O quarto está começando a se transformar no cantinho da Valentina. Papel de parede, berço e cômoda já estão lá. A cortina deve chegar nos próximos dias. E, fazendo o check list do que ainda falta comprar, dei-me conta: há muito mais cor-de-rosa do que eu desejaria. No detalhe do papel de parede, na cortina e em várias roupinhas que já estão nas gavetas.

Entre um ultrassom e outro, quando o médico disse que era melhor esperar, mas que era quase certeza de ser uma menina, coloquei logo a primeira condição à família: nada de presentes cor-de-rosa. Por um momento, tinha certeza de que conseguiria deixá-la mais colorida, menos escrava do “rosa para meninas, azul para meninos”. Doce ilusão. Faltam pouco mais de três meses para ela chegar e já estou aqui com a mea-culpa. E ela vem por, até agora, não ter conseguido eliminar o rosa da vida que espera a Valentina; e por ter acreditado que conseguiria controlar o rosa da vida que espera a Valentina.

Parando para pensar, percebi que minha repulsa ao rosa era tão clichê quanto o significado da própria cor no mundo dos bebês. Não sabia – e continuo não sabendo – de onde vem a rejeição. Abri meu armário e me deparei com um blazer pink, uma saia pink e um sapato pink. Ou seja, não odeio rosa. Será mesmo que queria dar um “chega para lá” no mundo brilhante das princesas ou era só mais uma tentativa (frustrada) de parecer moderninha para não se render às obviedades de ser mãe de menina?

Na semana passada, achei o vídeo Rewrite the Story, do The Representation Project (veja abaixo). O filme mostra como o vestido rosa para a menina e a camiseta azul para o menino são apenas o start para uma série de “narrativas limitadores que oferecemos às crianças sobre o que é ser mulher e o que é ser homem”: elas devem ser bonitas e delicadas; eles devem ser fortes e não podem chorar. Elas têm de saber “o seu lugar” e talvez nem precisem ser tão inteligente; eles têm de ser atléticos e não podem se comportar como garotas. A crítica vai direto à divisão do mundo em “coisas de menina” e “coisas de menino”.

Como mãe de primeira viagem de uma menina, não tenho como evitar. Vira e mexe me pego pensando nos vestidos floridos, nos adereços rendados para o cabelo, na decoração vintage e romântica da festa do primeiro ano. Mas agora, escrevendo este texto, pensei: será que a Valentina vai gostar de flores e rendas como eu? Ou será que ela vai entrar em uma moda mais dark? Ou no estilo salto alto e oncinha? Ou será que ela vai querer passar o dia inteiro jogando futebol no melhor estilo menina-moleca e, de repente, se tornar fiel torcedora com todos os gritos do bando de loucos na ponta da língua? (O pai, corintiano, encheria-se de orgulho, tenho certeza)

Pensando nessas e outras dezenas de perguntas, fico mais tranquila para acreditar que o rosa e o azul são apenas detalhes. E que os caminhos que a Valentina escolherá para a sua vida independem da cor do seu lacinho.

Meu twitter: @thaisarbex