Para aumentar as chances de uma vida longa, os homens devem retardar a paternidade até 25 anos

Sasha Harris-Lovett - O Estado de S.Paulo

Pesquisadores calcularam que os homens que foram pais antes dos 22 anos tinham 26% mais propensão a morrer entre 45 e 54 anos do que homens que esperaram até os 25 anos para ter um filho

"A paternidade pode ser desafiadora para homens - especialmente numa idade mais jovem", diz socióloga

"A paternidade pode ser desafiadora para homens - especialmente numa idade mais jovem", diz socióloga Foto: Gil/ Creative Commons

Eis um conselho abalizado para pais em potencial: se possível, esperem até os 25 anos aproximadamente para ter filhos. Tornar-se pai mais cedo aumenta as chances de morrer mais cedo, é o que sugere uma nova pesquisa.

Após analisar prontuários de saúde de mais de 30 mil pais da Finlândia, pesquisadores calcularam que os homens que tiveram seu primeiro filho antes dos 22 anos de idade tinham 26% mais propensão a morrer entre as idades de 45 e 54 do que homens que esperaram ao menos até os 25 anos para ter um filho. Os pais mais jovens eram cerca de 50% mais propensos a morrer mais cedo do que homens que esperaram para ter filhos até chegarem pelo menos aos 30 anos.

"A paternidade pode ser desafiadora para homens - especialmente numa idade mais jovem", disse a socióloga Elina Einiö da Universidade de Helsinque, chefe de uma equipe que reportou as descobertas no Journal of Epidemiology and Community Health.

Os pais que participaram do estudo constituíram uma amostra significativa da população finlandesa e nasceram entre 1940 e 1950. Os pesquisadores usaram informações da Statistics Finland, uma agência estatal, para determinar a idade em que cada um dos homens se tornou pai e se morreram entre as idades de 45 a 54.

O padrão foi claro: homens que tiveram filhos quando mais jovens foram mais propensos a morrer cedo, independentemente de outros fatores como situação conjugal, número total de filhos e região em que viveram. Os homens que esperaram até pelo menos 30 anos para ter filhos foram mais propensos a sobreviver à meia idade.

Haverá alguma coisa na paternidade precoce que tira anos da vida de um pai? Ou será outro fator social, como crescer na pobreza, que simultaneamente torna homens mais propensos a ter filhos mais cedo e ter problemas de saúde que aumentam suas chances de morte prematura?

Para elucidar essa questão, os pesquisadores filtraram seu grupo de pais e identificaram quase 12 mil homens que tinham ao menos um irmão. Ao examinar as taxas de mortalidade na meia idade de irmãos que tiveram filhos em idades diferentes, os pesquisadores puderam descartar, em grande parte, fatores como traços genéticos e experiências sociais na vida pregressa que poderiam afetar a idade em que homens têm filhos e a idade em que eles (os pais) morrem.

Os pesquisadores descobriram que a relação entre paternidade prematura e morte prematura era particularmente forte entre irmãos. Nesse grupo, homens que se tornaram pais antes dos 22 anos eram 73% mais propensos a morrer na meia idade do que seus irmãos que esperaram até pelo menos os 25 anos de idade para se tornarem pais. Os dados sugeriram que os homens que esperaram até os 30 anos ou mais foram ainda mais propenso que os pais com 25 anos a sobreviver à meia idade, mas a diferença não era grande o suficiente para ser estatisticamente significativa.

Muitos filhos nascidos de pais mais jovens no estudo foram resultado de gravidez não planejada nos anos 60 e 70, disse Einiö. Naquela época, havia uma pressão social significativa para as pessoas se casarem se acidentalmente gerassem um filho.

"A súbita assunção do papel combinado de pai e ganha-pão pode ter causado um estresse psicológico e econômico considerável num homem jovem", disse Einiö. "A paternidade prematura pode ser difícil, e é importante que outros membros da família e profissionais de saúde reconheçam que não são somente as mães jovens, mas também os pais jovens que podem precisar de apoio."

Dos pais que morreram com idades de 45 a 52, as principais causas de morte foram doenças cardíacas (21%) e doenças relacionadas ao álcool (16% das mortes).

Parte dos comportamentos de risco que podem levar à paternidade prematura, como relações sexuais desprotegidas e consumo de álcool, contribuiriam também para a morte prematura, disse o dr. Craig Garfield, pesquisador de saúde e pediatra na Escola de Medicina Feinberg da Northwestern University, que não esteve envolvido no estudo.

A descoberta de que pais jovens tendem a morrer mais cedo é motivo para atenção do sistema de saúde, disse ele. Nos EUA, os jovens são os que têm menos probabilidade do que qualquer outro grupo demográfico de obter uma assistência médica regular, ele acrescentou.

Os pediatras que atendem pais jovens com seus bebês deveriam encorajar os homens a cuidar de sua própria saúde além do bem-estar de suas famílias, disse Garfield.

"Há pouquíssimas coisas que podemos fazer em medicina e em sociedade que nos dariam um retorno tão bom do investimento, como garantir que ambos os pais sejam saudáveis", disse Garfield.

Tradução de Celso Paciornik