Capa do livro sobre agricultura sustentável da FAO

Um livro recentemente lançado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO/ONU) promete subsidiar políticas públicas que visem à adoção, de forma ampla, de uma agricultura sustentável. “Alimento sustentável e agricultura – uma Abordagem Integrada”, editado pelo engenheiro agrônomo brasileiro Clayton Campanhola e lançado no início de fevereiro, tem como principal mérito apresentar evidências de ponta de que sim, a agricultura sustentável pode ser continuamente melhorada e adotada “em diferentes escalas”, ressalta a FAO em nota.

Mostra alternativas viáveis que confrontam o main stream, que sentencia que é impossível produzir alimentos para o mundo sem o uso do pacote tecnológico empregado desde a Revolução Verde, nos anos 1960, que contempla o uso de sementes melhoradas, agrotóxicos, adubos químicos e mecanização intensiva. Para o brasileiro José Graziano, diretor-geral da FAO, “chegamos ao limite do paradigma da Revolução Verde”. Ainda na nota da FAO, Graziano cita que o mundo não pode “continuar a produzir alimentos da mesma maneira”. “É necessário mudar para uma abordagem mais interconectada da sustentabilidade”, acrescentou.

Recentemente no Brasil os limites da agricultura baseada na Revolução Verde ficaram patentes. Em agosto do ano passado, uma juíza federal substituta da 7ª Vara do Distrito Federal concedeu tutela antecipada para que a União suspendesse, a partir de 3 de setembro de 2018, o registro de defensivos, entre eles os feitos à base de glifosato – o principal agrotóxico utilizado nas lavouras de grãos do País, principalmente soja e milho.

O setor agropecuário e também a Advocacia-Geral da União (AGU) recorreram da decisão e posteriormente saíram vitoriosos. Na ocasião, porém, o então ministro da Agricultura, Blairo Maggi, foi categórico: a proibição do glifosato impediria o plantio de 95% da área de soja, milho e algodão, as três maiores culturas anuais do País. “É muito importante dizer: não há saída sem o glifosato; ou não planta, ou faz desobediência da ordem judicial”, disse o então ministro, deixando clara a dependência extrema da agricultura de larga escala desse agrotóxico, desenvolvido pela Monsanto – que foi recentemente comprada pela Bayer.

Pois o livro recém-lançado tenta justamente apontar essas saídas e – o principal – apresenta políticas para “resolver os conflitos de interesse que inevitavelmente surgem em meio à necessidade de mudança”, diz o diretor-geral da FAO. “Muitas vezes, tentar encaixar novas técnicas nos padrões existentes impossibilita a integração de todos os atores e interesses para seguir em frente”, continua Graziano. Ele acrescenta que “a única maneira” de integrar esses atores e interesses é “revisar políticas e orientações”.

Publicado pela FAO em parceria com a Academic Press Division da Elsevier, o livro, de 585 páginas, reúne o trabalho de 78 especialistas da FAO, além de uma ampla variedade de universidades e organizações no mundo. Ele abrange, em 48 capítulos e 5 seções, desde demografia e pobreza rural até biodiversidade e escassez de água, enquanto também ressalta exemplos viáveis de como aumentar a produtividade agrícola por meio da integração de diferentes setores, sem prejudicar e podendo aumentar o capital ambiental e social existente. O livro oferece, assim, uma visão, conceito e métodos comuns baseados em estratégias comprovadas e amplamente aceitas para melhoria contínua da sustentabilidade nos cultivos.

“Governos, cientistas, sociedade civil e setor privado precisam de um entendimento comum de conceitos, métodos e estratégias, que não devem ser pensados separadamente, mas sim de forma interconectada por todos os setores”, disse Clayton Campanhola, editor-chefe da publicação. O livro, direcionado por isso a formuladores de políticas, profissionais de pesquisa e extensão agrícola, profissionais de desenvolvimento e estudantes e professores de ciências biológicas, sociais e agrícolas, termina com um conjunto de recomendações que, se adaptadas e adotadas, melhorariam a produtividade e a sustentabilidade da agricultura e dos sistemas alimentares.

O livro está em inglês e pode ser adquirido no site da FAO.