O que leva as meninas a entrarem na puberdade precocemente?

Louise Greenspan e Julianna Deardorff - O Estado de S.Paulo

Os culpados na verdade são dois problemas com frequência ignorados: a obesidade e o estresse familiar

Um número recorde de meninas que não têm idade nem mesmo para entrar na escola secundária já está entrando na puberdade. Por definição, a puberdade chega numa idade inoportuna, mas essas garotas ainda frequentam a escola primária e já começam a sofrer as vicissitudes do seu desenvolvimento sem estar preparadas para a mudança.

Como mães de meninas vemos este fenômenos e nos preocupamos com as implicações. A puberdade precoce acarreta problemas alimentares, depressão, abuso de substâncias, uma atividade sexual também precoce e, no final da vida, câncer do seio. Mas como médicos, estremecemos com argumentos equivocados culpando substâncias que não são as principais responsáveis - os hormônios em nossos alimentos ou a soja nas nossas dietas, por exemplo. Os culpados na verdade são dois problemas com frequência ignorados: a obesidade e o estresse familiar.

Um número recorde de meninas que não têm idade nem mesmo para entrar na escola secundária já está entrando na puberdade

Um número recorde de meninas que não têm idade nem mesmo para entrar na escola secundária já está entrando na puberdade Foto: martinak 15/ Creative Commons

Para entender melhor o fenômeno da puberdade precoce nós, juntamente com outros colegas, estamos realizando um estudo contínuo com mais de 1.200 meninas desde 2005. A puberdade costumava ter início com a idade de 10, 11 anos. No nosso estudo, descobrimos que aos sete anos, 23% das meninas negras, 15% das garotas hispânicas e 10% das garotas brancas começam a desenvolver os seios. A partir dos dados que coletamos ficou claro que meninas com sobrepeso são mais suscetíveis à puberdade precoce. A gordura do corpo secreta o estrogênio, hormônio normalmente liberado dos ovários durante a puberdade e responsável pelo crescimento dos seios. A gordura do corpo em excesso serve como fonte adicional de estrogênio e o resultado é o crescimento precoce das mamas.

Bebidas açucaradas contribuem para as crianças de hoje serem mais gordas do que em gerações anteriores. De fato, segundo um estudo, pelo menos 20% do peso ganho pela população entre 1977 e 2007 foram atribuídos a bebidas adoçadas. O papel dos adoçantes é complicado. Uma nova pesquisa anunciada na semana passada pela Harvard School of Public Health sugere que as meninas que bebem mais refrigerantes têm probabilidade de chegar mais cedo à puberdade, independente do sobrepeso.

E o mais surpreendente, há fortes evidências de que o estresse emocional no âmbito da família colabora para a puberdade precoce. Viver em lares onde há muito conflito leva à maturidade mais cedo. O mesmo vale para o caso de abuso sexual. No caso de uma menina que cresce sem o pai biológico é duas vezes maior a probabilidade de ela ficar menstruada antes dos 12 anos, em comparação com uma com um pai em casa. A presença do pai no lar parece ser importante no tocante à puberdade.

As substâncias químicas que afetam o sistema endócrino também preocupam porque elas podem imitar hormônios, como o estrógeno, importantes no corpo de uma garota durante a puberdade. Muitas substâncias químicas, incluindo as encontradas em plásticos e aquelas resistentes ao fogo, perturbam o desenvolvimento reprodutivo em animais; contudo, no caso dos humanos é necessária mais pesquisa a respeito.

Embora uma substância química individualmente possa não ter um efeito direto sobre a puberdade, não temos noção de como centenas de substâncias químicas a que uma menina está exposta diariamente podem causar múltiplos efeitos no seu corpo em desenvolvimento. Pode ser uma combinação de exposições que provocam um dano real, como também o momento dessa exposição. E partir para o "tudo natural" pode não ser a solução porque algumas substâncias que se produzem naturalmente - por exemplo, óleos de lavanda e de árvores de chá - estão por toda a parte e os produtos de cuidados pessoas podem agir como estrógenos no corpo.

Portanto, o que os pais e a sociedade em geral devem fazer?

Existem sempre maneiras de nos protegermos contra a puberdade precoce. O aleitamento materno no início da vida parece ajudar. Além disto, quando a mãe mantém um peso saudável antes e durante a gravidez, sua filha tem menos probabilidade de ficar menstruada muito cedo.

Trabalhos realizados por nossa equipe também mostram que consumir alimentos à base de soja pode retardar a puberdade, o que contraria uma crença antiga de que todos os produtos à base de soja aceleram a puberdade. Oferecer um ambiente emocional tranquilo em casa não só ajuda a prevenir a puberdade precoce , mas também a mitigar os efeitos psicológicos caso ela ocorra. Para proteger contra o estresse tóxico, os pais devem ter como prioridade separar um tempo para se relacionar com as filhas e criar vínculos afetivos.

Precisamos também melhorar nossos cardápios diários e aumentar a qualidade dos almoços nas escolas. Buscar alternativas para bebidas doces e guloseimas como prêmios por boas notas, bom comportamento e comemorações. E os adultos precisam mostrar hábitos saudáveis que apoiem nossos próprios pesos ideais e reduzam os níveis de estresse.

A puberdade é um fenômeno biológico complexo que não é desencadeado por um único fato. Mas em vez de procurarmos atacar os múltiplos fatores ao mesmo tempo, talvez seja melhor começar nos concentrando na obesidade e no estresse, dois fatores que, segundo pesquisas, têm efeitos diretos e nocivos. Tem sentido também adotar um enfoque cauteloso com relação a substâncias químicas em nossa casa e nos nossos alimentos. Como mães e pesquisadoras, defendemos mais pesquisas e também respaldamos o princípio da precaução: se não sabemos se uma coisa é segura então não vamos expor nossos filhos a ela.

Louise Greenapn é endocrinologista e pediatra na Kaiser Permanent. Julianna Deardorff é professora na Universidade da Califórnia em Berkeley. Ambas são autoras do livro "The New Puberty: How to Navigate Early Development in Today´s Girsl".

Tradução de Terezinha Martino