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Depois do workshop sobre plantas alimentícias não convencionais, ou Pancs, você nunca mais vai olhar para aquele mato que cresce entre o concreto de calçadas nas ruas das cidades da mesma maneira. Ontem, o Movimento Urbano de Agroecologia de São Paulo (Muda-SP) reuniu, no Sesc Pompeia, zona oeste paulistana, cerca de 30 pessoas interessadíssimas no assunto, entre gestores ambientais, cozinheiros, jornalistas, biólogos e até a síndica de um condomínio – que quer transformar a área verde que permeia os edifícios em jardim comestível.

O evento faz parte das comemorações da Semana do Meio Ambiente – aliás, hoje é o Dia Mundial do Meio Ambiente – no Sesc Pompeia. Hoje e amanhã haverá mais duas oficinas gratuitas de criatividade do Muda-SP (retirada de senha meia hora antes): hoje, das 14h30 às 17h30, será abordado o cultivo de ervas medicinais e o preparo de receitas para restabelecer o equilíbrio do corpo e da mente, e amanhã, no mesmo horário, o tema será como produzir cosméticos naturais para uso diário.

O gestor ambiental, “cozinheiro amador”, como se define, e autor do blog Matos de Comer, Guilherme Ranieri, foi quem apresentou as ditas Pancs, muitas delas tidas como “mato” e, para surpresa dos presentes, comestíveis. “Vocês sabiam que a planta do hibisco, aquela flor que simboliza o surf, é totalmente comestível?”, começou Guilherme.

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O talo da taioba, assim como sua batata, são comestíveis. FOTO: TÂNIA RABELLO

E foi emendando com taioba (planta de folhas largas que dá em áreas de brejo); uva japonesa (uma árvore que dá uma espécie de fruto cuja sabor fica entre a uva-passa e a noz e é bastante encontrada na arborização urbana); bertalha, serralha (riquíssima em cálcio), passando também por cúrcuma, batata-doce laranja, cará-moela, salsão, cardamomo brasileiro, marupá, ora-pro-nobis (bastante encontrada como mato por aí, bastando saber identificá-la) e muitas outras plantas, inclusive várias nativas, as quais simplesmente nos esquecemos que existem.

Ao fim de uma simpática apresentação do que são as Pancs e várias outras curiosidades em torno do assunto, o momento que todos esperavam: a degustação de pratos preparados com elas. Como um milk-shake feito com a batata da taioba, açúcar e leite. Ou um enrolado de folhas de taioba ao molho de tamarindo (delicioso) ou, simplesmente, batatas doces laranjas, batata de taioba, chá de vinagreira, e outras iguarias. E, depois do evento, uma excursão pelo bairro da Pompeia atrás dessas plantas que crescem naturalmente, por resistentes que são.

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Enrolado de folhas de taioba, batata doce, uva japonesa, batata de taioba, e vários outros pratos foram servidos na oficina criativa do Muda-SP. FOTO: TÂNIA RABELLO

Em sua exposição, Guilherme reforçou bastante a importância de resgatarmos o consumo destas plantas por alguns motivos essenciais: aproveitar o que a natureza dá espontaneamente e recuperando a nossa autonomia alimentar em relação ao consumo imposto pelo mercado. “Não consumimos praticamente nada de vegetais nativos no Brasil”, alerta. E também desmistificar essas plantas, que ultimamente têm sido “gourmetizadas” por vários chefs de cozinha, que as transformam em pratos de custo proibitivo.

Além disso, Guilherme lembrou que o resgate desses alimentos, muitos cultivados por agricultores familiares e orgânicos, pode contribuir para estimular mais ainda a agricultura orgânica. “Não recomendo que se fique coletando para comer essas plantas de ruas e praças, pois não se sabe em que tipo de solo elas estão crescendo, se o solo está contaminado ou não,  por exemplo”, diz Guilherme. “Ideal, então, é ir à feira orgânica mais próxima, mostrar a planta para o produtor e encomendá-la”, diz. “Muitos produtores deixam de trazer essas plantas para suas bancas porque simplesmente não há procura”, continua ele, lembrando que se uma demanda se formar em torno disso, estimula também sua produção. “Nós, consumidores, somos a chave da mudança”, enfatizou.

Mudança que a síndica Maria Gláucia, de um condomínio na Rua Heitor Penteado, no Sumarezinho, quer incutir na cabeça dos moradores. O condomínio, diz ela, o mais arborizado da região, com uma área verde de cerca de 200 metros quadrados, encontra-se na seguinte polêmica: se mantém as plantas ou abre mais vagas de estacionamento. “Já plantei ingá, araçá-vermelho, pitanga, jabuticaba, romã, mexerica e agora vou plantar também as Pancs e distribuir a produção entre os moradores do condomínio”, diz Maria Gláucia, que pretende, com isso, mudar o pensamento dos apoiadores do estacionamento. “Eles querem tirar a área verde para colocar mais carros e vou tentar convencê-los, com estas plantas comestíveis, que a área verde é mais importante, fazê-los  interagir com o espaço verde”, diz ela, que saiu do Sesc Pompeia com uma sacola cheia de cascas dos vegetais exibidos na oficina criativa. “Vão para a composteira do prédio”, diz.

Agrotóxicos e agroecologia

O Muda-SP abordou também, na ocasião, a questão do envenenamento dos alimentos por agrotóxicos. Suzana Prizendt, a coordenadora em São Paulo da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, apresentou a situação da poluição ambiental e sistêmica que os agrotóxicos vêm causando ao longo de anos, entre outras questões. Já a  jornalista Carol Ramos apontou as saídas para isso: a agroecologia e como é importante reforçar a cadeia de consumo de orgânicos para que cada vez mais haja produtores – com consequente queda de preços.