'Tive que diminuir para poder crescer', diz Taís Araújo

Natália Guadagnucci - Especial para O Estado de S. Paulo

Atriz fala sobre carreira, ancestralidade e o legado que quer deixar

Taís Araújo interpreta a camareira Camae na peça "O Topo da Montanha"

Taís Araújo interpreta a camareira Camae na peça "O Topo da Montanha" Foto: Tiago Queiroz

Taís Araújo não tem medo de abraçar sua fragilidade. Em cartaz há três anos com a peça O Topo da Montanha, que estrela ao lado do marido, Lázaro Ramos, e prestes a voltar às telas da TV Globo com a série Mister Brau, que estreia sua terceira temporada no próximo dia 10 de abril, a atriz chegou perto de desistir da carreira depois de receber duras críticas em certo ponto de sua trajetória. 

“Era protagonista de uma novela das nove [Viver a Vida, da Globo], e achei que aquilo seria o auge”, disse ela durante bate-papo na abertura da Casa da Intuição, espaço na rua Oscar Freire idealizado pela Monange. “Tive que diminuir para poder crescer”. Na época, ela decidiu dar uma pausa nos trabalhos na televisão e voltar ao teatro. Para ter acesso aos papéis que normalmente não lhe eram oferecidos, começou a produzir as peças e escolher os textos que faria. 

O desacelerar de Taís Araújo foi importante para se reconectar com suas raízes e amadurecer o tipo de mensagem que quer passar com seu trabalho. Socialmente engajada nas causas feminista e negra, a atriz tem como grande referência o legado do ativista Martin Luther King, cujos últimos dias de vida são retratados em O Topo da Montanha. “Além de tudo o que ele conquistou em vida, [Martin Luther King] deixou uma turma que dá continuidade a isso. Na peça, tenho uma fala [ela interpreta a camareira Camae] em que digo ao personagem dele: ‘Seus companheiros vão saber o que fazer, o senhor ensinou direitinho’”, conta. “Temos muitas coisas conquistadas, de que a gente não pode abrir mão, mas ainda tem muita coisa a se fazer”, pondera.

Ela e Lázaro Ramos são pais de duas crianças, João Vicente e Maria Antônia - batizada em homenagem à avó materna de Taís. Mesmo sem nunca tê-la conhecido pessoalmente, a atriz tem uma ligação forte com a figura familiar. “Minha mãe manteve essa mulher muito viva, e é assim até hoje. Temos uma conexão forte de ancestralidade, e acho que sou a mulher, a atriz, a mãe que eu sou hoje muito graças ao que essas mulheres foram antes de mim”, explica, animada.

“Essa minha avó foi a maior feminista que já vi na vida, sem nem conhecer essa palavra. Uma mulher que criou seis filhos sozinha, perdeu dois, criava não só os dela como os das irmãs, sem homem nenhum. Trabalhava pra caramba. Cansou do homem, pegou os quatro filhos, se mudou pra um lugar super humilde, abriu mão da vida confortável que tinha com ele, abriu mão de tudo pra ir atrás do que ela acreditava. Isso não é feminista? É super feminista!”. 

Agora, Taís quer dar continuidade a essa herança familiar por meio de seus filhos. “Passo isso pras crianças o tempo inteiro, mais em exemplos do que em palavras. Em casa, a divisão é 50/50 de absolutamente tudo. Como os dois [ela e Lázaro Ramos] têm o mesmo trabalho, quem estiver em casa segura as pontas”. E completa: “Com filho, a gente nunca sabe o que está fazendo, é intuição o tempo inteiro, vai errar. E tudo bem”.