Pelo fim da mesmice

Maria Rita Alonso - O Estado de S.Paulo

Marcas de luxo como Dolce & Gabbana fogem do lugar comum e ampliam os horizontes da moda masculina

“Nossa ideia é priorizar o individualismo e oferecer um jeito único de vestir cada um, evitando tudo o que é medíocre ou comum”, diz Dolce

“Nossa ideia é priorizar o individualismo e oferecer um jeito único de vestir cada um, evitando tudo o que é medíocre ou comum”, diz Dolce Foto: Divulgação

A luta contra a monotonia da moda masculina vem sendo encampada com esperança por grifes italianas e francesas e apoiada por figurões da indústria têxtil. Nos últimos anos, as semanas de moda e feiras de luxo do setor pregam um jeito de vestir mais ousado, autoral, bem-humorado e, sim senhor, mais exibido. Na comissão de frente dessa movimentação toda estão os estilistas Domenico Dolce e Stefano Gabbana, donos da marca Dolce & Gabbana, que em 2014 abriram um refinado ateliê no quadrilátero dourado do comércio de Milão para oferecer ternos sob medida. Paralelamente, criaram a coleção de Alta Sartoria apresentada no mês passado em Portofino, cidade pérola da Riviera Italiana, um dia depois do desfile feminino de Alta Moda. Nas vésperas das férias europeias, a marca reuniu sua clientela mais fiel e jornalistas de moda do mundo todo em torno de uma passarela improvisada no terraço do Castelo Brown, uma construção do período Romano, decorada por azulejos sevilhanos e afrescos magníficos. 

 

Nem toda a pompa do cenário foi capaz de ofuscar a coleção, que por si só chamava muita atenção. Ternos coloridos, bordados, com lapelas marcantes e lãs de primeira, uns exóticos, outros discretos, abriram o desfile. Em seguida, vieram túnicas, batas, roupões, robes de seda e até pijamas. “Para nós já é tempo do homem sentir-se livre para ser excêntrico e exagerado. Ou talvez sóbrio, se for isso que desejar. Queremos ampliar os horizontes da moda masculina para aumentar o prazer que temos em nos vestir", diz Domenico Dolce, ao Estado. 

 “Para nós já é tempo do homem sentir-se livre para ser excêntrico e exagerado. Ou talvez sóbrio, se for isso que desejar. Queremos ampliar os horizontes da moda masculina para aumentar o prazer que temos em nos vestir", diz Domenico Dolce

 “Para nós já é tempo do homem sentir-se livre para ser excêntrico e exagerado. Ou talvez sóbrio, se for isso que desejar. Queremos ampliar os horizontes da moda masculina para aumentar o prazer que temos em nos vestir", diz Domenico Dolce Foto: Divulgação

Decidida a trazer a assinatura exuberante e fantasiosa que marca suas criações femininas para a indumentária dos homens, a dupla apresentou ternos estampados com flores, pássaros, bolas, em variados tons de azul, alguns deles com bordados artesanais, a maioria bem ajustada ao corpo, com lapelas marcantes de tamanhos variados. Modelos atléticos e másculos exibiam smokings que remetiam aos antigos figurinos de James Bond. O estilo retrô permeava tudo, especialmente o penteado comportado com gel da maioria dos rapazes. A volta do abotoamento duplo nos paletós, com quatro ou seis botões, que já é um dos principais acontecimentos do ano no guarda-roupa masculino, conferia ainda um ar de gângster dos anos 30 aos modelos na passarela. 

 

 “O que mais me impressionou no desfile foi o leque de possibilidades que os designers ofereceram. Ali havia opções para homens de diferentes lugares e culturas, do milionário da África do Sul, que encomenda um caftan para andar no seu palácio, aos jogadores de futebol, que aparecem de ternos coloridos e estampados nas grandes premiações”, diz Sylvain Justum, editor de moda da revista GQ Brasil que esteve em Portofino para assistir ao desfile. “O exagero e a extravagância estavam ali. Mas o verdadeiro luxo se percebia nos detalhes pouco aparentes, como o corte dos costumes, o forro dos paletós, os materiais usados nos botões, o acabamento...”

“O exagero e a extravagância estavam ali. Mas o verdadeiro luxo se percebia nos detalhes pouco aparentes, como o corte dos costumes, o forro dos paletós, os materiais usados nos botões, o acabamento...”, diz Sylvain Justum, editor de moda da revista GQ Brasil 

“O exagero e a extravagância estavam ali. Mas o verdadeiro luxo se percebia nos detalhes pouco aparentes, como o corte dos costumes, o forro dos paletós, os materiais usados nos botões, o acabamento...”, diz Sylvain Justum, editor de moda da revista GQ Brasil  Foto: Divulgação

 

De fato, com a marca espalhada pelo mundo, os estilistas miram em homens da elite global. Produzir ternos sob medida, com equipes de costureiros que se deslocam pela Europa para atendimento exclusivo e provas de roupa, equivale às criações de alta costura voltadas ao público feminino. Para isso, os estilistas contam com a habilidade de alfaiates e investem na qualificação de seu time. “Nossa ideia é priorizar o individualismo e oferecer um jeito único de vestir cada um, evitando tudo o que é medíocre ou comum”, diz Dolce.

SEM GÊNERO

A busca pela diferenciação e pelo fim da mesmice na moda masculina pode ser vista também em outras marcas de luxo, especialmente as italianas. Na semana masculina de moda em Milão, a coleção da Gucci, agora sob a direção criativa de Alessandro Michele, causou furor com calças pantalonas bem estilo anos 70, camisas rendadas, lenços de seda amarrados no pescoço, tênis com glitter e bolsas tiracolo quebrando barreiras de gênero. Prada e Ermenegildo Zegna também valorizaram as roupas unissex, que hoje representam uma nova forma de pensar a androginia. A questão não se resume mais a pegar emprestados elementos do guarda-roupa feminino. Mas, sim, de misturar tudo, em uma confusão de gênero indeterminado. “A mensagem, a meu ver, é de liberdade: gênero ou sexo, na proposta dos estilistas, não são mais determinantes no modo de vestir e na escolha dos materiais”, diz Sergio Amaral, redator-chefe da revista L’Officiel Hommes, que esteve em Milão para a semana de desfiles. 

“A mensagem, a meu ver, é de liberdade: gênero ou sexo, na proposta dos estilistas, não são mais determinantes no modo de vestir e na escolha dos materiais”, diz Sergio Amaral, redator-chefe da revista L’Officiel Hommes

“A mensagem, a meu ver, é de liberdade: gênero ou sexo, na proposta dos estilistas, não são mais determinantes no modo de vestir e na escolha dos materiais”, diz Sergio Amaral, redator-chefe da revista L’Officiel Hommes Foto: Divulgação

No mês passado, depois de um hiato de onze anos, foi realizada a Semana de Moda Masculina de Nova York. O evento, considerado mais comercial do que conceitual, volta a acontecer em um momento de alta no setor. Desde 2010, as vendas de roupas para homens aumentam mais rápido nos Estados Unidos do que as do setor feminino, impulsionando as grandes marcas a rever suas ofertas e propostas. Com uma concorrência muito maior, o mercado feminino parece saturado de marcas e estilo. "Quase, senão tudo, já tem alguém fazendo muito bem, de roupas ultraluxuosas e bordadas às minimalistas, ultrasexy, plus size etc.", afirma Sergio Amaral. "A moda masculina ainda tem várias fronteiras a serem desbravadas, coisa que só traz vantagens: além de escolher como quer ser, o homem hoje tem uma farta variedade de roupas para decidir também como quer se vestir e se apresentar ao mundo", diz ele.