Há 12 anos sem atuar em novelas, Maria Fernanda Cândido estreia série na TV Cultura

Gabriel Perline - O Estado de S.Paulo

'TERRADOIS' mescla dramaturgia e psicanálise em um formato inédito

  

   Foto: Jair Magri/TV Cultura

Desde Como Uma Onda, exibida pela Globo entre 2004 e 2005, Maria Fernanda Cândido se afastou das novelas. Doze anos para ser mais preciso. Os nascimentos de Tomás e Nicolas, frutos de seu casamento com o empresário francês Petrit Spahira, a fizeram optar por trabalhos mais curtos, como séries, minisséries, filmes, peças de teatro e breves participações em alguns folhetins, como Paraíso Tropical (2007) e Lado a Lado (2010).

Com os filhos maiores, ela sentiu que poderia retomar os convites mais exigentes. Aceitou um papel fixo em A Força do Querer, próxima novela das nove da Globo, e mergulhou de cabeça em TERRADOIS, série que une dramaturgia e psicanálise. A estreia está marcada para esta terça-feira, 21, às 22h30, na TV Cultura.

Maria Fernanda foi convidada pelo psicanalista Jorge Forbes e por Marcos Amazonas, diretor de programação da emissora, para participar do projeto. A princípio, seria um talk-show para abordar a pós-modernidade. Ela viu que se houvesse dramaturgia o programa poderia ser mais interessante. Foi um tiro certeiro.

Ela, que há anos se limitava a trabalhos pontuais na TV, a partir desta semana será vista na Cultura e na Globo ao longo dos próximos meses. "São emissoras que se respeitam muito. E eu tenho uma relação muito boa com a Globo. São emissoras que têm seus papéis muito bem definidos e realizam seus trabalhos de maneira impecável."

Como TERRADOIS surgiu em sua vida?

Foi idealizado pelo Jorge Forbes e pelo Marcos Amazonas. Eles tiveram a ideia de criar um programa para discutir as questões do mundo contemporâneo. E aí eles me chamaram, pensando que a gente pudesse fazer esse programa como uma conversa entre eu e o Forbes. Aí é que eu entrei com a proposta deste formato, que é diferente. O Amazonas acolheu, foi muito receptivo para isso. Eu poderia ter as ideias e ele não ser receptivo, e isso não se concretizaria. Começamos a trabalhar, desenvolver, recrutamos os profissionais que precisariam estar envolvidos, porque tem dramaturgia, tem atores. Chamamos a Mika Lins (diretora), os dramaturgos... e foram dois anos trabalhando nisso. De gravação mesmo, foram seis meses.

Como foi fazer este trabalho na TV Cultura?

Eu tenho profundo respeito pela TV Cultura, gosto e assisto as produções. Foi uma experiência incrível ter participado da concepção deste programa. Foi prazerosa a realização dos episódios, porque eu estava ali refletindo sobre tudo isso que a gente vai levar ao ar. E a TV Cultura é muito comprometida com a cultura e educação. Então, trabalhar num lugar assim é muito especial e gratificante. 

 

Eu e Jorge Forbes em Terra Dois. Em breve na @tvcultura

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O que você vê de diferença em termos de produção na TV Cultura em relação à Globo?

A TV Cultura tem um timig diferente. Eu posso dizer especificamente sobre o TERRADOIS, porque foi o único projeto em que trabalhei e não sei como funciona com os demais. Para fazer esta série tivemos um tempo bastante dilatado porque esta proposta deste formato não existia. Eu não tinha nenhuma referência. Era uma ideia e dá muito trabalho você realizar e concretizar uma ideia a partir do nada. Você precisa, primeiro, se fazer entender para todos os seus pares, precisa também o objetivo e o motivo de estar pensando daquele jeito e por que aquilo pode ser relevante. Tudo isso demora. Fomos recrutando esses profissionais todos. Há um episódio de dramaturgia específico para cada programa. E esse dramaturgo precisa entender a proposta do programa. Demora! São diálogos mais longos e que precisam se estabelecer em níveis mais profundos.

O fato de você se envolver com este projeto te fez rever sua carreira como atriz?

Eu tenho uma maneira de enxergar meu ofício de longa data. São quase anos sem fazer uma novela, eu fiz muitas minisséries neste período, que tinham preparações muito elaboradas. Trabalhei muito com o Luiz Fernando Carvalho (diretor), fiz o filme do [Héctor] Babenco... que isso tudo que a gente tá aqui falando de processo e profundidade eu pude vivenciar nos últimos anos. Agora, depois de anos, eu volto a fazer novelas. Minha experiência nesta última década foi toda dentro dessa maneira de fazer que se propõe a ser mais cuidadosa, profunda, levando em conta o processo em si e não só os resultados. E TERRADOIS vem e faz parte de todo esse movimento que já faz parte da minha vida. E agora eu vou voltar e fazer uma novela. Acho que as coisas não se excluem, tem espaço para tudo, para o entretenimento, para um programa mais comprometido com a educação.

Como é retornar às novelas e por que aceitou esse convite?

Aceitei porque eu queria há muito tempo trabalhar com o Rogério Gomes, que é um diretor que eu gosto muito, e com a Glória Perez, que a gente já tinha feito várias tentativas na última década, mas não deu certo porque meus filhos eram muito pequenos e a logística é muito complicada. Agora que eles estão maiores eu senti que poderia fazer este trabalho. E eu também tinha saudades de fazer novela, porque a novela faz parte do cenário cultural brasileiro e tem a relação com o grande público. Este texto é bastante interessante.

Quem é a sua personagem?

Joyce Garcia. É uma mulher que vai entrar em conflito por estas questões do mundo contemporâneo que se apresentam para ela. Após ter feito TERRADOIS eu consigo enxergar a Joyce e ver exatamente onde ela se encontra. É uma mulher que teve uma educação bastante tradicional. Muito avessa ao risco. Cuida muito da família, de uma forma bastante tradicionalista. Aí ela se depara com muitas das questões que a gente trata em TERRADOIS e que será conflituoso. Não sei bem como ela irá reagir.

Como estão as gravações?

Puxadas (risos). E como fazia muito tempo que não fazia novela eu estou lembrando que é uma demanda muito grande, de alta exigência.

E agora você está envolvida com a dramaturgia de duas emissoras. Foi tranquila a negociação para estar no ar ao mesmo tempo na Cultura e na Globo?

São emissoras que se respeitam muito. E eu tenho uma relação muito boa com a Globo. São emissoras que têm seus papéis muito bem definidos e realizam seus trabalhos de maneira impecável.