Pulverização de agrotóxico em lavoura de soja. FOTO: MÁRCIO FERNANDES/ESTADÃO

Nestes tempos em que a Câmara dos Deputados tenta aprovar um projeto de lei que prevê, entre outros itens, adotar a palavra “pesticida” para definir os produtos químicos que combatem pragas e doenças na agricultura, um professor da Universidade de São Paulo relançou, neste sábado (23 de novembro), um livro cujo título se contrapõe logo de início à iniciativa: “Pragas, agrotóxicos e a crise ambiente – problemas e soluções“. Foi justamente este engenheiro agrônomo e professor titular da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da USP, Adilson D. Paschoal, que cunhou, há 42 anos o termo “agrotóxico”.

Em seu livro, que estava esgotado e está sendo relançado, após 40 anos pela editora Expressão Popular, o professor Paschoal, que também é Ph.D em Ecologia e Conservação de Recursos Naturais pela Ohio State University e criador da disciplina “Agroecologia e Agricultura Orgânica” na Esalq, discorre sobre como os ecossistemas funcionam, como os agrotóxicos atuam no ambiente e explica, cientificamente, a razão para o exponencial aumento do número de pragas depois que os venenos passaram a ser usados em larga escala no campo.

Na época do primeiro lançamento, há quatro décadas, o livro abriu os caminhos para a agroecologia em terras tropicais, juntamente com outra “bíblia” da agricultura orgânica, “Manejo Ecológico do Solo”, da engenheira agrônoma Ana Maria Primavesi. Se hoje o cultivo e o mercado de alimentos orgânicos crescem exponencialmente, não se pode deixar de atribuir isso fundamentalmente à obra desses dois pesquisadores, que por décadas percorreram o Brasil para difundir suas ideias entre agricultores, pesquisadores e outros interessados.  O professor de 78 anos costuma contar que, na época da primeira edição, os estudantes interessados no assunto andavam com dois livros embaixo do braço: o de Ana Primavesi e o dele.

Em entrevista ao Estado, Paschoal explica por que preferiu adotar o termo “agrotóxico”, e não “pesticida”, “agroquímico”, “praguicida” ou “defensivo” – este, o mais usual na indústria fabricante de agroquímicos. “O termo ‘agrotóxico’ surgiu em 1977, da necessidade que havia de uma terminologia para os produtos usados na agricultura e na criação animal, que traduzisse exatamente a natureza deles, ou seja, de serem tóxicos a todo tipo de vida”, descreve, dizendo também ser uma palavra de fácil entendimento quanto ao perigo que representa. “A palavra ‘agrotóxico’, que vem do grego ‘agros’ (campo) e ‘tokicon’ (veneno), tem sentido geral e inclui todos os produtos de natureza tóxica usados na agricultura para o manejo de pragas, patógenos (doenças) e ervas invasoras”, descreve o professor, lembrando, ainda, que a ciência que estuda os efeitos desses tipos de produtos é chamada “Toxicologia”.

À parte as explicações científicas, o fato é que o nome “pegou”, foi adotado oficialmente pela legislação brasileira e é o mais ouvido no meio rural e nos centros urbanos.

Quanto ao agrotóxico em si, Paschoal acredita que se trata de um ingrediente fadado a uma ineficiência cada vez maior. Ao Estado e também no seu livro, ele descreve a imensa capacidade de adaptação dos insetos e, consequentemente, sua habilidade em criar resistência cada vez maior aos venenos agrícolas. Por isso, para o professor, a indústria fabricante pode continuar desenvolvendo novos ingredientes ativos, mas, cedo ou tarde, eles acabarão se tornando ineficazes. “Os insetos estão neste mundo por cerca de 500 milhões de anos e a espécie humana (Homo) há pouco mais de 2 milhões; houve, assim, pelo menos 498 milhões de anos para os insetos se adaptarem às condições adversas do meio, criando resistência, no caso a produtos químicos, como mecanismo pré-adaptativo”, explica.

Ele comenta também que desde a Revolução Verde, na década de 1960 – que lançou as bases do uso intensivo de adubos químicos e agrotóxicos na agricultura, aliado à monocultura -, princípios ativos foram sendo substituídos por outros, sem que o problema das pragas e doenças agrícolas tivesse sido resolvido. “A própria FAO abandonou a ideia de Revolução Verde e passou a apoiar a agroecologia”, assinala o professor. “Não se pode continuar a combater o efeito; é preciso descobrir o que leva as espécies a se tornarem pragas, e um desses fatores de desequilíbrio é o agrotóxico.”

Paschoal prova, em seu livro, a relação entre o volume de agrotóxicos usados com o aumento do número de pragas. Ele cita, por exemplo, que até 1958, 193 pragas existiam nas culturas no País. De 1958 a 1963, 50 outras foram adicionadas. “De 1963 a 1976 – já com o pacote da Revolução Verde sendo empregado -, 350 outras espécies foram acrescidas como pragas dessas mesmas culturas”, comenta. “Ou seja, de 1958 a 1973, 400 espécies foram referidas como pragas, na média de 22 novas pragas por ano.” No mesmo período, diz, 204 agrotóxicos foram postos no mercado brasileiro. Além disso, hoje o Brasil figura entre os principais consumidores de agrotóxicos no mundo.

A parte “soluções” no título do livro reside, segundo Adilson Paschoal, na agroecologia, que fundamentalmente preserva os inimigos naturais das pragas, e não os elimina, como fazem os agrotóxicos. “Nos trópicos, o que restringe a incidência de pragas não é o frio, como nos países de clima temperado, mas a biodiversidade”, continua. “O problema é que os agrotóxicos eliminam, além da praga, seus inimigos naturais, acentuando os danos.” Por isso Paschoal defende uma “virada de chave” nos sistemas agrícolas, em favor dessa biodiversidade. “Qualquer sistema biodiverso é sustentável e estável”, diz.

Mas ele alerta que, na agricultura industrial praticada atualmente é impossível deixar de usar agrotóxicos: “As pragas dariam cabo de tudo”, diz. Isso porque o sistema não é pouco biodiverso e depende da tríade adubo químico-agrotóxico-sementes melhoradas. O professor da USP defende, por isso, a agroecologia, que se assenta em princípios muito diferentes, nos quais a praga fica sob controle natural pelo uso de variedades resistentes ou tolerantes, os inimigos naturais são preservados e o solo é um meio biológico, que alimenta com uma riqueza diversa de nutrientes os vegetais, e não apenas um “suporte” para as plantas.

Quanto ao argumento recorrente, de que a agricultura orgânica não conseguiria ser feita em larga escala, ele lembra do exemplo da família Balbo, dona da marca Native, que cultiva mais de 15 mil hectares de cana orgânica em Sertãozinho (SP). Além disso, “o tamanho da propriedade não é razão limitante para o emprego de técnicas agroecológicas”, ressalta. “Para mim, uma propriedade de 600 hectares representa quatro de 150 hectares, que podem ser manejadas adequadamente fazendo-se rotações de culturas de modo a garantir diversidade, estabilidade econômica e otimização do uso de energia no sistema.”

* O livro pode ser adquirido na Editora Expressão Popular, por R$ 25,00.