Sangue novo: marcas engajam público no último dia da SPFW

Maria Rita Alonso e Carla Raimondi - Especial para O Estado de S. Paulo

Lab Fantasma, A.Niemeyer e Amapô se destacam na sexta-feira, 17

As estilistas Fernanda Niemeyer e Renata Alhadeff se inspiraram no deserto do Pacífico para a coleção da A. Niemeyer

As estilistas Fernanda Niemeyer e Renata Alhadeff se inspiraram no deserto do Pacífico para a coleção da A. Niemeyer Foto: WERTHER SANTANA/ESTADÂO

No último dia de desfiles da São Paulo Fashion Week, marcas jovens trouxeram uma injeção de frescor às passarelas. Novos ares, necessários e bem-vindos, vieram, por exemplo, com a estreia da A. Niemeyer, assinada pela dupla Fernanda Niemeyer e Renata Alhadeff. Na coleção, inspirada no deserto do Pacífico, nos fiordes e nas tundras, o jogo sofisticado de texturas o peso e o volume da lã de carneiro faziam um contraponto com um algodão leve e quase transparente. Calças espaçosas, tops com modelagem casulo e casacos volumosos ressaltavam uma silhueta ampla e confortável. Antes de começar o desfile, foi servido um chazinho gelado em copo de porcelana coberto por um tricô artesanal.

A tranquilidade e a simplicidade logo deram espaço para uma megabalada armada pela marca carioca Reserva. Um hapiness, como eles preferiram chamar a apresentação que simplesmente dispensou a passarela para colocar os modelos, e  as roupas, à mão da plateia. O som  da banda de sopros MeABrass Band fez barulho e movimentou a noite. “Acho a dinâmica dos desfiles convencionais antiga. Hoje, as pessoas querem participar da festa, não só assistir”, disse Rony Meisler, por telefone dias antes da apresentação (sua filha nasceu ontem e ele não foi à Bienal). “A Reserva nasceu praticamente junto com o Facebook. O compartilhamento, a colaboração, o engajamento e a transparência são conceitos da minha geração. Para nós, só faz sentido participar da Fashion Week assim, com esse formato diferente”, diz ele, que há quatro anos não desfilava no evento.

Quando os modelos apareceram, no auge da festa, o público vibrou, fez selfie, tocou na roupa. A coleção seguiu a modelagem solta e folgada do momento. Peças com estampa camuflada traziam um militarismo lúdico. Camisas de flanela de viscose fresquinha vieram ao lado de uma alfaiataria funcional, em linho e sarja. Tudo à venda no exato momento da apresentação.

Peças amplas e militarismo lúdico na Reserva

Peças amplas e militarismo lúdico na Reserva Foto: Marcelo Soubhia / FOTOSITE/SPFW

Na sequência, a Amapô trouxe uma série de jeans com diferentes lavagens, alguns repletos de maxipoás, que passeavam ao lado de jaquetas oversized, tops e vestidos. Os modelos representavam palhaços, mágicos e malabaristas, e as crianças acentuaram a vibe livre e divertida do desfile. A experiência arrebatou a plateia com energia. "A roupa já não importa muito. O que importa é o barulho e o engajamento, a quantidade de posts, de curtidas que  a marca vai conquistar", diz Sergio Amaral, diretor de redação da L'Officiel Hommes.

Maxipoás e muito jeans no desfile divertido da Amapô

Maxipoás e muito jeans no desfile divertido da Amapô Foto: AP Photo/Andre Penner

Na entrada do desfile da Lab, a excitação lembrava um show de hip hop. A coleção, inspirada no samba, misturou o vestuário de sambistas tradicionais com clássicos da moda de rua. Calças de moletom com risca de giz, alfaiataria com camiseta, estampas gráficas e peças com aplicações de couro estavam ali, juntinhas. "A gente conta a história de um menino skatista que herda as roupas do avô sambista e começa a misturar as peças", conta João Pimenta, diretor criativo da marca. O ponto alto foram as peças bordadas à mão por Dona Jacira Roque Oliveira, mãe dos músicos que contou a história do ritmo musical por meio do seu trabalho, extremamente colorido e rico, nas peças.

Os bordados feitos por Dona Jacira, mãe de Emicida, foram destaque na LAB

Os bordados feitos por Dona Jacira, mãe de Emicida, foram destaque na LAB Foto: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Neste último dia, foi possível chegar a duas conclusões. Os designers jovens se sobressaíram, mostrando energia e inovando mais, e o see now by now ainda está em xeque, esperando resultados de vendas. “Sempre achei que a SPFW foi um retrato da indústria da moda no Brasil. No momento cheio de incógnitas que vivemos, fazer o ‘see now, buy now’ é uma experiência, um teste”, diz Costanza Pascolato. “Só o futuro dirá se deu certo.”