Ousadia marca semana de Milão

Jorge Grimberg - O Estado de S.Paulo

Estranheza e originalidade definem o estilo da nova mulher italiana na temporada que terminou na segunda, 29

Gucci backstage outono inverno 2016: a estranheza reina em Milão

Gucci backstage outono inverno 2016: a estranheza reina em Milão Foto: Divulgação

O interessante da Semana de Moda de Milão é que, em geral, as coleções ficam cada vez um pouco mais estranhas, embaladas pelo movimento encabeçado pela nova estética da Gucci. A paixão da mídia de moda global pelo trabalho inovador do diretor criativo Alessandro Michele mexeu com a cabeça - e com o coração - de outros consagrados estilistas, e está transformando a cena nas passarelas de Milão. 

A busca do estilista por uma originalidade sem precedentes, a ponto de criar uma super-nerd-vovó-estranha, e o entendimento de que isso gera desejo e diversidade, coloca a Gucci em um espaço privilegiado em meio ao mar de desfiles. E faz com que uma série de estilos ousados surjam em diferentes passarelas e que tendências ultrajantes brotem para o Outono Inverno 2016. 

 

A fila do desfile da Prada

A fila do desfile da Prada Foto: Divulgação

Um dos melhores desfiles da temporada, o da Prada se destacou por algumas sacadas interessantes da estilista Miuccia Prada, como a sobreposição de corselets, algo tão novo quanto antigo, o mix de cintos, finos e grossos, e as bonitas estampas do artista Christophe Chenin, que já tinham aparecido na coleção masculina em janeiro.

Os looks individuais são interessantes, mas a imagem abaixo, das modelos juntas no backstage, declara a estranheza como fator essencial no conjunto da obra. 

Modelos alinhadas no backstage da Prada

Modelos alinhadas no backstage da Prada Foto: Divulgação

Felizmente, Miuccia é genial e seu túnel do tempo radical, que mistura influências variadas, de clubbers a marinheiros, pode estar definindo um futuro para a marca e para a moda. Uma versão mais acessível dessa nova mulher Gucci. 

Até os românticos Domenico Dolce e Stefano Gabanna saíram da caixinha. Com o tema ‘princesas’, o desfile da Dolce & Gabbana teve um pouco de tudo: vestido com candelabro desenhado, chapéu de flor, estampa da família real britânica... Um post-pourri gostoso e divertido, cheio de referências interessantes, que faziam a gente sentir algo familiar. 

Close em sapato do desfile da Dolce & Gabbana

Close em sapato do desfile da Dolce & Gabbana Foto: Divulgação

Modelos em fila no backstage da Dolce & Gabbana

Modelos em fila no backstage da Dolce & Gabbana Foto: Divulgação

Enquanto todo mundo está apostando em outros territórios para ganhar notoriedade, Donatella Versace, a rainha do exagero, curiosamente aparece como uma quase minimalista. Empolgada com a tendência atlética, a estilista acertou a mão em uma coleção bonita e sóbria. Ao contrário dos seus colegas italianos, a Versace apresentou um desfile focado em poucos elementos, que combinam entre si, sem exageros e invenções desconcertadas. As peças em dois tons de azul, as jaquetas boxy e os vestidos com suaves contrastes  de cor são do tipo veja-agora-compre-agora e devem dar uma turbinada nas vendas. Versace contida? Isso também é ousado. 

Modelo na passarela da Versace

Modelo na passarela da Versace Foto: Divulgação

Modelo na passarela da Versace

Modelo na passarela da Versace Foto:

Enfim, o show da moda italiana está cheio de interpretações e desejos. Até poucas temporadas atrás, a indústria se questionava se a Itália teria futuro como centro de inovação e criatividade. Pois, após os desfiles de outono inverno 2016, ficou provado em Milão que, sim, o país tem criatividade e inovação para ninguém botar defeito. 

Em close, bolsa do desfile da Gucci

Em close, bolsa do desfile da Gucci Foto: Divulgação

Prova disso foi a temporada divertida e autoral.  Em um momento em que o mundo está politicamente complicado e enfadonho, a Itália exerce o melhor papel da moda: o de divertir, encantar, gerar desejos, polêmicas, emoções e, por que não, muitos likes e shares.