – Sou obcecado pela ideia de que a vida é muito curta e que é importante olhá-la com outros olhos todos os dias. Como artista, tenho muito interesse nos significados que cada objeto possui e como esses significados podem mudar com pequenas “variações” – o que provoca diálogos e discussões. Fico de olho em objetos únicos que contenham muito simbolismo. Aqueles que em algum momento tinham vida, naturalmente, são ainda mais fascinantes.

Como você teve a ideia da Duck Lamp?
Encontrei um pato empalhado todo destruído numa lata de lixo, em um museu de taxidermia. O pato tinha sido jogado fora porque o pescoço estava quebrado. De alguma forma pensei que poderia dar nova vida a ele [risos]. Parece muito Frankenstein, não é? Não sei como tenho essas ideias. Elas simplesmente aparecem, como se fossem e-mails que vêm com fotos anexadas. Vêm do nada, mesmo. Primeiro faço um esquete, antes de que eu me esqueça do que pensei, e depois tento entender o que me fascinou naquilo. Nesses momentos, aprendo bastante. Na verdade eu estava com um pouco de medo da reação pública quando apresentei a Duck Lamp, seis anos atrás. Não quis parecer um freak, mas fui impelido a fazê-lo porque de alguma forma fez sentido para mim. Para minha surpresa, quando a apresentei numa galeria, parece que fez um sentido estranho, bizarro, inconsciente para as outras pessoas também… Aparentemente pareceu familiar, maravilhoso, terrível, engraçado e agradável ao mesmo tempo.

O que lhe agrada nessa junção entre o lado animal e o mecânico da luminária?
De verdade, acho que é como um leve prazer à la Frankenstein no exercício de brincar com a morte (ou a vida), de mexer com símbolos sagrados e convidar as pessoas a perceberem também. A lâmpada de mesa é uma peça clássica antropomórfica que todo mundo reconhece. A ideia de que uma lâmpada sai de uma “cabeça” pode lembrar um pouco a vida (ou uma ideia) como um clichê esquisito. Num sentido aprazível e culpado, imagino.

O que você acha interessante em usar o humor ao desenhar suas peças?
Eu venho da América do Sul, um lugar em que há uma educação artística pobre. Para compreender totalmente e gostar de arte, você precisa entender códigos de linguagem, que nem sempre são acessíveis. Humor é uma ferramenta muito democrática. Pode ser uma primeira camada de informação lida por qualquer um, quer entenda de arte conceitual ou não. Um bom comediante é aquele que nos lembra pessoas comuns, situações e objetos que todos conhecemos, mas mostram características que nunca havíamos pensado antes, que de alguma forma fazem muito sentido. Algumas verdades, de vez em quando, são mais fáceis de aceitar e ver quando são mostradas com humor.


A cadeira Saint e uma jaqueta feita de pelúcias