Você pode deixar o escritório, mas não escapa do trabalho

Vivek Wadhwa - O Estado de S.Paulo

Estamos sempre conectados, sempre ligados, sempre trabalhando - não importa onde estamos ou o setor em que trabalhamos

No setor de tecnologia já é prática comum as empresas fornecerem celulares para seus funcionários e pagarem planos de dados

No setor de tecnologia já é prática comum as empresas fornecerem celulares para seus funcionários e pagarem planos de dados Foto: Japanexperternase/ Creative Commons

Recentemente o Netflix anunciou novas regras sobre licença remunerada dos empregados, que permitem que eles se afastem o tempo que desejarem no primeiro ano após o nascimento ou adoção de um filho. A companhia pretende ir mais além em relação às empresas de tecnologia que oferecem férias ilimitadas como benefício. Essas são todas estratégias de relações públicas e artifícios de recrutamento. Nenhum empregado passará um ano exercendo a função de pai em tempo integral; dificilmente algum excursionará durante um mês no Himalaia. Sem dúvida eles tirarão algumas semanas de licença, mas continuarão trabalhando, onde estiverem. Esta é a nova natureza do trabalho.

No setor de tecnologia já é prática comum as empresas fornecerem celulares para seus funcionários e pagarem planos de dados. Isto porque os funcionários têm de estar sempre à disposição, recebendo mensagens de SMS e e-mails. Urgente ou não, os e-mails chegam 24 horas por dia, mesmo nos fins de semana. As empresas não exigem que o empregado verifique se tem mensagens, mas poucos ousam não lê-las quando estão no transporte, em casa ou em férias - para se certificar de que não cometeram algum erro.

A realidade é que não existe mais trabalho em que você tem de estar presente das nove da manhã às cinco da tarde. Estamos sempre conectados, sempre ligados, sempre trabalhando - não importa onde estamos ou o setor em que trabalhamos. Tudo é urgente e problemas que antes podiam ser resolvidos no dia seguinte hoje têm de ser solucionados imediatamente.

Podemos discutir se isto é bom ou não, mas essas são as novas regras de trabalho. Tudo mudou na última década, quando nos tornamos escravos da Internet. E as mudanças ocorreram em todo o globo.

Todo tipo de informação vem sendo digitalizado: projetos, registros imobiliários, queixas de clientes, contratos legais, projetos de edifícios e fotografias. A maior parte dos dados é armazenada online - de modo que podemos acessá-la onde estivermos. Não existe mais desculpa para não trabalhar. 

Com a digitalização, o próprio trabalho também vem se transformando no chamado "microwork", em que um grande projeto se decompõe numa série de pequenos projetos realizados por várias pessoas em diferentes locais. As empresas de contabilidade normalmente terceirizam as declarações de imposto de renda e análise de dados; advogados terceirizam a criação de contratos; médicos confiam a técnicos qualificados em outros países a realização de análises radiológicas. Tratamento de dados, desenvolvimento, design e transcrição de websites comumente são trabalhos subcontratados de sites como Upwork, Freelancer e 99Designs. Pequenas tarefas são terceirizadas por meio de sites como Amazon Mechanical Turk, Samasource e CrowdFlower.

Com o mundo se tornando conectado, muitas coisas boas se tornam possíveis. O crowdsourcing tem permitido às pessoas se reunirem como nunca antes para solucionar problemas sociais. Vi as possibilidades diretamente quando utilizei o poder do coletivo para criar um livro, "Innovating Women", em que procuro analisar o que devemos fazer para que mais mulheres participem da economia da inovação. E tive acesso a mais de 500 mulheres em todo o mundo. Num prazo de seis semanas chegamos a um consenso sobre problemas importantes e soluções; reunimos informações suficientes para publicar não apenas um, mas vários livros. As participantes aprenderam umas com as outras e a qualidade da discussão vem crescendo.

As empresas começam a utilizar também o poder do coletivo. Em vez de trancar seus funcionários em silos departamentais, as companhias mais inovadoras vêm utilizando sites de mídia social internos para os empregados se comunicarem e se ajudarem. O tradicional memorando trimestral do CEO transformou-se num constante fluxo de informações compartilhadas em todos os níveis da empresa.

Os empregados têm acesso a pessoas com as quais nunca teriam contato, incluindo o CEO, e utilizam o crowdsourcing para resolver problemas em conjunto, criar novos produtos, testar sites, criar conteúdo, encontrar soluções do seu departamento.

E hoje também não é necessário mais estar fisicamente presente no local de trabalho. Os robôs telepresenciais vêm levando as videoconferências para um outro nível. Existem diversos produtos no mercado, como o Beam, da Suitable Technologies e o Ava do iRobot, que permitem que uma tela montada numa plataforma móvel se locomova pelo escritório e observe o que está ocorrendo de um modo mais humano. Imagine entrar no escritório do seu chefe enquanto você está de férias na Disneylândia, entrando numa sala de conferência para participar de uma reunião e depois bater papo com seus colegas em torno de uma fonte de água.

Não só a natureza do trabalho mudou, mas também as regras. O sucesso não implica armazenar conhecimento, que era a chave para a segurança no emprego, no passado; hoje para ser bem sucedido, o empregado tem de compartilhar o conhecimento e ajudar a empresa a resolver seus problemas. A parte difícil é que é necessário manter as habilidades sempre atualizadas; o funcionário têm de estar sempre se reinventando, adaptar-se às mudanças promovidas pela tecnologia, porque a capacidade de usar a tecnologia é tão fundamental quanto ler e escrever. Hoje não é mais importante o diploma que você tem ou em que escola se formou. O que importa é o quão eficiente você é na realização do trabalho que lhe foi atribuído. E isso significa estar ligado ao trabalho constantemente. 

Os empregados podem sair de licença quando desejarem, mas a expectativa do empregador continua a mesma: de que o trabalho seja feito. 

Tradução de Terezinha Martino