Ricardo Almeida assina a alfaiataria da seleção na Copa da Rússia

Sergio Amaral - Especial para O Estado de S. Paulo

Com mais quadril, mais bumbum e mais coxa, calças ganham novas medidas para atender aos atletas

Edu Gaspar, coordenador técnico da seleção brasileira, e Ricardo Almeida, que assina a alfaiataria dos jogadores e da comissão técnica

Edu Gaspar, coordenador técnico da seleção brasileira, e Ricardo Almeida, que assina a alfaiataria dos jogadores e da comissão técnica Foto: Lucas Figueiredo/ Divulgação CBF

Um dos mais respeitados estilistas da moda brasileira, Ricardo Almeida assina o guarda-roupa da delegação brasileira para a Copa da Rússia. São deles os costumes (calça + blazer), camisas, gravatas e sapatos que vão vestir a seleção e a comissão técnica brasileiras do embarque da Granja Comary, no Rio, a Londres e também na chegada oficial a Sochi, na Rússia, prevista para 10 de junho.

Vencedor de uma concorrência que incluía outros três nomes, sua proposta foi a que mais atendeu às vontades da CBF. Criou dois looks diferentes, um para jogadores, mais moderno, e outro para a comissão que os acompanha, ligeiramente mais tradicional.

Entre um e outro ajuste, teve de convencer um jogador aqui, outro ali, a se render à alfaiataria, mas manteve a essência do seu estilo, com criações de silhueta ajustada, sinônimo de elegância, aos corpos de atletas.“Quis desenvolver uma modelagem para valorizar o corpo atlético, evidenciando o shape que cada jogador tem de melhor”, afirma o estilista.

Assim, o guarda-roupa mais formal da equipe tem duas versões de sua alfaiataria: um look para os jogadores, ligeiramente mais moderno, todo em azul marinho, com gravata fininha (4 cm) e camisa com colarinho um pouco mais estreito que o habitual. E o visual da comissão técnica que seria idêntico, não fosse a camisa branca (com um colarinho mais convencional) e a gravata 2 cm mais larga.

Em comum aos dois, o azul marinho (o novo preto da alfaiataria), o brasão da CBF no lado esquerdo do peito e um forro especial, em um tom de dourado fosco com grafismos inspirados no construtivismo russo e misturados às taças dos anos em que a seleção foi campeã. Uma edição limitada do “uniforme”, sem o brasão, deve ser comercializada em breve nas suas lojas.

Recém-chegado de Berlim, onde finalizava provas de roupa, Ricardo revela que usou o biotipo de Neymar como modelo, conta dos olés que deu em alguns jogadores e das firulas que executou para para vestir o time. “As calças que montei já eram feitas com mais quadril, mais bumbum e mais coxa”, diz.

Como surgiu essa história com a CBF?

Na realidade assim, apresentamos um plano de estilo, de custos e acabamos ganhando a concorrência, que tinha quatro estilistas, se não me engano.Fizemos quatro propostas, não sabíamos se eles queriam jogadores iguais à comissão técnica, se podíamos ser mais arrojados.

Dessas propostas a escolhida foi que nível de arrojo?

Uma delas tinha uma proposta de xadrez que ficaria um pouco mais fashion, mas todas eram boas.

Por que não rolou o xadrez?

Porque às vezes você faz uma roupa xadrez e tudo bem: a pessoa mais fashion segura a onda, mas a que não é tão fashion fica com medo. Não podemos correr esse risco. Mesmo sendo linda a roupa, quem sabe nao fosse o melhor para a ocasião.

Que outros ajustes de estilo vocês fizeram?

A gente ia por um lenço no bolso aparecendo, com a bandeira do Brasil, mas na hora que colocamos o brasão da CBF, ele “brigava” e ficou de fora. Tiramos o lenço aparente do bolso, vai ficar de lembrança para os jogadores.

Em termos de modelagem, proposta é bem moderna...

Não ia fazer roupa larga, né? A gente atende varios deles, eles compram comigo aqui no Brasil, então já sabem qual a nossa ideia.

Vocês têm feito várias provas de roupa. Os jogadores deram algum pitaco?

Eu pergunto se incomoda e tal, mas nâo tive problema. Teve um jogador que falou: “ó, eu gosto de roupa larga e tal”. Aí eu deixei a roupa minimamente mais larga, mas nem lembro quem é esse jogador, nem sei se ele continua. Eu e você só vamos saber da escalação final mais para frente.

Ninguém mais reclamou de nada?

Um jogador disse que não gosta de usar terno. Daí eu expliquei que quando chegar a seleção da Itália, todos de terno, bem vestidos, que isso dá um peso, que as pessoas tremem. “Então? Vocês não querem chegar chegando?”. Ele experimentou, gostou, adorou. É um rapaz do interior do Brasil, de Goiás, acho, que nunca teve o costume de usar terno. Não sei se nem se vai estar convocado, não vai estar.

É mais difícil vestir atleta ou um homem comum?

Se for o comum “normal”, é fácil [igual]. (risos) O normal é relativo. Se for barrigudo, com ombro superlargo, aí é mais difícil [um homem comum].

  É que atletas em geral têm proporções diferentes...

Como já sabia disso, as calças que montei para a prova de roupa já eram feitas com mais quadril, mais bumbum e mais coxa, tinham quadril e coxa dois números maior, mexi no gancho, fiz tudo antes. O Neymar é bem o biotipo do jogador: tem bastante bumbum e coxa e pouca cintura. Então, com isso, o que eu fiz: ampliei esse molde para outros números e passei a ter uma grade em cima de uma base “atleta de futebol”.

O blazer também?

O blazer é mais fácil, eles não têm muito braço, muito ombro. Peito e braço é um pouco mais simples, mas claro que todo mundo tem particularidades. Goleiro tem braços mais longos, por exemplo.

Quanto custaria uma réplica desse look dos jogadores?

Eu provavelmente cobraria bem caro. (risos) Inclusive nem posso fazer, especialmente com o brasão da CBF. Mas estamos pensando em aproveitar o forro em uma série especial e numerada, com a calça, o blazer e a camisa. Alguns poucos sortudos vão conseguir ter a roupa, mas não sei o valor.

Você vai à Rússia assistir à Copa?

Estou indo para Londres, onde eles vão fazer a foto oficial, porque em Sochi eles vão ficar em concentração e não consigo ficar tantos dias longe. Mas vou na final ver o Brasil. Já acertei isso.

A gente vai estar na final?

Ah vai!