Piercings e tatuagens chamativas: a mais recente moda é a pele que envolve seu corpo

Ruth La Ferla - The New York Times

A contínua apropriação deste antigo tabu por estilistas e celebridades sugere que o piercing tem feito incursões mais profundas não só entre os cidadãos comuns, mas também entre uma elite endinheirada

Uma modelo com piercings na sobrancelha no desfile de primavera 2015 da Rodarte

Uma modelo com piercings na sobrancelha no desfile de primavera 2015 da Rodarte Foto: Yana Paskova/The New York Times

Uma das coisas mais polarizadoras em Manhattan nesta primavera foram as vitrines na da Barneys New York, na Madison Avenue, expondo uma série de manequins. Eram sósias de modelos reais que participaram do desfile de moda masculina da Hood by Air em janeiro, incluindo suas tatuagens elaboradas e apliques exóticos distorcendo seus sorrisos.

Numa semana recente os transeuntes não desgrudavam os olhos do local, com dificuldade para entender a cena, uma combinação curiosa de teatro de rua e moda pornográfica. “Obviamente isto foi trabalho de um artista”, disse Paul Roberts, turista de Edimburgo. “Vai além da simples montagem de uma vitrine, não acha?”

Mas para Claudia Brien, jovem mãe de Upper East Side, o espetáculo era “mais do que repugnante”. “Passo por aqui sempre, mas mudo meu caminho para manter meus filhos afastados.”

Ame ou odeie, o fato é que as vitrines, os manequins, lábios em círculo com chupetas adornadas com pedras preciosas, “pele” elaboradamente tatuada, viraram uma atração. Com certeza, testemunha do fascínio cada vez maior pela modificação corporal para chamar a atenção ao extremo: tatuagens por todo o corpo, implantes sob a pele, piercing, estiramento, marcas no corpo, entre outros.

Shayne Oliver, a principal força criativa dentro do Hood by Air, foi ágil em explorar esse fascínio. De uma peça com suas colaborações musicais dentro e fora da passarela, as vitrines constituíram uma provocação calculada, em sintonia, como ele afirma, com “a linguagem da extravagância, do exagero”.

Um manequim realista na vitrine da Barneys, em Nova York

Um manequim realista na vitrine da Barneys, em Nova York Foto: Yana Paskova/The New York Times

Ao mesmo tempo, as vitrines “abriram uma porta aberta a um diálogo interessante” disse Dennis Freedman, diretor criativo da Barneys. “Você começa a se familiarizar com algo que à primeira vista parece aterrador. Mas suspeito que, com o tempo, as pessoas se habituam”.

Como se costuma dizer, o olho se adapta. Os piercings no rosto e no corpo, alargadores dos lóbulos das orelhas, apliques dentais e pintura tribal eram outrora domínio de uma denominada subcultura subversiva ou pervertida. Modificações do corpo extremas, uma prática tão generalizada em alguns círculos a ponto de ser considerada movimento, foram profusamente documentadas em livros como o “Modern Primitives”, bíblia da modificação corporal de 1989.

Inspirado por Fakir Musafar, um artista especializado em performances e um dos principais proponentes do movimento primitivo moderno, o livro está repleto de fotos de Musafar refazendo o contorno da sua cintura e extremidades com faixas de metal apertadas, ou pendurado em uma árvore com ganchos usados em açougues. O livro possui imagens também de Leo Zulueta, artista da tatuagem com um ostentoso emblema que acentua os contornos das suas costas.

As tatuagens e piercings muito expostos, que ressurgiram no início dos anos 90 como insígnia de rebeldia dos orgulhosos contestadores da sociedade, hoje vêm sendo adotados em locais inconcebíveis.

“Estamos vendo muitas pessoas que provavelmente nunca entraram num estúdio de piercing”, disse Miro Hernandez, porta-voz da Association of Professional Piercers e sócio do Dandyland, estúdio de piercing em San Antonio. “São empresários, médicos, enfermeiras e professores com maior discernimento sobre o que buscar e o que escolher”.

Na verdade a contínua apropriação deste antigo tabu por estilistas de moda, celebridades e cidadãos comuns sugere que o piercing tem feito incursões mais profundas não só entre os cidadãos comuns, mas também entre uma elite endinheirada.

“Numa era de excessivo individualismo, as marcas e modificações que fazemos no corpo não são vistas como sinal de excentricidade ou outras tendências, mas como uma expressão do gosto pessoal”, escreveu Christine Rosen, historiadora cultural, na The Hedgehog Review, revista de crítica cultural. Rosen chega a sugerir que modificar a pele que envolve seu corpo se tornou um tipo de lazer que não é mais estranho do que, digamos, fazer uma aplicação de botox.

“Hoje a resposta à pergunta porque uma pessoa se tatua é como ‘semana de férias na primavera’, comparada com a que era dada pelas gerações anteriores, ou seja, ‘eu estava numa prisão’”, escreveu ela.

Ninguém, é claro, dirá que as mães de família dos bairros mais ricos estarão assediando seus dentistas para colocarem um aplique na boca logo mais. Mas muita coisa sugere que há uma maior aceitação de artes mais sutis de modificação do corpo: argolas no septo reais e falsas, alargadores de orelha, “mangas” tatuadas nos antebraços.

A moda certamente influiu: no desfile de primavera 2016 de Givenchy as orelhas das modelos estavam incrustadas de cristais e studs, os rostos cobertos por joias coladas na face, contas e renda. Na Rodarte, as sobrancelhas das modelos estavam adornadas com minúsculos arcos, ao passo que as modelos no desfile de Dries Van Notem usavam luvas longas e justas reproduzidas por meio de estêncil com desenhos como se fossem tatuagens.

Depois temos as celebridades: Rihanna e FKA Twigs, nas capas de revistas de moda: Kendall Jenner, que usou uma argola no nariz do tamanho de um dólar de prata no festival Coachella em 2014; e Justin Bieber exibindo uma nova cruz tatuada sob o olho esquerdo em seu feed no Instagram.

Essas alterações sutis no corpo valem “para todo tipo de pessoa, seja modelo ou barista no Starbucks”, disse JonBoy, artista que faz as tatuagens de Justin Bieber. “É como usar um acessório e parecer elegante, sofisticado e sexy ao mesmo tempo”.

Outro dia Catherine Hay, especialista em comunicações e marketing, de 45 anos, que tem uma clientela empresarial, passou algumas horas deitada numa mesa de cirurgia no salão de piercing End is Near, no Brooklyn. Depois de refletir alguns meses, ela decidiu colocar um piercing no umbigo. “Pode parecer superficial, mas pratico Pilates e acho que um piercing no umbigo vai ficar bonito quando estiver me exercitando.”

Craig Rodrigues, proprietário do estúdio End is Near e Hand of Glory falou num programa de rádio no início dos anos 1990 como o piercing estava se tornando comum. Nesta semana ele lembrou: “era popular na época. Mas conhecendo o que faço agora, acho que subestimamos o seu impacto.”

Rodriguez, que vende joias a preços que vão de US$ 60 a US$1.500 por uma peça sob encomenda, em breve vai se aventurar em Midtown Manhattan, se expandindo para lojas de luxo. Em junho, em colaboração com Sydney Evan, joalheria com sede em Los Angeles, ele oferecerá sua expertise para os clientes da Bergdorf Goodman. 

Tradução de Terezinha Martino