Foto: Higor Blanco

A moda é muito boa com previsões! Seu cerne talvez esteja na previsão de tendências de consumo e gosto. E, geralmente, não costuma errar, afinal, são anos e técnicas dessa indústria focados nesse objetivo. A exposição de fotos “2026”, apresentada em Londres até 29 de agosto, foi concebida pelo stylist Ib Kamara e a fotógrafa Kristin Lee-Moolman e busca retratar a estética do homem para esse tempo futuro: mais libertos para escolher o que vestir, expressivos e seguros, independentemente de sua condição sexual, sexo ou etnia.

Fotos da Exposição 2026

Sim, estou falando da moda sem gênero. Obviamente daqui para frente será um assunto cada vez mais constante. Aliás, já tratamos desse tema recentemente aqui no À Moda Deles. E a pauta ganha relevância novamente através de uma coleção lançada pela marca Fabiano Torino.

À frente das criações está Fabiano Siqueira, um sul-mato-grossense de Dourados, que foi para capital estudar moda. Em 2015 concluiu sua graduação com um desfile de kilts. “Foi um sucesso, incentivado e motivado, continuei colocando em prática tudo que aprendi no curso e resolvi criar a marca Fabiano Torino”, afirma Siqueira.

Questionei o estilista do por que saias masculinas. A resposta é bastante contundente e revela o espírito questionador da Geração Z: “A intensão que tenho é realmente quebrar os paradigmas de gênero que a roupa tem. Acredito que roupa não tem gênero, gosto do conceito e agreguei ao meu guarda-roupa”, pontua Siqueira, que ainda destaca os aspectos de conforto, praticidade e modernidade que as peças sem gênero trazem.

Foto: Higor Blanco

Foto: Higor Blanco

A primeira coleção da marca Fabiano Torino foi inspirada em saias masculinas, mesclando elementos dos modelos clássico e moderno. O resultado são peças práticas, com bom caimento e total conforto.

A ideia de moda sem gênero – e homens de saia –, no entanto, não é nenhuma novidade. O próprio designer sinaliza que durante suas pesquisas encontrou referências ao uso de saias por homens há 3 mil anos a.C., sendo usadas pelos povos Sumérios, Egípcios e até no Império Romano, sempre com diversos usos, menos para segregar gênero.

Aqui no Brasil o tema também já foi abordado. Flávio de Carvalho, um dos mais importantes nomes da geração modernista de 1922, criou a Experiência Nº3 (“New Look de Verão”, uma das mais importantes peças da arte brasileira do Século XX) que consistia numa blusa de mangas curtas, saia acima dos joelhos, meia arrastão, sandálias de couro e chapéu de nylon. Para Carvalho o homem daquele momento era alguém que sentia calor, portanto, uma vestimenta adequada incluiria uma saia.

Traje de verão: Flávio de Carvalho desfilando o “New Look de Verão”/ Reprodução

No tempo da Experiência Nº3 a proposta não foi bem aceita em função dos valores culturais brasileiros arraigados num contexto conservador, machista e moralista, ou seja, só a função conforto não foi argumento que sustentasse uma saia masculina. Hoje, no entanto, o mercado consumidor (e seus valores) é outro e parece muito mais aberto e interessado por novas experimentações no guarda-roupa masculino.