O trauma da paternidade

Eli J. Finkel - O Estado de S.Paulo

De três a seis meses após o parto, 42% das mães e 26% dos pais de primeira viagem apresentam sinais de depressão clínica

Todo mundo sabe que ser pai, ou mãe, de um bebê é uma tarefa dura. Noites insones, gritos exigindo atenção, perda de autonomia, isolamento social e a monotonia da rotina. 

Todos sabem também que há apenas uma resposta socialmente aceitável a esta situação: uma obstinada insistência em que a adoração que nosso filho nos desperta justifica todos os sacrifícios. Esta é "a tarefa mais difícil que sempre amaremos". A única desculpa válida por nos sentirmos tristes e desanimados é um colapso hormonal pós-parto. Que outra justificativa poderia haver para saudar seu embrulhinho de felicidade com desespero?

Esta é a ideologia da moderna paternidade, e pode levar a sentimentos desnecessários de culpa e vergonha, pois ela ignora uma verdade inconveniente: muitas mulheres e homens experimentam um grande sofrimento psicológico como reação ao fato de se tornarem pais e mães, e grande parte desta aflição não é causada por um epifenômeno hormonal do processo de parto. Ao contrário, é provocada em grande medida pelas circunstâncias objetivamente sombrias que os pais de primeira viagem muitas vezes enfrentam. Amar o próprio filho nem sempre basta para encarar esta realidade.

Felizmente, nos últimos anos, a ideologia da paternidade tem sido contestada por cientistas sociais, que têm demonstrado reiteradamente uma profunda discrepância entre o dogma da paternidade e a experiência concreta de serem pais.

Embora muitos deles assumam felizes seu novo papel, são milhões os que, todos os anos, reagem com desespero. Segundo um artigo publicado em 2010 pelo Journal of the American Medical Association, de três a seis meses após o parto, 42% das mães e 26% dos pais de primeira viagem apresentam sinais de depressão clínica. E um estudo longitudinal mostrou, no início deste ano, na revista Pediatrics, que os homens em média experimentam aumentos significativos de sintomatologia depressiva nos cinco primeiros anos depois do nascimento do filho (somente os que moravam com o filho). Na realidade, nos anos que se seguem ao nascimento, tanto os homens quanto as mulheres experimentam uma significativa redução do nível de satisfação geral com a própria vida, segundo afirma um trabalho publicado em 2008 no The Economic Journal.

A história é igualmente sombria quando consideramos as experiências cotidianas das pessoas. Num estudo publicado na revista Science, os entrevistados relataram suas experiências emocionais durante cada uma de 16 atividades no decorrer do dia anterior: no trabalho, na ida e volta do emprego, numa atividade física, olhando TV, comendo, relacionando-se com os outros, e assim por diante. Elas experimentaram uma emoção mais negativa quando se tornaram pais do que durante qualquer outra atividade que não fosse trabalho. E sentiram mais fadiga quando se tornaram pais do que em qualquer outra atividade.

Tornar-se pai ou mãe tem um preço também no que diz respeito aos relacionamentos. Um estudo de 2009 publicado pelo Journal of Personality and Social Psychology concluiu que a transição para a paternidade está ligada à redução da felicidade no casamento e a um comportamento mais negativo durante os conflitos entre o casal. As evidências também demonstram que esta transição está relacionada a uma substancial redução das dimensões das redes familiares e de amigos do pai, ou da mãe.

Esta pesquisa, que sequer levou em conta o fabuloso custo financeiro da criação de um filho, apresenta evidências claras de que, para muitas pessoas, ter um filho é em parte uma bênção e em parte um trauma.

Considerando a ideologia da maternidade, não surpreende que culpemos tipicamente a biologia por experimentarmos a depressão pós-parto. Mas as circunstâncias que os pais enfrentam muitas vezes são concretamente miseráveis. O fato de as taxas de depressão pós-parto serem muito mais elevadas entre os pobres do que entre os ricos, que podem comprar a paz de espírito contratando babás, respalda a ideia de que o fenômeno é, na maioria dos casos, mais circunstancial do que biológico.

Como recentemente também me tornei pai, aconselho aos leitores que considerem isto da próxima vez que algum conhecido os cumprimentar pela transição para a paternidade com felicidade ou mesmo com desespero. Busquem o amor e não a ideologia. Para quem enfrentou o sofrimento com ponderação, a solidariedade pode fazer toda a diferença.

Tradução de Anna Capovilla