Estampas de Marcelo Rosenbaum para a Tok & Stok

Estampas de Marcelo Rosenbaum para a Tok & Stok

 

 

É só se entregar à beleza do Caju. 

Não tão fálica quanto a banana, nem tão feminina quanto a maçã, essa fruta nativa do Brasil parece até guardar, em seu desenho, simbologia própria. A palavra vem do tupi aka’yu, “noz que se produz” para uns, “fruto amarelo” para outros. 

A tradição oral dos índios a relaciona com a ideia de ano, uma vez que contavam a idade baseados em cada uma das florações e safras. Daí talvez advenham expressões como “fulano tem seus tantos cajus” ou “de caju em caju”, para querer dizer de ano a ano. No Rio de Janeiro, o substantivo também é sinônimo de um vento forte que sopra de noroeste e anuncia mudança do tempo.  

Momentos Wikipédia e Aurélião à parte, bem que Attilio Baschera e Gregorio Kramer, da loja Again, por exemplo, poderiam apostar de maneira mais veemente nesse ícone nacional, que pode ser rosado, vermelho, amarelo e em alguns casos até meio arroxeado. Afinal, as coleções de tecidos da dupla costumam valorizar coisas daqui.

Cor e forma não faltam. Dá até para pensar em algo 3D, a fim de evocar o prazer tátil que provoca tal comestível — cuja área plantada em estados como Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí e Rio Grande do Norte, segundo o site Cajucultura, deve chegar bem perto de 790 mil hectares em 2010. “Tivemos uma estampa, mas é sempre uma boa ideia”, diz Attilio. “Quem sabe a gente não retoma?” 

A  mesma sugestão vale para outros criativos do universo do design, da decoração e da arquitetura. Aliás, Marcelo Rosenbaum fez, para a Tok & Stok, almofadas com a imagem do fruto. “Adoro caju”, diz o designer, rapidinho, direto do Recife, envolvido com um grande projeto social a ser divulgado em breve. E, ademais, se Ruy Ohtake representou uma carambola no Instituto Tomie Ohtake e uma fatia de melancia no Hotel Unique, por que não o diabo daquela frutinha?    

Nessa viagem cajuística, ainda é possível imaginar como o italiano Giuseppe Arcimboldo (1527?-1593?) usaria — ou usava, sabe-se lá — a dita cuja em suas composições de rostos feitas a partir de legumes, flores e frutas. Só não vale dizer que seria para assinalar um nariz adunco…

Que fique claro: não se pretende, aqui, exibir qualquer conhecimento profundo acerca do maneirismo, movimento a que o pintor pertenceu, ou do Renascimento italiano. Foi um amigão e estudante de Design, Ricardo Silva, que há pouco fez atentar para as obras do autor. Ao deparar com os trabalhos, de qualquer modo, é inevitável perceber ali sementes surrealistas.

Outro brasuca convicto é Vitor Penha. Ao saber da possibilidade de um post sobre o assunto, o arquiteto logo lembrou como morder a castanha — que é o verdadeiro fruto, diga-se — in natura pode ser perigoso. “Uma vez fiz isso e fiquei com a boca toda machucada”, conta. 

É que a casca conteria a toxina uruxiol, um alergênico, eliminada durante o processo de produção dos beliscos que a gente está acostumado a provar. Já a carne — definida como pseudofruto — quase sempre tem certa acidez gostosa, cheirinho bom e aquele travo na boca típico.

Com a fruta cabra da peste se fazem doces ou sucos, como a poética cajuína de Teresina, e há até experiências de produção de papel a partir de suas fibras. Também não dá para esquecer a velha birita. É com o que vem do cajueiro que se faz um drinque bem bom, à base de vodca ou gim, de nome simpático: Caju Amigo.

Caju ainda era — e é — o codinome de Agenor de Miranda Araújo Neto, ou o cantor e compositor Cazuza (1958-1990), que teria completado 52 cajus há pouco mais de um mês, não tivesse morrido precocemente. Efemérides, nesse caso, são de menos. Pode-se considerar que sua contribuição para a música brasileira é bastante para tê-lo tornado intemporal.

Foi em homenagem a esse “mais um cara” que este post se originou.