Paulo Borges anuncia mudanças radicais na SPFW

Maria Rita Alonso - O Estado de S.Paulo

Em entrevista, o organizador da semana da moda conta que mudará o calendário para que as coleções cheguem às lojas simultaneamente aos desfiles e anuncia que não irá mais usar nomenclaturas ligadas às estações do ano

 Paulo Borges é o criador do calendário de moda nacional e organizador do evento há 21 anos.

 Paulo Borges é o criador do calendário de moda nacional e organizador do evento há 21 anos. Foto: Nilton Fukuda/ Estadão

Houve uma época, não faz muito tempo, em que os desfiles de moda ocorriam em ambientes restritos, com a aura esnobe das coisas feitas para poucos e bons, e o que era apresentado ali para a imprensa e compradores levava seis meses para chegar até o consumidor. Mas isso já era. Com as redes sociais, em um enorme movimento de exibição, promoção e divulgação instantâneo, as passarelas foram escancaradas e as marcas viram ampliar suas oportunidades no varejo. Isso acarreta também em uma grande questão no mercado hoje: por que criar o desejo de compra, com as imagens das roupas, das modelos, das primeiras filas dos desfiles percorrendo celulares mundo afora, e esperar seis meses para satisfazê-lo? É nesse sentido que o Estado revela, com exclusividade, uma grande mudança no processo de lançamento das coleções do São Paulo Fashion Week. “A partir de 2017, mudaremos as datas de desfiles para deixá-los bem próximos ou mesmo simultâneos aos lançamentos no varejo”, diz Paulo Borges, criador do calendário de moda nacional e organizador do evento há 21 anos. Será uma ação precursora, que já vem sendo discutida pelas fashion weeks internacionais e adotada por marcas como Burberry e Moschino. Em entrevista, Borges fala sobre o momento disruptivo que a moda vive hoje, antecipa que abandonará nomenclaturas ligadas às estações do ano e comenta a saída de Alexandre Herchcovitch da SPFW.

 

Eu não entro no mérito no sentido de: 'puxa, e agora, o que vai ser da minha vida sem o Alexandre?'

O modelo de desfile vem sendo colocado em xeque no mundo. Os altos gastos das semanas de moda ainda compensam e são capazes de ativar as vendas?

Hoje as redes sociais fomentam o desejo de consumo de uma maneira muito poderosa. O que está em discussão no mundo é como usar essa força de maneira ágil e imediata. Por isso, digo aqui em primeira mão que vamos fazer uma grande mudança, que prevê uma revisão nos processos de lançamentos das coleções. A partir de 2017, vamos mudar as datas de desfiles para deixá-los bem próximos ou mesmo simultâneos aos lançamentos no varejo. A edição de novembro já será híbrida, vamos instaurar o novo processo, chamar a imprensa de moda para conversar. Assim, a marca já poderá transformar o desfile na ferramenta do estímulo e divulgação imediata de venda.

Fornecedores dizem que muitos pagamentos da edição anterior estão em aberto. Essa informação é verdadeira?

Nós temos 21 anos de São Paulo Fashion Week. O mercado está muito complicado para todo mundo. O nível de inadimplência é enorme em todos os setores. E nós realmente tivemos um atraso no recebimento da verba de um dos patrocinadores. Quando você fica com as margens justas, isso acarreta em um atraso nos pagamentos. Já deixamos claro para os fornecedores que ainda precisam receber que tudo será resolvido. Inclusive, para parte deles esses valores já estão sendo acertados.

A Fashion Week está ameaçada? Ela pode acabar por falta de patrocínio?

Não, a Fashion Week não se encontra ameaçada. Ela está fortalecida. Este ano, conseguimos quatro novos patrocinadores e teremos estreias de quatro novas marcas. Entre os patrocinadores, que ainda não podemos revelar, estão uma grande empresa da indústria de beleza, uma marca de bebidas e uma de carro. Se você considerar o momento econômico do País e levar em conta quantas coisas estão sendo canceladas, verá como a nossa seriedade, a nossa história nos ajudam.

A saída do Alexandre Herchcovitch é uma perda grande?

É claro, como seria a de qualquer outra marca. Eu não entro no mérito no sentido de: "puxa, e agora, o que vai ser da minha vida sem o Alexandre?". A minha vida vai andar para frente. Agora, você acredita que o Alexandre morreu?

Não. Mas ele é um dos maiores estilistas do País e esteve presente na SPFW desde o início.

Sim. Mas é como aconteceu com Galliano, com Lacroix, com Gaultier. Isso acontece na vida do criador. Por outro lado, teremos a estreia da marca Amir Slama e de outras marcas. Tudo isso mostra que o mercado continua em construção. É um mercado vibrante, em transformação constante e muito resiliente. 

 

Você acha que a moda como conhecemos hoje está com os dias contados ou está consolidada e só passará por ajustes?

Precisa de ajustes apenas. Vivemos um processo de angústia porque estamos em transformação. Vivemos um momento disruptivo de forma geral e a moda está dentro disso. Tenho dito que estamos vivendo uma nova antropofagia, um novo modernismo, diferente do da semana de 22. É um momento antropofágico porque estamos mastigando e vomitando tudo o que vivemos nos últimos 30, 40 anos. Estamos revendo questões políticas, sociais, econômicas. Estamos revendo a questão humana e a moda expressa tudo isso. Não tem como ela não se transformar.

 

Nos últimos desfiles, a Riachuelo já seguiu o modelo da Moschino e disponibilizou nas lojas as roupas do desfile no mesmo dia da apresentação. Nossas marcas terão estrutura para isso?

A coleção de Karl Lagerfeld para a Riachuelo, na próxima edição de abril da SPFW, também será assim. Eles estão se organizando há 18 meses para isso. Tem que haver um novo entendimento do negócio, mas já tem gente que está fazendo coleções cápsulas para lançar nas lojas ao mesmo tempo do desfile. Isso já é uma realidade.

 

A SPFW será percussora?

Essa mudança é irreversível porque você não vai mais desligar o celular nem conter a disseminação das redes sociais. Isso só vai se intensificar. Em 2001, a SPFW foi a primeira semana de moda a fazer a transmissão ao vivo dos desfiles pela internet. A imprensa internacional não entendia nada e acabou massacrando a gente, porque o ambiente dos desfiles sempre foi restrito a compradores e imprensa. Mas eu sempre tive a convicção de que um desfile é a maior ferramenta de difusão de uma marca. Ele está aberto à crítica, à análise. Quando surgiram as redes sociais, eu pensei: "agora, os desfiles vão explodir". Foi uma profecia. Nesta década, teremos que reestruturar os negócios. Vamos entrar numa terceira fase da SPFW, com ganhos da primeira, na qual finalmente estabelecemos um calendário de lançamentos,  e da segunda, quando organizamos o funcionamento dos showrooms no Brasil.  

 

Quais serão os meses de desfiles a partir de 2017 então?

Fevereiro e final de julho, início de agosto. A imprensa e o lojista vão ter acesso às coleções antes para fotografá-las e decidir as compras. E vai haver um contrato entre o jornalista e a marca, com embargo dessas imagens até o desfile. E isso já está sendo discutido lá fora também. Será uma mudança grande no processo todo.

Primavera-verão, outono-inverno. Como lidar com a questão das estações? Com o mundo globalizado faz sentido apresentar roupas conforme estações?

A moda é global, o desejo é global. Não é a estação do ano que impulsiona a venda. E, no Brasil, faz sempre calor. Por isso, nós não vamos mais colocar na nomenclatura da SPFW nem Primavera/Verão nem Outono/Inverno. 

Você acredita na nova geração de estilistas (Patrícia Bonaldi, Vitorino Campos, Lilly Sartir, Ratier) como acreditava na geração de Herchcovitch, Marcelo Sommer e Tufi Duek?

Acredito no novo sempre. Acho que o que fez do SPFW ser do tamanho que é, com a importância que tem, foi a gente sempre se colocar como algo novo e à serviço do coletivo. Não entro no mérito do julgamento se aquele desfile é melhor do que outro. O mercado tem se apoiar e funcionar para todo mundo. O SPFW não é meu nem para mim, é para o mercado.