O problema da ‘fat talk’

Renee Engeln - O Estado de S.Paulo

Será tão importante assim você dizer a todo o mundo o quanto se sente gordo(a)?

Há algumas semanas, em consequência de uma petição online assinada por milhares de pessoas, o Facebook anunciou que estava retirando "feeling fat" (sentindo-me gordo(a)) de sua lista de emoticons atualizadores de status. A petição argumentava que o emoticon ofensivo, com suas bochechas estufadas e queixo duplo, reforçava imagens corporais negativas, e o Facebook pareceu concordar.

A "fat talk" não é um ritual de relacionamento social inofensivo

A "fat talk" não é um ritual de relacionamento social inofensivo Foto: Olivia Zagnoli/ NYT

Será tão importante assim você dizer a todo o mundo o quanto se sente gordo(a)? Afinal, um simples "Estou tão gordo(a)!" pode resultar num coro de vozes simpáticas dizendo, "Eu também!" ou "Você é lindo(a) do jeito mesmo que está!" E isso ajudará você a se sentir melhor, e ajudará outros a se sentirem melhor também - certo?

Errado. Como alguém que estuda este tipo de autodepreciação pública conhecido como "fat talk" (algo como "falar sobre estar gordo(a)") posso dizer que isto provavelmente o fará se sentir pior. E poderá arrastar para baixo outras pessoas junto com você.

Conversas sobre vergonha do corpo se tornaram praticamente um ritual da condição feminina (embora homens também se entreguem a ela). Numa pesquisa que um colega e eu reportamos em 2011 no Psychology of Women Quarterly, nós descobrimos que mais de 90% de mulheres universitárias reportaram o envolvimento em "fat talk" - apesar do fato de que somente 9% estavam realmente acima do peso. Em outra pesquisa, que publicamos em dezembro no Journal of Health Psychology, nós entrevistamos milhares de mulheres de 16 a 70 anos. Ao contrário do estereótipo de "fat talk" como uma prática de mulheres jovens, descobrimos que a prática era comum em todas as idades e todos os tamanhos corporais.

Mais importante, a "fat talk" não é um ritual de relacionamento social inofensivo. Segundo uma análise de vários estudos que meus colegas e eu publicamos em 2012 no Psychology of Women Quarterly, a "fat talk" estava associada a vergonha do corpo, insatisfação com o corpo e comportamento de desordens alimentares. A "fat talk" não motiva mulheres a fazerem escolhas mais saudáveis ou tomarem cuidados com seus corpos; aliás, os sentimentos de vergonha que ela traz tendem a encorajar o oposto.

A "fat talk" também é contagiosa. Num estudo que saiu em 2012 na publicação Sex Roles, um colega e eu pedimos para mulheres jovens se juntarem a outras duas mulheres jovens sentadas a uma mesa para discutir anúncios de revistas. O truque era que as duas outras mulheres trabalhavam para nós; eram o que pesquisadores chamam de confederadas. Os anúncios começavam inocentemente. Um era de uma loja de produtos eletrônicos. O outro de um purificador de água. Mas o terceiro era um típico anúncio de moda mostrando uma modelo de biquíni.

Na condição de controle, nossas confederadas comentaram sobre o visual dos fundos do anúncio de moda, mas evitaram mencionar a modelo ou sua aparência. Na condição "fat talk", nossas duas confederadas (nenhuma delas acima do peso) comentaram sobre a modelo. Uma disse : "Olha as coxas dela. Me faz sentir tão gorda". A outra respondeu: "Eu também. Queria que meu estômago fosse quase tão plano como esse".

Depois foi a vez de nossas pesquisadas. Na condição de controle, quando nenhuma de nossas confederadas se envolveu em "fat talk", nenhuma das pesquisadas fez o mesmo. Mas quando nossas confederadas entraram em "fat talk", quase um terço das pesquisadas aderiu. Estas pesquisadas reportaram também níveis mais altos de insatisfação corporal e vergonha no fim do estudo do que suas contrapartes na condição de controle.

Não podemos controlar muitas coisas neste mundo. Não podemos impedir publicitários de retocar imagens fotográficas. Não podemos impedir a indústria de moda de preferir modelos magricelas. Mas podemos controlar as palavras que estão saindo de nossas bocas. E quando mulheres perguntam se seus corpos estão bem, elas podem perfeitamente estar levando outras mulheres a fazer o mesmo.

No fim, realmente não importa que o Facebook tenha proibido o emoticon com queixo duplo. O que é importa é que, para nosso próprio bem e o bem de outros, nós mulheres deixemos de falar dessa maneira, de um jeito ou de outro. Com ou sem emoticon, precisamos mudar a conversa.

A autora é psicóloga e professora na Northwestern University.

Tradução de Celso Paciornik