Na sexta, quando pensava sobre o presente e o almoço de Dia das Mães para a minha mãe, minha ficha, finalmente, começou a cair: no ano que vem, já estarei com a Valentina no colo, celebrando a maternidade (e esperando aquele lindo arranjo de flores).

Confesso que bateu um arrepio – do dedinho do pé aos fios de cabelo -, aquele frio na barriga. Uma sensação que ainda não sei explicar. E que talvez daqui a um ano continue não conseguindo dimensionar. Deve ser daqueles sentimentos sobre os quais nunca conseguiremos falar. Ou porque não encontramos palavras ou simplesmente porque não estão aí para serem explicados mesmo.

Como ainda não consigo enxergar meu primeiro Dia das Mães, o post desta data é da Mirella D’Elia*, a mãe da Maria – que, a partir de agora, passará a colaborar com o Apenas Grávida.

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Ei, você! Sua ficha já caiu? Você já se deu conta de que este é o seu primeiro Dia das Mães? Sim, hoje essa data – tachada de meramente comercial por uns e celebrada intensamente por outros – é sua. Todinha sua (e da sua mãe, claro, mas isso é papo para outro post). Deixe para trás os anos de lamúrias. Esqueça aqueles outros Dias das Mães em que você lamentou, chorou e soluçou por não ter uma criança em seus braços. Supere a sensação de frustração a cada exame de gravidez negativo. Delete as crendices, estratagemas, receitas infalíveis e comentários daqueles que desconhecem as reais dificuldades de um casal que demora e/ou não consegue ter um filho.

Faça um exercício. Relembre sem moderação cada passo que você deu até chegar aqui. A começar pela fugaz e ilusória sensação de que engravidar seria simples. “Basta relaxar”, diziam – em alguns casos, nem mesmo entrando em alfa. Passe em revista inúmeras tentativas que se revelaram inúteis. Puxe pela memória. E aquela vez – mais de uma, na verdade – em que você teve CER-TE-ZA de que tinha todos os sintomas de gravidez? Para, depois, se frustrar ao sentir a temida cólica menstrual? Engula o choro.

Prossiga. Em todo esse tempo, você viu famílias ao seu redor florescendo enquanto a sua lutava para crescer. Seu tempo, muitas vezes, parecia surreal. Mas estava passando rápido – o que aumentava ainda mais as dificuldades. Você acabou aprendendo, na marra, a lidar com tudo isso. E a apostar no silêncio como melhor aliado. Pense. Dos exames cuja dor parece proporcional à complexidade de seus nomes (como esquecer a histerossalpingografia?), passando pelas sessões de acupuntura, até chegar às três inseminações artificiais e às quatro fertilizações in vitro foi uma longa jornada. Que, por vezes, pareceu interminável. Mas chegou ao fim.

Agora relaxe. Mergulhe na deliciosa sensação de visualizar o rosto de sua filha mesmo à distância, de olhos fechados. Ouça sua voz mesmo quando ela dorme. Sinta seu cheiro mesmo a quilômetros de você. Deguste cada sorriso, se embriague a cada olhar, a cada descoberta. Desça ao chão com ela. Deite e role. Volte a ser criança. Devore esse amor que, por mais intenso que seja, revela-se novo a cada dia. Comemore: ela finalmente chegou – depois de seis anos de espera. E agora? Esse é, enfim, seu primeiro Dia das Mães. Ei, você! Sua ficha já caiu?

* Mirella D’Elia, 38, é jornalista há 20 anos e mãe de Maria há seis meses.