Tsuzuki: de campeão de venda de agrotóxicos a agroecologista. FOTO: VIRGÍNIA KNABBEN/DIVULGAÇÃO

No cenário atual, em que a agricultura convencional se encontra numa encruzilhada para aumentar o rendimento de suas lavouras, principalmente a da soja, estagnada em 50 sacas por hectare há pelo menos 15 anos, vale a pena lançar uma luz sobre os estudos do engenheiro agrônomo Yoshio Tsuzuki, falecido hoje, aos 87 anos, em São Paulo (SP).

Junto com a engenheira agrônoma Ana Primavesi – a precursora da agroecologia no Brasil –, ele fez um intenso trabalho que pode ser qualificado de “conscientização” dos agricultores, para que eles adotassem uma visão holística dos cultivos, onde pragas e doenças nas plantas são encaradas como consequências, e não como causas dos problemas nos plantios.

E verificou, na prática, as contradições da agricultura que se baseia na Revolução Verde, com o uso intensivo de insumos como agrotóxicos e adubos químicos, que nutrem apenas parcialmente as plantas. Logo que chegou ao Brasil, dedicou-se a vender fertilizantes e agrotóxicos, chegando a campeão de vendas da Cooperativa Agrícola de Cotia, a CAC. Já naquela época, porém, vislumbrou a encruzilhada em que os cultivos iriam se deparar, sem ganhos expressivos de produtividade, por mais estudos e biotecnologia que sejam empregados atualmente.

No livro recentemente lançado pela editora Expressão Popular, Ana Maria Primavesi – Histórias de vida e agroecologia, a autora, Virgínia Knabben, relata a trajetória de vida deste importante personagem dos cultivos orgânicos no País – sua empresa, a Technes, continua até hoje a disseminar técnicas mais limpas e principalmente conservacionistas de fertilização do solo, apontando, quem sabe até mesmo para a agricultura convencional, se esta se dispuser a aprender com ele, os caminhos para os cultivos do futuro. Deliciem-se com o texto de Virgínia:

“Yoshio Tsuzuki nasceu no Japão, em 1929. Formou-se em agronomia e veio para o Brasil, em 1953. Trabalhou na Cooperativa Agrícola de Cotia, mas o que ganhava com a venda dos produtos era pouco, não dava para viver. Teve uma trajetória profissional muito semelhante à de Lutzenberger – trabalhou na Bayer de 1959 a 1963, vendendo agrotóxicos, e depois mudou de opinião. Tsuzuki era o campeão de vendas da companhia. Das 9 mil toneladas produzidas, um terço, ou 3 mil toneladas, eram vendidas por ele. Cita o DDT, o BHC – hoje produzidos no Brasil para agricultura – e o Parathion como alguns dos produtos que receitava. Trabalhava com metas a cumprir, e a receita dependia da cota que deveria ser vendida, não do que realmente era preciso ser usado. Quanto maior a venda, maior era o desconto para quem comprava, um negócio que gerava muito dinheiro. “Quem fazia tudo direitinho e não precisava usar tanto veneno, mas só um pouquinho, acabava comprando e usando sempre a mais para bater a meta de vendas e obter descontos” – ele conta.

Com o tempo, Tsuzuki percebeu que os produtos que vendia não eram suficientes para acabar com as pragas, que ressurgiam incessantemente. Como agrônomo, sabia o que receitar, mas como funcionário de uma empresa privada, não podia prestigiar a concorrência. “Eu queria fazer receita juntando o melhor produto de cada fabricante”, fala com seu sotaque japonês. Com o resultado das vendas ganhou muito dinheiro, o que o possibilitou pedir demissão da empresa e ganhar o direito de abrir onze revendas de agrotóxicos, entre 1963 e 1967. Nesse último ano, tinha fechado quatro lojas, mas mesmo com as sete restantes observava o aumento da resistência das pragas e doenças, e aquilo o intrigava.

Em 1968, apareceu a ferrugem do café e o governo obrigou os agricultores a usar cobre na plantação. “Vendi muito. Mas naquele tempo eu já sentia, percebia, que o agrotóxico não ia combater até o final as doenças e pragas, porque andando no campo a gente via cada vez mais insetos resistentes aos agrotóxicos. O acaricida não matava mais os ácaros e várias pragas que eu não conhecia apareciam. Muitas doenças não se curavam mais com fungicidas. E aí eu pensei que aquilo estava errado, que eu estava há muitos anos errado, vendendo agrotóxicos. Então, em um ano, liquidei todas as firmas e comecei a minha segunda vida.”

Tsuzuki se calou por um momento. Sentado sob uma árvore na mesma chácara de Cotia que, mais tarde, sediaria a reunião de fundação da AAO (Associação de Agricultura Orgânica), só se ouvia o balançar das folhas. Ele continuou, voz firme e um sorriso de quem fez a coisa certa: “Foi Deus que me fez abandonar aquele negócio de vender agrotóxico. Nasceu da minha cabeça, eu pensava, não adianta continuar a venda, isso é um aviso de Deus, não sei como explicar direito. Também não aconteceu nada para eu tomar essa decisão, como morrer alguém envenenado ou um acidente. Eram leis da natureza que a gente estava contrariando, então era melhor abandonar, escapar.”

“Outro motivo que eu tinha era que minha saúde não era boa naquele tempo. Como eu sabia que as hortaliças eram cultivadas com os venenos, eu não as comia. Nem hortaliças, nem frutas, nem verduras. Eu sentia muito cansaço nas pernas, muita fraqueza. Fui ao médico e ele me disse que meu sangue era ácido por falta de minerais e vitaminas, e que eu tinha que comer verduras, frutas, legumes. Mas onde eu ia comprar verduras sadias, sem agrotóxico? Não tinha.” Em 1970, ele fechou todas as revendas e a que restou não vendia mais agrotóxicos, e sim roçadeiras motorizadas. “Por isso que eu digo – reitera – que minha vida é dividida em duas partes: até 1970, cheia de agrotóxicos, ganhando bastante dinheiro. Depois de 1971, 1972, sem agrotóxico, nenhum grama de agrotóxico.”

Dois anos depois, Tsuzuki comprou a chácara em Cotia, no bairro do Tijuco Preto, e ali passou a pesquisar a agricultura orgânica. Em quatro anos já tinha 2,5 hectares de plantio de hortaliças e três mil galinhas, que forneciam a cama como adubo. Sua forma de criá-las era diferente do que se fazia em granjas convencionais. O telhado possuía abertura para a entrada do sol e para facilitar a circulação do ar, e era de alumínio, que se aquece facilmente e provoca a convecção do ar, que aquecido muito próximo ao forro, força uma circulação maior. Foi a primeira construção desse tipo no Brasil. Até as calhas eram planejadas: captavam a água das chuvas, que servia para as galinhas beberem. O sol provoca o endurecimento das cascas dos ovos, favorecendo a transformação dos elementos. “A sílica se transforma em cálcio, segundo afirmam os macrobióticos, e por isso dávamos a elas uma pedra. que não tinha cálcio, mas sílica.” Tsuzuki baseava-se no método Yamaguishi: “Promover a harmonia entre a natureza e a ação humana consciente, isto é, entre o céu, a terra e o homem, e proporcionar à humanidade a sociedade confortável e estável repleta de riqueza material, saúde e amor fraterno.”

Tsuzuki aprendeu como trabalhar com a enxada, a preparar o solo com ferramentas, que ele não sabia manejar, mesmo sendo agrônomo. Também passou a se aprofundar no que Francis Chaboussou, autor de Plantas Doentes pelo Uso de Agrotóxicos, pesquisou. “Chaboussou descobriu, ao estudar cultivares resistentes às pragas, que estes possuíam uma quantidade extremamente baixa de aminoácidos livres. Na hipótese de que os aminoácidos pudessem ser o alimento preferido dos insetos, fez surgir nas amostras uma dose elevada de aminoácidos, e efetivamente a resistência foi perdida. É também descoberta sua que a superadubação provoca desequilíbrio metabólico que aumenta os danos causados por doenças e pragas. Chamou o estudo de Teoria da Trofobiose.”

Com a produção que obteve na chácara, Tsuzuki não demorou a comprar dois veículos só para entregar as hortaliças, que vendia com o orgulho de tê-las produzido limpinhas, sem venenos, resultado de suas observações atentas. “O equilíbrio do solo sempre está mudando, nunca é estável. Esta é uma das leis da natureza mais importantes. Pensando globalmente, é preciso ter uma base e depois se ajustar, conversando com as plantas. As próprias plantas ensinam o que está faltando ou sobrando. São plantas indicadoras.”

As lições não se esgotavam e o aprendizado se dava porque havia um lidar cotidiano com a terra, um olhar atento aos sinais e um dom. Tsuzuki tem o dom especial de observar e relacionar, um “jeito Primavesi” de lidar com a terra. Não lera o livro Manejo Ecológico dos Solos, nem tinha tido muito contato com Ana. Mas havia uma sintonia, uma coincidência significativa, algo não tão raro de acontecer. Santos Dumont e os irmãos Wright, sem que soubessem um do outro, pensaram no avião. Marie Curie perdera a autoria da descoberta da radioatividade do tório para Gerhard Carl Schmidt por três semanas. Tsuzuki não lera o livro de Primavesi, mas a sincronicidade aparece em seu relato: “No começo, aqui no sítio, tive dificuldades com algumas culturas, como repolho, couve-manteiga e brócolis, que praticamente se perderam nas três primeiras colheitas.

Assim que brotavam, em dois ou três dias vinham as pragas e cortavam tudo. Hoje, a lagarta-rosca ainda continua por aqui, só que fica no meio do mato e não ataca mais as verduras. Acredito que melhorando a terra, os sugadores, os mastigadores, os cortadores, todos desaparecem, talvez por uma mudança de gosto nos alimentos.” Sim, ele estava certo. Porque pensava com a lógica da praga, do ser vivo que se alimentava de suas plantas, o que mostra a beleza e a sutileza da relação que se estabelecera entre ele e as plantas, o manejo e a lógica. “Por isso tudo é que penso o quanto a formação que temos nas escolas é errada, usando fórmulas para calcular as exigências das plantas quanto à chuva, nutrientes, e outras fórmulas para estimar a produção e o lucro, o que acaba não dando certo pois não se leva em conta os fatores da natureza, a ecologia.”

Tsuzuki, assim como Primavesi, também testemunhou os estragos da guerra. Esteve em Nagasaki após a queda da bomba, e em nosso encontro, em 2011, estava feliz, mesmo com o terrível tsunami que atingira o Japão. Tinha acabado de vender um apartamento em São Paulo para poder enviar todo o dinheiro a seus compatriotas. “Recebi muito e agora acredito que devo retribuir.”

Reforçando a sincronicidade com Primavesi, ele diz: “No Brasil, há necessidade de estudar a agricultura tropical e descobrir seus princípios, não apenas importar tecnologias dos Estados Unidos, Japão, Europa. Já consegui descobrir muitas coisas e tenho ainda muitas dúvidas, mas foi preciso viver mais de quarenta anos, porque até os quarenta anos eu me orientava igual a qualquer agrônomo, coletando solos para análises e fazendo cálculos de adubação usando tabelas.”

Toda sua experiência seria de grande valia para o Grupo que se formaria, o Grupo de Agricultura Alternativa, pois a parte prática era a grande questão. Ele explica: “Entendo que no controle de pragas, na prática, o importante é não considerar os insetos e os micro-organismos como inimigos. Originariamente, são seres que vivem em qualquer lugar. Somente sob certas condições excepcionais se multiplicam acima do normal e se transformam em pragas ou doenças. Essas condições são aquelas que exercem estresse exagerado sobre as plantas, como mudanças climáticas intensas ou erros humanos, por exemplo, adubação incorreta e manejo errado da plantação, entre outros. Nessas ocasiões, ocorrem desequilíbrios fisiológicos nas plantas, com falhas de metabolismo que aumentam o teor de aminoácidos livres – alimento preferido dos insetos e micro-organismos – minando a força original de defesa das plantas. É com o enfraquecimento do sistema defensivo que se dá a infestação de doenças e pragas.”