Nova novela bíblica da Record TV se desprende do tom evangelizador e investe no histórico

Luiza Pollo - O Estado de S. Paulo

'O Rico e Lázaro' é assinada por autora que não possui religião definida; artistas elogiam abordagem

Joana (Milena Toscano) está num triângulo amoroso com seus dois melhores amigos: Zac (Igor Rickli, na foto) e Asher (Dudu Azevedo)

Joana (Milena Toscano) está num triângulo amoroso com seus dois melhores amigos: Zac (Igor Rickli, na foto) e Asher (Dudu Azevedo) Foto: Munir Chatack/Record TV

A nova novela bíblica da Record TV, O Rico e Lázaro, mistura ficção, história e religião seguindo a fórmula que trouxe à emissora níveis animadores de audiência - que chegaram a ultrapassar os da Globo - desde Os Dez Mandamentos. No entanto, na trama que inicia na próxima segunda-feira, 13, o caráter histórico e o lado ficcional parecem se sobrepor ao religioso. Até mesmo a autora, Paula Richard, declara não ser evangélica. "Eu tenho fé, mas nenhuma religião, o que às vezes ajuda no trabalho", afirma. "Fez com que eu estudasse aquele povo, no que eles acreditavam, sem preconceitos."

Os protagonistas da trama são personagens ficcionais desenvolvidos a partir dos bíblicos 'rico' e 'Lázaro'. Enquanto na história religiosa eles são descritos apenas como um homem que vai para o céu e outro que vai para o inferno, na novela ambos têm nome e história. Zac (Igor Rickli) e Asher (Dudu Azevedo) são dois grandes amigos que se tornam rivais porque amam a mesma mulher, Joana (Milena Toscano). O triângulo amoroso é o ponto central da trama, mas o grande segredo, revelado apenas no fim, é qual dos dois é o rico e qual, Lázaro. "Justamente é esta a brincadeira: a gente não sabe onde começa a maldade de um, a bondade do outro. Os dois são muito humanos e vão atrás de seus ideais", relata Igor Rickli.

Religião. Mas, é claro, o pano de fundo religioso que funcionou tão bem para a emissora até agora se mantém. A trama se passa em Jerusalém e na Babilônia nos anos 600 a.C., aproximadamente. "Após o governo de vários reis que se afastaram de Deus, Jerusalém encontra-se mergulhada na idolatria. O Povo de Deus está prestes a perder tudo que Moisés e Josué conquistaram", descreve a sinopse.

Enquanto isso, Joana empenha-se para que o povo hebreu se volte novamente para Deus. Milena Toscano revela que está bastante tocada pela força que sua personagem encontra no divino. "A fé da Joana tem me ensinado muita coisa. Eu acho que, para você ter coisas concretas na sua vida, você precisa acreditar em algo superior. E a Joana tem me ensinado muito isso. Ela tem aumentado a minha fé em Deus."

O rei Nabucodonosor, interpretado por Heitor Martinez.

O rei Nabucodonosor, interpretado por Heitor Martinez. Foto: Munir Chatack/Record TV

Apesar de reunir diversos artistas religiosos, como Milena, vários deles elogiaram o caráter mais histórico da novela. "É muito moderno para o que eu já vi da Record", diz Sthefany Brito sobre sua personagem, Nitócris. Ela contracena com seu irmão da vida real e da ficção, Kayky Brito, o Evil-Merodaque. "A novela é bíblica, mas conta muito da nossa história. Para quem gosta de ler e saber sobre o assunto, é um deleite. Não é só para quem acredita em Deus ou quem é religioso", completa.

Dudu Azevedo segue a mesma linha. "Acho que essa novela em específico tem sido uma passada adiante aqui na Record. Ela deixa de ser uma novela de segmento e passa a ser uma novela que vai atingir um público que se interessa por esse tipo de estética de narrativa", opina o ator. A estética à qual ele se refere já é conhecida do público das novelas mais recentes da emissora: tom épico e visual 'de época'.

Efeitos especiais. O rei Nabucodonosor (Heitor Martinez), outra figura chave da trama, é protagonista de muitas das cenas épicas. Para dar dimensão grandiosa e permitir cenas mais elaboradas, os episódios deverão conter grande carga de efeitos especiais na pós-produção, que servem tanto para criar alguns cenários inexistentes quanto para simular golpes sangrentos nas batalhas. "Há cenários completamente virtuais. Uma coisa é uma cena virtual de uma avalanche, outra coisa são cenas inteiras, de três ou quatro minutos, em cenários que não existem", explica o diretor-geral Edgard Miranda. "Mas, quando fui para São Paulo e vi o parque de computação gráfica que a Casablanca (produtora da novela) tem, eu sabia que ia dar certo."

Heitor Martinez conta que chegou a estudar filmes como 300 para encarar algumas cenas. "(Quando vi o resultado,) fiquei chocado com a sala da coroação, porque (na gravação) era tudo verde. Eu me lembro que o Rodrigo Santoro, quando fez 300, falou isso. O resultado é impressionante e assustador", relata.

Minissérie. Inicialmente, a ideia da emissora era fazer uma minissérie a partir da história O Rico e Lázaro. Foram encomendados 80 episódios a Paula Richard, que logo percebeu que não seriam suficientes para ambientar a trama na Babilônia com todos os detalhes necessários. Depois de decidir pela novela, a Record TV pediu 150 capítulos, que podem ser transformados em mais, afirmou o vice-presidente artístico e de imagem da emissora, Marcelo Silva.

Com tanto conteúdo, Paula vem se ambientando desde a época em que era coautora de Os Dez Mandamentos. "Tem que estudar muito, porque várias partes da Bíblia a gente não entende. Eu mesma não tinha muito conhecimento antes", revela. "Às vezes há um preconceito, mas, no fim das contas, eu vi o quanto é bacana. (A Bíblia) é o maior best-seller da humanidade. Se fosse ruim, não venderia tanto", diz Paula, com descontração.

A repórter viajou ao Rio a convite da Record TV