À espera da Valentina (Foto: Denise Andrade)

Depois de 38 semanas – mais conhecidas como nove meses e quinze dias – chega o dia em que o médico surge com o tal pedido de licença maternidade. E o frio na espinha enquanto ele carimbava e assinava aquela folha que marca o início da nova fase? E os batimentos acelerados? E as mãos suando frio? Não sei se posso dizer que passou rápido, devagar ou se foi no tempo e no jeitinho que tinha de ser, mas é fato: chegou a hora de parar.

Mais do que isso. Chegou a hora de virar a chave. De esquecer a rotina café da manhã com as manchetes dos jornais, de parar de se frustrar com os furos da concorrência, de não ficar conectada até tarde da noite só para ver os números da mais recente pesquisa eleitoral, de não se preocupar com pautas e apurações. É hora de não marcar cafés e almoços com as fontes e não bater mais cartão nos eventos noturnos atrás de boas notas. De também não ter de se desdobrar para conseguir dar conta de ir ao pilates, ao salão e não deixar de ver os amigos queridos. É chegada a hora de a vida mudar.

Imagino que para cada mãe essa virada de chave aconteça de maneira diferente. Para mim, confesso, não tem sido um movimento tão simples. No último mês, não tão consciente, me entupi de trabalho como se não estivesse na reta final da gravidez. Cobri a abertura da Copa, as convenções partidárias, lançamentos de livros até altas horas. Teve dias de sair de casa às 7 horas e só voltar depois das 22 horas. E, sem o menor problema, encarei pescoções de sexta e vi o relógio passar da meia-noite na redação.

Há duas semanas, por recomendação médica, precise largar por uns dias o papel de grávida-workaholic-sem-tempo-para-nada e baixar a bola. Foi só então que me dei conta: eu estava fugindo. Para não surtar na ansiedade pré-parto, mergulhei de cabeça no trabalho. E, como não poderia deixar de ser, quando me dei conta de toda essa fuga, ela – a culpa – deu o ar de sua graça.

Como tenho uma ‘queda’ por penitências, elas não demoraram a aparecer: estou sendo relapsa com a maternidade! Já não era a hora de pisar no freio e ficar 24 horas pensando nas coisinhas da Valentina? Será que eu não deveria ter lido mais sobre a gravidez, sobre o sono e choro do bebê? E mala da maternidade já não tinha que estar pronta?

Os dias em casa foram fundamentais. Não só para aquietar, mas para eu entrar em contato com a maternidade e prestar atenção em cada movimento da Valentina. Também organizei as roupinhas por tamanho, arrumamos a mala para levar para a maternidade, esqueci as notícias e me debrucei na leitura para mães de primeira viagem. Voltei ao trabalho mais leve. Mas estaria mentindo se dissesse que as inquietações ficaram para trás. Elas ainda estão por aqui.

Fiquei mais aliviada, no entanto, quando em conversas de corredores no jornal, descobri que não estou sozinha. Ouvi relatos de angústias pré-parto bem parecidas com as minhas. De mulheres que dedicavam a maior parte das horas de seus dias à carreira e, prestes a se tornarem mães, também tiveram dificuldade em lidar com a chegada de uma nova rotina. Mas que sobreviveram e hoje morrem de saudade daqueles dias em que a única preocupação eram os filhos.

… daqui a cinco meses, quando acabar a licença, provavelmente estarei aqui falando da dificuldade de virar a chave de novo e voltar para a rotina do hard news. Não há dúvida.