"Queremos chegar para ficar"

Jorge Grimberg - O Estado de S.Paulo

Radicado em Paris, o estilista brasileiro conta sobre sua marca, Neith Nyer, que desfila na semana francesa, e discorre sobre o movimento de vanguarda que está mudando a cena da moda global

Francisco Terra por Justino Esteves

Francisco Terra por Justino Esteves Foto: Divulgação

Em Paris, um movimento de revolução toma conta da cidade, em que profissionais com passagem por grandes grupos do mercado de luxo estão se lançando em marcas independentes, causando barulho, frisson e uma nova forma de comunicar moda e produto.

Com Givenchy e Carven no currículo, o mineiro Francisco Terra é o representante brasileiro desse movimento. Criativo, carismático e cativante, Francisco e sua grife, Neith Nyer, vêm crescendo em prestígio e reconhecimento graças ao trabalho minucioso. 

Após sua segunda temporada participando da Paris Fashion Week, Francisco falou ao Estado  de sua marca, seu estilo e o futuro da moda.

Neith Nyer Outono Inverno 2016

Neith Nyer Outono Inverno 2016 Foto: Divulgação

Como você vê a Neith Nyer no momento da moda parisiense, em que se fala muito sobre imediatismo e pressões nos grandes grupos?  

A Neith Nyer, assim como algumas outras marcas independentes, vive uma outra realidade paralela em relação à realidade das grandes passarelas. Ainda há o prazer da criação, da liberdade de expressão na indumentária, sem a pressão comercial, sem a necessidade do buzz do Instagram. É uma moda como se fazia antigamente, com desfiles de atmosferas pessoais, frescas.  Por isso o furor do que chamamos de "pequena imprensa", o futuro do jornalismo de moda, dos stylists, da indústria. É um mundo à parte sem ser marginal, muito gostoso e gratificante. Claro que, mesmo  que cada uma dessas marcas independentes tenha a sua própria estratégia, a Neith Nyer trabalha de forma modesta, para construir uma base sólida de algo duradouro. É o que motiva o pequeno  círculo de amigos fiéis que trabalham comigo, de maneira fixa ou em colaborações. Não temos a urgência de virar a marca tendência do momento, pois queremos chegar para ficar.

Onde você vê a marca daqui cinco anos?  

No mesmo lugar artisticamente, com a mesma liberdade, com o mesmo prazer, com a mesma vontade de contar a cada estação uma história diferente. Mais poesia, menos industrialismo. E, como estilista, me vejo um pouco mais evoluído comercialmente, para que eu possa ir um pouco mais longe nas criações, sem ser megalomaníaco. 

Neith Nyer Outono Inverno 2016
 

Neith Nyer Outono Inverno 2016   Foto: Divulgação

Como é desfilar na principal semana de moda do mundo?  

Surreal. Pensar na trajetória de onde saí, em onde cheguei, e no quanto de trabalho me foi necessário vai além das palavras que consigo encontrar para descrever o sentimento. Ao mesmo tempo, soa tão natural na análise do meu plano de carreira que não tenho a pretensão de citar o fato como algo extraordinário. Sou capricórnio e vejo as coisas de maneira muito pragmática. Desfilar na Semana de Moda de Paris é apenas o resultado de um trabalho preciso e árduo de longos dez anos.

Como é ser um estilista brasileiro em Paris ? Isso muda a maneira como a indústria da moda o vê? 

É complicado em vários sentidos, pois preciso vencer as barreiras que a federação impõe em Paris, e, ao mesmo tempo, não tenho visibilidade no Brasil, pois sou "um brasileiro em Paris". Minhas origens influenciam na maior parte a maneira que a imprensa se dirige a mim.  Preciso sempre driblar as perguntas para as quais se esperam respostas clichês. Ouço sempre: "E esse corte ousado que mostra isso ou aquilo? É inspirado nas suas origens brasileiras?". Chamo isso do estigma de desnude e desbunde da moda brasileira. A origem também aumenta um pouco a pressão do ponto de vista comercial. "Hum, será que ele sabe do que a francesa gosta?", questionam. Eu tenho pouca influência da moda brasileira, estudei em Paris, só vivi a moda daqui.  Assim que as pessoas percebem isso as coisas mudam de figura, e eles entendem que o Brasil vem completar minhas inspirações e o mundo de sonhos que eu crio em torno da Neith Nyer.

Sobre a coleção outono inverno 2016, qual foi sua inspiração. Que temas abordou e quais materiais usou?  

A Neith Nyer conta histórias dos lugares por onde passei, dos momentos que vivi. Tudo começou num jogo de mesa em uma noite de verão no interior da França: jogávamos com um grupo de amigos e familiares "o lobisomem de Thiercelieux", que consiste em descobrir o lobisomem que ataca esse vilarejo, um pouco no sistema do jogo detetive. Daí as lembranças das histórias de terror no inverno em torno da fogueira nas montanhas de Minas, os folclores de curupira, mãe d'água... Tudo isso resultou em recriar o jogo e dar a cada look um personagem: a bruxa, a vidente, os delinquentes da vila, os lobisomens... O jogo foi criado nos anos 80, daí os volumes oitentistas nas roupas da coleção, os grandes brincos em argola... Tudo isso sem esquecer os códigos da Neith Nyer, o twist dos clássicos como o twinset revisitado, a "double skirt", os patches, o vestido nuisette. Os materiais vieram das muitas viagens a brechós pelo mundo, as alpacas de um vestido que vi em Pequim, as sedas dos vestidos dos anos 80 de Paris, o couro e os fluidos, marcas registradas da Neith Nyer.

Neith Nyer Outono Inverno 2016

Neith Nyer Outono Inverno 2016 Foto: Divulgação

O cenário do desfile foi super inóspito. Onde aconteceu a apresentação e por que?  

Como a coleção contava a história de horror desse vilarejo, que chamamos de "Bosque Dormoy", eu queria um ambiente insópito, assombrado, abandonado. Começou aí a pesquisa sobre os prédios assombrados de Paris. Até que encontrei esse antigo prédio de distribuição elétrica da cidade, desativado desde o anos 80, que de vez em quando serve  de residência clandestina de artistas. Passamos por todo o processo de demanda junto à prefeitura de Paris e fizemos o desfile nesse enorme edifício com mais de 20 metros de pé-direito e arquitetura Eiffel. Foi mágico e assombrado, frio, como eu queria que fosse.

Onde podemos encontrar a coleção? Estará à venda no Brasil?  

Foi a primeira temporada que fizemos um showroom próprio. Acabou há dois dias e estamos com algumas negociações, e tentando um ponto de venda no Brasil sim. Ainda não posso dizer nomes, mas em breve saberemos.