O ator Chay Suede confere o desfile feminino da marca Burberry em Londres (SS16) (Foto: Divulgação)

Parece até um paradoxo, em meio a tanta evolução na estética masculina, ainda coexistir a figura do homem ogro. Tecnicamente podemos chamá-lo de retrossexual, já que seu estilo mais desleixado, menos vaidoso e ligado a moda é uma releitura de homens de gerações recentes (retrô). Uma releitura, pois, sua referência está pautada apenas na imagem, já que seus valores andam bem mais modernos do que foram os de seus avôs e pais.

Uma pesquisa realizada pela empresa Minds&Hearts, intitulada “A Alma Masculina (A Revolução Silenciosa do Consumo Masculino)” aponta que essas características mais grotescas são como uma tentativa de resgate de uma cultura masculina “original” em detrimento da flexibilização que tem passado o comportamento masculino. Hoje são metrossexuais, überssexuais, tecnossexuais, são tantos rótulos para descrever um homem em transição que, na verdade, ainda não sabe muito bem como se comportar e nem onde vai chegar.

O homem contemporâneo está em transição e vive um grande sentimento de anomia, que é um estado de falta de objetivos e perda de identidade, provocado por intensas transformações decorrentes no mundo social. Isso tem deixado os homens confusos, refletindo, muitas vezes, em atos violentos, depressão, vitimização ou tentativa de resgate de uma imagem idealizada do passado. Já assistiu ao desenho da Fox “The Simpsons”? Pois bem, Homer Simpsons é a perfeita descrição desse estado de anomia.

Homer Simpson, exemplo de anomia masculina (Reprodução FOX)

Por mais que alguns símbolos masculinos ainda perdurem, como o auto sustento e a força física, temos visto uma nova geração de jovens em processo de ressignificação do masculino. A ruptura dos padrões culturais (perda da centralidade, a queda do “poderio” do homem branco, heterossexual, dono dos meios de poder e produção) e uma gama de possibilidades pós-modernas, afloraram um leque de opções subalternas e, assim, passamos a conviver menos com um único modelo e sim com a coexistência de diversos modelos masculinos. O homem está em busca de uma identidade.

Claramente essa busca tem afetado a moda masculina. Enquanto não se define um novo padrão, os homens têm experimentado, questionado (antimoda) e subvertido a ordem do guarda-roupa masculino conhecida há décadas, mas ainda tudo de forma bastante tímida (principalmente no Brasil). Um especialista, não identificado, entrevistado pela citada pesquisa da Minds&Hearts afirma que, na verdade, o homem não está mais vaidoso, ele sempre foi vaidoso: “O que está acontecendo agora é que existe sim um personagem que não arrisca muito, ele não é fashionista, mas, em vez de subir a bainha e se comprometer em ter uma bainha acima do tornozelo, ele dobra a bainha […] você pode colocar para baixo, cortou, não tem como”.

Para os estilistas entrevistados, os homens estão se reencontrando com as cores, com o divertimento e a flexibilidade no modo de se vestir, pois, segundo os mesmos, o homem nunca havia tido problemas com símbolos da indumentária até a era moderna. Luis XIV, por exemplo, era baixinho e usava sapato alto; ficou calvo, colocou peruca e foi o primeiro monarca a espalhar que a moda é um reflexo da história, do seu tempo. “Durante todo o século XX o closet masculino foi passado a limpo para o corpo da mulher. É muito difícil você entender agora porque existe todo um movimento devolvendo essa roupa para o homem, essa panache, essa coisa colorida que sempre foi dele”, esclarece um dos especialistas à pesquisa.

Os estilistas lembram que, antes da Era Moderna/Industrial os homens demonstravam poder com babados, cores e perucas. Foi a seriedade e rigidez de uma mulher no poder, a Rainha Vitória, que colocaram ao universo masculino muito menos cor e elementos lúdicos e que agora, no século XXI, começam a ser resgatados. Ainda duvida? Dá uma conferida na recente Semana de Moda Masculina de Londres, veja a explosão de cores, estampas e modelagens que já estão sendo propostas pelo mercado para esse “novo” homem.

Isso tudo ainda não é uma realidade massificada, claro, mas já um processo irreversível. Geração Millennials que nos diga!