Ana Primavesi, 95 anos de vida dedicada à vida. FOTO: LUIZ PRADO/LUZ

Sob a discrição de dona Ana Maria Primavesi, de 95 anos, esconde-se um manancial de histórias que dificilmente vêm à tona, a não ser praticamente entre familiares. Várias delas lembranças de perdas e muita dor, como as da 2.ª Guerra Mundial e, já no Brasil, a morte precoce do filho mais novo. Mas a geógrafa e professora Virgínia Mendonça Knabben insistiu. Foi chegando de mansinho, aproximou-se da família Primavesi, e por fim alcançou, mais do que a mente de dona Ana, também seu coração e a alma.

A convivência praticamente semanal na ampla casa do Campo Belo, bairro da zona sul paulistana, onde vivem os Primavesi, e as tardes passadas em longas conversas com a “esfinge” Ana acabaram permitindo a Virgínia explorar arquivos, livros, fotos, pesquisas, e anotações há muito guardadas, desde a época em que Ana resolveu deixar o mundo acadêmico na Universidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, e se fixar em seu sítio, em Itaí, interior de São Paulo, há cerca de três décadas.

O “decifra-me ou te devoro” foi finalmente desvendado quando Virgínia deparou-se com um diário no meio de toda aquela papelada, escrito em alemão. Com o caderno, que passou a ser lido, traduzido e revivido por Ana Primavesi naquelas tardes no Campo Belo, várias das lacunas da trajetória dessa engenheira agrônoma apaixonada por solos – mais ainda, pela vida que os solos contêm – puderam ser preenchidas.

E Virgínia, exultante, convenceu-se de que finalmente tinha em mãos elementos suficientes para uma biografia. A biografia da doutora Ana Primavesi – sem exageros, a precursora da agroecologia no Brasil.

Esta agrônoma formada na Universidade Agrícola de Viena, na Áustria, e com doutorado em Cultura de Solos e Nutrição Vegetal e vários livros e trabalhos acadêmicos – muitos em parceria com o marido, já falecido, Artur Primavesi -, é a responsável por lançar as bases científicas do cultivo orgânico nos trópicos. Se hoje a agricultura orgânica renasce como alternativa efetivamente viável para alimentar a população mundial, aliando à produção de alimentos a conservação dos solos, é principalmente nos estudos de Ana Primavesi que ela se debruça.

Nos meios agroecológicos, costuma-se falar que o trabalho dessa engenheira agrônoma representa não uma volta ao passado, quando todos os cultivos eram orgânicos, mas uma sinalização para o futuro, de como a agricultura atual, numa encruzilhada, com o esgotamento da sua capacidade produtiva sob vários aspectos, deve reaprender a trabalhar. Para começar, reciclando nutrientes que o próprio solo oferece, de graça.

A biografia, recém-lançada

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No livro “Ana Maria Primavesi – Histórias de Vida e Agroecologia”, que a editora Expressão Popular acaba de lançar, Virgínia Knabben resgata desde a infância de Ana, num castelo na Áustria, onde sua família praticava agricultura e pecuária orgânicas (pois naquela época, antes que a Revolução Verde viesse com seus pacotes prontos para a natureza, com sementes, adubos químicos e agrotóxicos, 100% da agricultura no mundo era orgânica), até seus estudos com o farmacêutico apaixonado por botânica e química, professor F. Görbing.

Como um “vidente”, este mestre relacionava as condições das lavouras à nutrição da terra. A partir desses ensinamentos, começou a se formar uma agrônoma especializada em desvendar os segredos do solo – dos quais todos os seres viventes dependem, Ana não se cansa de reafirmar. Abaixo, o relato de como tudo começou para Annemarie, seu nome europeu, que mais tarde, no Brasil, verteu para Ana Maria:

“Görbing passava pelos campos a cavalo. Mais adiante, desceu, cavocou a terra grudenta, e puxou a raiz deformada, que recebeu seu diagnóstico. Montou novamente e seguiu, Annemarie atrás, extasiada. Mais adiante, ele disse: ‘Aqui vocês colheram apenas 1.600 quilos de cereal porque se esqueceram do fósforo’. Todos o olhavam, surpresos. De onde ele tirava isso? Como? ‘Görbing é meio vidente’, comentavam. (…) Annemarie sorria. Ela tinha entendido completamente como ele tinha feito aquilo, mas não disse nada. Não é um disparate, pensou consigo. Os campos têm culturas homogêneas com colmos fortes que são embalados pelo vento. As batatas são grandes e lisas, bem diferentes das ásperas e doentes de antigamente. Não eram variedades diferentes. O solo era diferente! Como um milagre, a natureza pertencia ao homem e o homem a ela, mas Görbing era maior do que todos os outros, porque conhecia as suas leis. Annemarie começava a compreender muitas coisas, inclusive as incompreensíveis, porque agora ela tinha o caminho.”

Além do “mago” Görbing, também o professor e químico F. Sekera, que estudou a composição dos solos em laboratório – chegando às mesmas conclusões aparentemente empíricas de Görbing – foi fundamental para que Ana Primavesi tomasse consciência da importância do solo e principalmente de sua conservação para a sobrevivência do próprio planeta.

Eis mais um trecho que Virgínia resgatou do diário de Ana e que dá a dimensão da importância dos solos: “O maior bem que os homens já deixaram a seus herdeiros foi o de J. Görbing e F. Sekera. Não é em dinheiro mas sim em sabedoria profunda quanto às verdadeiras razões da decadência dos nossos solos, do ressecamento do globo terrestre, dos surtos de fome, das inundações e estiagens, finalmente de catástrofes naturais e miséria. Sua sabedoria eles não levaram para o túmulo. Deram-na para nós – os seus herdeiros: deram para o mundo inteiro o meio de saber como remediar isso tudo, como recuperar as terras, evitar todas as catástrofes e desesperos, a decadência dos povos e o seu desaparecimento. E este meio é tão simples, tão inacreditavelmente simples, que hoje não podemos compreender como ninguém antes teve tal ideia”.

Além dos estudos e da vida acadêmica de Ana Primavesi, Virgínia resgata em seu livro tempos dolorosos, como a Segunda Guerra Mundial, quando Ana perdeu dois jovens irmãos e também o período passado em um campo de concentração na Alemanha. Quando enfim foi solta, disseram-lhe que aquilo fora um “engano”. O encontro com sua alma gêmea, o também austríaco Artur Primavesi, na Europa, seus desencontros no período conturbado da guerra, até que finalmente casassem e decidissem zarpar para o Brasil, em 1948, também são detalhes descritos no livro que nem mesmo pessoas que há anos conviviam com Ana Primavesi sabiam.

Como dito no início, Virgínia insistiu. E, seis anos depois de se comprometer a desvendar a trajetória desta pessoa tão fundamental para a agricultura orgânica no mundo, nos entrega este presente, a biografia de dona Ana Maria Baronesa Primavesi. Que tal começar a ler ainda hoje, que é Dia Mundial dos Solos?

Para adquirir o livro, entre em contato com a editora Expressão Popular. Para falar com Virgínia, seu e-mail é viknabben@uol.com.br