Além de 'Sol Nascente': artistas nipônicos reivindicam representatividade na TV e no cinema

Priscila Mengue - O Estado de S. Paulo

E+ entrevistou quatro artistas nipo-brasileiros e um japonês radicado no País sobre a falta de oportunidades no audiovisual para pessoas com características orientais

Luis Melo e Giovanna Antonelli: os 'orientais' de 'Sol Nascente'

Luis Melo e Giovanna Antonelli: os 'orientais' de 'Sol Nascente' Foto: Divulgação/Globo

Nova novela das 18h da TV Globo, Sol Nascente se apresenta como uma história sobre a amizade entre duas famílias de imigrantes, uma italiana e a outra japonesa. Com essa sinopse, a produção parece ser uma boa oportunidade para mostrar culturas estrangeiras na televisão, mas a realidade tem sido um pouco diferente. Antes mesmo de estrear, já começaram as críticas em relação à criação dos personagens (estereotipados) e, principalmente, à escalação dos intérpretes da família japonesa - especialmente a filha Alice (Giovanna Antonelli) e o pai Kazuo Tanaka (Luis Melo). Para abafar as críticas, a emissora justificou dizendo que a garota é adotada e que o patriarca tem um pai norte-americano. 

A posição da Globo não foi suficiente para reduzir a polêmica, ainda mais após uma entrevista recente de um dos autores da novela, Walther Negrão, ao site Ego, na qual admite que foram feitos testes com atores e atrizes orientais para os papéis centrais, mas que uma decisão comercial levou à escolha de uma artista mais conhecida. Dois meses antes, ao Estado, a emissora afirmava ter tido “dificuldade para encontrar um bom ator japonês” na faixa etária de Tanaka, embora já tivessem conversado com o veterano Ken Kaneko, de 81 anos, considerado velho demais para o papel. Francisco Cuoco, intérprete do melhor amigo do personagem, tem 82 anos.

Sem conseguir convencer os críticos, Sol Nascente impulsionou uma série de discussões sobre o chamado 'yellow face', prática em que pessoas brancas interpretam personagens orientais, geralmente de forma estereotipada e pejorativa - como ocorre no 'black face' (negros), 'red face' (indígenas) e 'brown face' (latinos). No cinema hollywoodiano, há exemplos de atores como Mickey Rooney, Marlon Brando e Katherine Hepburn sendo caracterizados de forma a emular características orientais. E no Brasil não é diferente. A novela Geração Brasil (2014) trouxe Rodrigo Pandolfo como um coreano e, em A Sombra de Rebecca (1967), Yoná Magalhães interpretou a japonesa Suzuki. Além do 'yellow face', existe, ainda, o chamado branqueamento, em que figuras têm suas marcas étnicas apagadas para serem interpretadas por pessoas brancas, como nos filmes Dragon Ball - Evolution e O Último Mestre do Ar, inspirados em duas animações orientais.

Nas redes sociais, internautas chegaram a reivindicar o boicote da novela, que obteve desempenho de estreia com ibope equivalente ao de Êta Mundo Bom! em São Paulo (25 pontos) e Rio de Janeiro (29). Na quarta-feira, 31, o coletivo Oriente-se lançou um manifesto em que reivindica a “presença de atores e artistas orientais em produções de audiovisual em papéis não estereotipados e de forma respeitosa”, o que considera “o mínimo e o justo” diante dos mais de 100 anos da comunidade oriental brasileira.

Formado por artistas de origem japonesa, chinesa e coreana, o grupo vai lançar, a cada quinta-feira, às 11h, um vídeo de ficção com atores interpretando personagens não estereotipados, como um flanelinha e um morador de rua - bem diferente dos clichês pasteleiros, sushimans, tintureiros ou experts em tecnologia.

Para entender melhor o assunto, o E+ entrevistou quatro artistas nipo-brasileiros e um japonês radicado no País sobre o espaço de artistas com características orientais no audiovisual. Em todas as falas, houve reclamações sobre estereotipações e piadas desrespeitosas frequentes, bem como a padronização estética caucasiana que permite que, por exemplo, Bruno Gagliasso faça qualquer personagem (italiano ou não), enquanto atores de traços asiáticos têm suas possibilidades  de papéis limitadas. Confira o que eles têm a dizer:

Daniel Uemura

Daniel Uemura Foto: Reprodução/Globo

“Quando me chamavam, não era porque consideravam o meu trabalho bom, mas porque precisavam de um oriental para o papel”

Daniel Uemura, ator, 28 anos, nascido em São Paulo/SP:

Há três anos, Daniel Uemura desistiu da carreira de ator para abrir um restaurante em São Paulo. Com o filho Bernardo ainda bebê e recém-separado, ele viu na capital paulista uma oportunidade de recomeçar após tentar a carreira na televisão. "Me sentia cansado, à margem da profissão. As oportunidades eram muito limitadas.", explica o artista, que faz a versão jovem de Kazuo Tanaka (Luis Melo) em Sol Nascente

De ascendência japonesa, Daniel voltou ao audiovisual em março ao lançar a produtora Aurea Filmes, focada em conteúdo publicitário, e atuar em comerciais e obras de ficção, como a série 3%, da Netflix. Mesmo assim, não vê o mercado com otimismo e justifica os resultados positivos a um intenso trabalho de bastidores e contato com realizadores e produtores. "Se gente não sugere um espaço para se inserir, a gente não trabalha."

Em nove anos de carreira, ele diz ter feito apenas dois personagens que não eram estereótipos de japoneses. Como exemplo contrário, cita outros dois: Shiro, um sushiman de Amor à Vida, e Raiden, da temporada 2007-2009 de Malhação, descrito no site Memória Globo como um "gênio da informática". "Quando me chamavam, não era porque consideravam o meu trabalho bom, mas porque precisavam de um oriental para o papel. Preferem o estilo caucasiano, com cara de europeu, para ilustrar o que a história precisa e, não para representar a realidade."

Dentro desse cenário, Daniel vê Sol Nascente como uma oportunidade de conseguir espaço para a cultura nipônica, embora se veja dividido. Segundo ele, como descendente de japoneses, há um incômodo inevitável na escalação de atores caucasianos para papéis orientais: "A gente tem um respeito muito grande com a nossa ancestralidade. Pessoas da minha família e amigos ficaram indignados. Até porque existem, sim, atores que poderiam fazer o Tanaka mais velho". Por outro lado, ele se diz orgulhoso do trabalho: "Eu aceitei fazer essa participação por conta da representatividade também. Foi legal e quero mostrar pro meu filho daqui a alguns anos".

Ken Kaneko

Ken Kaneko Foto: Divulgação/Globo

“Sushi e sashimi são mais famosos que a arte japonesa”

Ken Kaneko, ator e pintor, 81 anos, Yokohama (Japão)

Parece ser verdadeira a ideia de que Ken Kaneko, de 81 anos, é um "velho sábio", um mestre, dos atores de origem oriental no Brasil. Mesmo que prefira se dizer um 'caduco', o artista japonês acumula 40 anos de carreira em produções brasileiras, norte-americanas e japonesas. Com esse currículo, ele parecia ser o intérprete perfeito para fazer o papel de Tanaka em Sol Nascente - para o qual foi cogitado. Segundo o ator, ele estava 90% confirmado, mas foi substituído por Luis Melo. Sobre a mudança, diz apenas que torce pelo colega de profissão, que deve estar "sofrendo" no papel. "É como se eu fosse fazer um alemão, é muito difícil."

Nascido em Yokohama, o artista decidiu ganhar o mundo em 1960. Pensou em Paris e em alguma cidade dos Estados Unidos, mas, no fim, achou o Brasil mais aberto à imigração de japoneses. Em pouco tempo, começou a trabalhar como pintor abstrato, aproximando-se do Grupo Seibi, de artistas nipônicos, como Tomie Ohtake. Depois de dez anos, conheceu a cineasta Tizuka Yamasaki, que o convidou a participar do filme Gaijin - Caminhos da Liberdade (1980), dando pontapé na carreira de ator.

Hoje, diz viver dividido entre a pintura e a atuação. Atualmente, faz trabalhos esporádicos para o quadro Velhinhos se Divertem, do Programa Silvio Santos, no SBT, e trabalhos no cinema, como as novelas Morde & Assopra (2011) e o filme Meninos de Kichute (2010). Segundo ele, "quase todo mês aparece um servicinho" e foi graças a isso, a essas "aulas remuneradas", que aprendeu português, embora ainda carregue um sotaque. 

Kaneko admite, contudo, que o mercado para atores de origem no Brasil quase não mudou nas últimas décadas. "Os autores não escrevem história para japoneses, não conhecem a nossa cultura. Isso é uma pena porque, para esses jovens melhorarem, precisam ter alguma chance. Eles poderiam fazer outros personagens, não só tintureiro e contrabandista, mas não tem jeito: quem decide é o mercado, no qual sushi e sashimi são mais famosos que a arte japonesa". Mas se declara: "Gosto do Brasil, que me deu espaço e é um lugar raro para um imigrante viver. Me sinto brasileiro."

Tizuka Yamazaki

Tizuka Yamazaki Foto: Estadão

"Não havia a consciência de que os imigrantes, de várias etnias, foram importantes na formação do povo brasileiro"

Tizuka Yamasaki, cineasta, 67 anos, Porto Alegre/RS

Ao folhear livros de História do Brasil, Tizuka Yamasaki dificilmente encontrava uma menção às próprias origens. A estudante de Cinema se sentia marginalizada, confusa entre as diferenças culturais de ser uma brasileira de origem japonesa. Para entender um pouco mais das próprias origens decidiu, então, inspirar-se na história dos avós e conhecidos para realizar o primeiro filme, Gaijin - Caminhos da Liberdade (1980), exibido nos festivais de Cannes, Havana e Gramado (onde foi premiado). "Nessa época, não havia a consciência de que os imigrantes, de várias etnias, foram importantes na formação do povo brasileiro", explica.

Diretora também de Tomie (2014), sobre Tomie Ohtake, e Lua de Cristal (1990), Tizuka atualmente prepara um novo longa-metragem inspirado no livro O Brasileiro Voador, de Marcio Souza, sobre Santos Dumont. Em seu filme mais célebre e na continuação Gaijin - Ama-me Como Sou (2005), a realizadora acompanha os cem anos da imigração japonesa no Brasil, desde o trabalho nas fazendas de café até os nipo-brasileiros que voltaram para a terra dos ancestrais para ganhar dinheiro. 

Nas obras, que também trazem personagens alemães, italianos e brasileiros, contou com um extenso grupo de atores, que segundo ela, exigiram grande trabalho de recrutamento. "Na época de escalar Gaijin, nossos produtores vasculharam o país atrás de atores, amadores ou não. Consegui só parte do elenco. Para as personagens nascidos no Japão, trouxe atores de lá, porque, mesmo tendo a mesma fisionomia, o comportamento, os gestuais, o andar, o olhar, a respiração, são diferentes." 

A explicação para não haver tantos atores de origem nipônica é, segundo ela, a falta de produções com temática nipo-brasileira. Mas ela ressalta: "Não adianta apenas ser bom ator. Ele tem que corresponder na tipologia, no tom, na idade, no sexo do personagem, na química entre aqueles contracenam, etc. Por convicção muito pessoal, e pela temática, eu não podia colocar um ocidental para vivenciar um japonês", explica.

Marcos Miura

Marcos Miura Foto: Divulgação/Globo

“Não importa se eu estudei, se eu decorei o texto. Primeiro eu sou visto."

Marcos Miura, ator, 42 anos, Mogi das Cruzes/SP

Marcos Miura acredita que, antes de qualquer outra coisa, um ator é a sua aparência. Em testes, às vezes, sequer tem a oportunidade de mostrar seu trabalho por seu fenótipo nipônico não ser considerado para a maioria dos papéis. "Não importa se eu estudei, se eu decorei o texto. Primeiro eu sou visto. E o padrão estético retratado na televisão não é o da rua, que tem muito mais diversidade."

Ele destaca que descendentes de orientais não são vistos como brasileiros autênticos no audiovisual e, até, para o população em geral. Os preconceitos não se resumem, contudo, à aparência física. Um dos maiores estigmas é, por exemplo, o sotaque e a fala com erros de pronúncia. "Nós nascemos aqui. Essa história de todo papel ter sotaque também é um preconceito, mas tem gente que se surpreende quando vê que eu me comunico como qualquer brasileiro". Marcos lembra também que personagens de ascendência oriental sempre tem nomes dessa origem e questiona: "Por que nunca tem um Roberto, um Vitor? Isso mostra como nós somos vistos como estrangeiros mesmo no nosso País".

Atualmente, o ator faz papeis na publicidade e no cinema, como nos filmes 3000 Dias no Bunker (2015) e A Grávida da Cinemateca (2015). Dentro de um panorama aparentemente problemático, ele vê alguns exemplos positivos, como a novela global Morde & Assopra (2011), em que interpretou um personagem que era advogado e vereador. Com um detalhe importante: sem sotaque. 

Mario Okuhara

Mario Okuhara Foto: Keiny Andrade/Estadão

"O japonês é sempre aquele com a câmera fotográfica, que fala ‘né’, que é atrapalhado"

Mario Okuhara, cineasta e produtor audiovisual, 41 anos, São Paulo/SP

Após a morte do pai, em 2002, Mario Okuhara resolveu fazer um retorno às origens. Já envolvido nos negócios da família da produtora Imagens do Japão, ele resolveu se aprofundar na história dos japoneses presos em 1946 pela Era Vargas, a maioria injustamente. Filho da atriz, cantora e apresentadora Rosa Miyake, ele levou dez anos para terminar o documentário Yami no Ichinichi, que lhe aproximou da militância para que o Brasil admita os abusos que cometeu contra os imigrantes nipônicos. Segundo ele, os envolvidos querem apenas um pedido de desculpas, nada mais, como relatou em reunião da Comissão na Verdade em 2013.

Por meio do trabalho no audiovisual, Mario entrou em contato com diversos aspectos da cultural nipônica no Brasil, dentre eles o preconceito. Sobre o recente debate sobre Sol Nascente, por exemplo, ele diz que esse é um exemplo claro de 'yellow face', pois é uma caricatura do japonês - que geralmente é associado a personagens cômicos. "Isso já era usado na propaganda contra o Eixo na Segunda Guerra Mundial, em que nossos traços eram exagerados. Hoje, o japonês é sempre aquele com a câmera fotográfica, que fala ‘né’, que é atrapalhado ou tem o membro pequeno. Todos nos incomodamos com isso, mas, por sermos de uma comunidade mais reservada, acabamos tendo medo de se expor".

Como ele lembra, esses tipos de representação reforçam estereótipos, inclusive na forma como o Brasil é visto no exterior. Para mudar, é necessário haver representação nipônica nos meios, em que histórias com essa temática ainda são raras. "Não somos só um povo reivindicando papéis. Queremos nos ver representados de forma digna, respeitosa."