A pesquisa do Ipea, que na semana passada mostrou que a maioria dos brasileiros acha que mulher de roupa curta merece ser estuprada, reacendeu por aqui uma inquietação que surgiu nos primeiros dias depois do resultado positivo sobre a gravidez: que filho darei para o mundo?

Era mais uma das madrugadas em que dúvidas assumiram o papel de protagonista. Dentre as milhares de perguntas que não davam chance alguma para uma tranquila noite de sono, essa foi a que, de fato, mais incomodou.  Como educaremos a Valentina num momento em que, como disse Marcelo Yuka, existe “um pensamento burro no ar” – que respalda a intolerância, a violência, o desrespeito, a truculência, a homofobia, o racismo, o machismo?

(Foto: Reprodução)

Será que seremos capazes de transmitir os valores que consideramos fundamentais? Como? E mais: será que, depois de sair do nosso colo, Valentina continuará acreditando em nossos valores? Será mesmo que a criação e educação que recebemos e damos em casa são suficientes para formar um adulto sem um senso comum típico dos tempos da Inquisição?

O estudo do Ipea nos propôs desafios concretos: educar a Valentina para que ela faça parte dos 35% que não consideram merecedoras de violência mulheres que usam roupas curtas; para que ela também esteja no grupo dos 39% que não acredita que se a mulher soubesse se comportar, as estatísticas de estupro seriam menores.  Estes desafios se juntaram a outros que, de tempos em tempos, são motivos de longas discussões – em mesas de bares, nas redes sociais, nos almoços de família.

Quero que a Valentina não se conforme quando jovens forem acorrentados em postes e homossexuais apanharem. Quero que ela não se conforme com a intolerância, que ela comemore quando assistir um beijo gay numa novela da Globo (na verdade, até lá, espero que isso seja algo rotineiro, como é na vida real), que não admita desrespeito onde quer que esteja, e que, por mais que o dia a dia insista em provocá-la….ela não saia por aí com uma foice na mão caçando bruxas.

*A Marilia Neustein também escreveu sobre a pesquisa do Ipea no ‘Sem Retoques’:

É, sim, pelos 65%