A seguir, a transcrição de um capítulo de A Elegância do Ouriço (Companhia das Letras), de Muriel Barbery. É um romance incrível, que critica o modo de vida dos moradores de um luxuoso prédio em Paris sob a perspectiva da zeladora do lugar e de uma garota de 12 anos. A leitura da obra ainda está incompleta, mas essa passagem serve para refletir a respeito de quem conversa com seus bichanos. E quem não o faz?


Gato: decoração móvel?

PENSAMENTO PROFUNDO Nº 2

O gato neste mundo
Esse totem moderno
E, por intermitência, decorativo

Pelo menos, na nossa casa é assim. Se vocês querem compreender nossa família, basta olhar para os gatos. Nossos dois gatos são gordos odres que comem croquetes de luxo e não têm nenhuma interação interessante com as pessoas. Arrastam-se de um sofá para outro, deixando pêlos por todo lado, e ninguém parece ter entendido que eles não têm o menor afeto por quem quer que seja. O único interesse dos gatos é que são objetos decorativos móveis, um conceito que acho intelectualmente interessante mas que não se aplica aos nossos por terem a barriga grande demais.
Mamãe, que leu todo o Balzac e cita Flaubert em cada jantar, demonstra diariamente o quanto a instrução é um engodo fenomenal. Basta olhar para ela junto com os gatos. Ela tem vaga consciência de seu potencial decorativo, mas se obstina em falar com eles como se fossem pessoas, o que não lhe viria à mente com um abajur ou uma estatueta etrusca. Parece que as crianças acreditam até uma idade bem avançada que tudo o que se mexe tem alma e é dotado de intenção. Mamãe não é mais criança, mas aparentemente não consegue imaginar que Constitution e Parlement tenham tão pouco entendimento quanto o aspirador. Admito que a diferença entre o aspirador e eles é que um gato pode sentir prazer e dor. Mas isso significa que tem mais aptidão para comunicar-se com o humano? De jeito nenhum. Isso deveria apenas nos incitar a tomar certas precauções, como tomamos com um objeto muito frágil. Quando ouço mamãe dizer: “Constitution é uma gatinha muito orgulhosa e ao mesmo tempo muito sensível”, enquanto a outra está aboletada no sofá porque comeu demais, acho graça. Mas, se pensamos na hipótese de que o gato tem como função ser um totem moderno, uma espécie de encarnação emblemática e protetora do lar, refletindo com benevolência o que são os membros da casa, isso se torna evidente. Mamãe faz dos gatos o que gostaria que nós fôssemos e que não somos de jeito nenhum. Não há ninguém menos orgulhoso e sensível que os três membros abaixo citados da família Josse: papai, mamãe e Colombe. São completamente frouxos e anestesiados, vazios de emoções.
Em suma, acho que o gato é um totem moderno. Por mais que se diga, por mais que se façam discursos sobre a evolução, a civilização e um monte de palavras em “ção”, o homem não progrediu muito desde seus primórdios: continua a crer que não está aqui por acaso e que deuses em sua maioria benevolentes zelam por seu destino.