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Le Pain Quotidien no Brasil trabalha com 60% de ingredientes orgânicos. FOTO: DIVULGAÇÃO

Entre a degustação de uma castanha-do-pará, um café, um suco natural, uma fruta, um pedaço de queijo e de tudo mais um pouco, conversei com o fundador e principal acionista da padaria belga Le Pain Quotidien, Alain Coumont. Na manhã de sábado, dia 30 de maio, nos encontramos, eu, Alain e a diretora de Operações da Le Pain Quotidien no Brasil, Flávia Lorenzetti, na Feira do Produtor Orgânico do Modelódromo, no Ibirapuera, zona sul da capital. O local do encontro não poderia ter sido melhor para falar do nosso assunto preferido: alimentos orgânicos.

Em termos de Brasil, a novidade: até agosto a marca de padarias vai inaugurar sua quinta loja em São Paulo, desta vez na Vila Nova Conceição. E, sem nem pensar na palavra crise – “Alimento é a última despesa que as pessoas cortam”, acredita Flávia –, até o fim do ano mais uma padaria será inaugurada, talvez em Higienópolis. “Não sabemos ainda; estamos procurando um lugar adequado”, diz a diretora. Com 60% dos ingredientes que usa no cardápio orgânicos, entre pães – todos feitos com farinha orgânica e fermentação natural –, bolos, doces, sopas e pratos especiais com carnes, guarnições e saladas, além de frutas, e, naturalmente, bebidas como café, a ideia é, no médio prazo, informa Flávia, conseguir com que 100% dos produtos oferecidos na rede tenham como origem a produção agroecológica.

Daqui a dois meses uma loja da franquia em Paris ganhará o selo de 100% orgânica, acrescenta Alain Coumont. Ele conta sobre o desafio que isso representa, ainda mais num país europeu, onde o clima temperado não permite, como no tropical Brasil, a produção de todos os alimentos o ano todo. “Agora no Brasil, nas portas do inverno, é capaz de encontrarmos banana”, diz Alain Coumont. Em seguida eu aponto para a banca de frutas ao nosso lado e estão lá: belos  cachos da fruta que, aliás, dá o ano todo no País, sendo ou não cultivada organicamente.

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Alain Coumont, fundador da Le Pain Quotidien, dá uma volta na feira orgânica do Modelódromo, no Ibirapuera. FOTO: TÂNIA RABELLO

Mais do que o respeito à sazonalidade dos alimentos, a grande dificuldade, diz Coumont, tem sido encontrar fornecedores orgânicos de qualidade, principalmente de carnes, frios e laticínios. “Não é fácil encontrar produtos saborosos e de  qualidade”, diz.

Até mesmo legumes e frutas, em tese mais abundantes e diversificados na produção orgânica, passam pelo seu apurado crivo, o crivo de quem também sabe produzir – este belga mora na França, onde mantém, nos arredores de Paris, uma pequena propriedade rural. “Não adianta, por exemplo, eu ter tomate o ano todo e comprar de um fornecedor que o cultive em estufa”, diz Coumont, relatando que, na França, tomates de cultivos protegidos são insípidos. Sua visita ao Brasil, pela décima vez, teve o propósito justamente de verificar o novo cardápio adotado nas lojas. “Toda mudança de estação nós alteramos o menu, procurando adaptá-lo não só ao clima, como à sazonalidade de alimentos e à  oferta de produtos que, justamente por estarem na safra, podem ser encontrados a preços mais  compensadores”, explica Flávia.

Além disso, Coumont aproveitou para visitar alguns fornecedores da rede no País, como a Fazenda Santa Margarida, de São Manuel (SP),  produtora do café orgânico servido nas lojas paulistanas.

Sazonalidade e respeito à produção local são intrínsecos à Le Pain Quotidien, complementa Alain Coumont: “Economia e ecologia começam com as mesmas letras; temos de respeitar e optar pela produção local, movimentando a economia e favorecendo a ecologia”, diz o empresário. Sobre os investimentos por aqui – a Le Pain Quotidien no Brasil pertence a um fundo de investimento belga, que detém 98% das ações –, Coumont mostra-se bastante animado. Para ele, São Paulo, principalmente, onde estão as quatro lojas brasileiras da rede de padarias (na Vila Madalena, no Itaim Bibi, na Cidade Jardim e na Vila Olímpia), passa por uma “virada de chave” em relação aos orgânicos semelhante ao que passou Nova York há dez anos. “Hoje se pensa muito em alimentação saudável, em todo lugar pode-se encontrar produtos naturais ou orgânicos”, diz. “Acreditamos muito no mercado brasileiro deste segmento”, finalizou.