"O filme é sobre a mente e o coração de quem trabalha na Dior"

Maria Rita Alonso - O Estado de S.Paulo

Em sua estreia como único diretor de um filme, Frédéric Tcheng fala sobre o processo criativo de "Dior & Eu" e sobre a relação com o estilista Raf Simons, protagonista do documentário

Mistura de documentário e ficção, Dior e Eu segue Raf Simons enquanto ele cria sua primeira coleção para a tradicional ‘maison’ francesa. O diretor foi responsável também pelos filmes sobre Valentino (o estilista) e Diane Vreeland (a própria O Diabo Veste Prada). http://oesta.do/1LDV79P

Mistura de documentário e ficção, Dior e Eu segue Raf Simons enquanto ele cria sua primeira coleção para a tradicional ‘maison’ francesa. O diretor foi responsável também pelos filmes sobre Valentino (o estilista) e Diane Vreeland (a própria O Diabo Veste Prada). http://oesta.do/1LDV79P Foto: Divulgação

Na moda, é bonito ser blasé e manter aquele ar de indiferença e superioridade. Isso, de certa forma, demonstra confiança nas próprias escolhas, personalidade, nível alto de sofisticação – e baixo de deslumbramento. No entanto, escolher um protagonista blasé como Raf Simons, e fazer dele a porta de entrada para um documentário sobre o mundo da moda, é aceitar um tremendo desafio: o de mostrar as emoções profundas que envolvem um criador sob pressão extrema. Missão bem cumprida pelo diretor Frédéric Tcheng ao enfocar o estilista belga no documentário Dior e Eu, que entra em cartaz nesta quinta, dia 27. Sobre o processo de filmagens do longa, ele fala na entrevista a seguir.

Como você conheceu Raf Simons? Como foi seu primeiro encontro com ele?

Meu primeiro encontro com ele está documentado no filme, no dia em que ele se apresentou na Dior. Não tinha encontrado com ele antes e também não nos falamos aquele dia, que foi estressante para nós dois. Raf passou algumas horas conhecendo cada pessoa que trabalha na maison. Tivemos um pouco de contato antes, por e-mail, quando ele vetou o projeto do filme. Depois que enviei uma carta explicando meus motivos de eu querer fazer o filme, ele aceitou fazer uma semana de teste, que se transformou em dois meses de filmagens.

Quais foram os limites que Raf Simons e a própria Dior colocaram?

Estava com medo de que isso acontecesse, mas fui muito claro quanto às minhas intenções e fiquei surpreso com a liberdade que me deram. Claro que houve discussões, tanto nas filmagens quanto no processo de edição, mas o filme ficou exatamente como eu disse que o faria. 

A equipe do ateliê da Dior gostou do filme?

As pessoas ficaram bem tocadas. Até alugamos um cinema em Paris para a exibição do filme, pois os artesãos nos contaram que nunca viam o resultado das filmagens que fazem deles. Eles são uma parte importante do processo criativo e eu não queria ser o cara que explora a imagem das pessoas só para explicar o que o Raf está fazendo. O filme é sobre a mente e o coração de quem trabalha na Dior. 

Qual foi o seu maior desafio nesse projeto?

Achar a minha voz.  Eu estava numa situação muito similar a do Raf: ambos estávamos fazendo algo maior que nós mesmos. Era meu primeiro filme sozinho como diretor. Fiquei muito íntimo de meus personagens e, na sala de edição, tive que me distanciar deles. Acredito que seja similar à situação do Raf, já que a ideia do legado de Cristian Dior é ainda muito presente.Seu maior desafio é permanecer fiel a si mesmo. 

Como é a sua relação com Raf atualmente? Vocês se tornaram amigos? 

Durante o processo de finalização do filme, ele me ligou para me parabenizar e falou que agora poderíamos ser amigos. Eu fiquei curioso, pensando “porque não antes?”, mas ele se justificou dizendo que a nossa proximidade poderia influenciar meu trabalho ou minhas decisões, o que eu achei muito esperto e respeitoso. Agora somos amigos. 

Qual é seu momento favorito do filme? 

O momento em que ele chora no telhado é um breakthrough, em que consegui entrar no seu pensamento e mostrar sua vulnerabilidade. Raf é muito intenso e difícil de ler, então não sabia se o público conseguiria entender os seus sentimentos e naquele momento eu consegui. Engraçado que ele não se lembra de eu estar lá no rooftop. Nos falamos e depois de dez segundos ele estourou em lágrimas. Filmei por alguns segundos e depois percebi que precisava deixá-lo a sós.

Porque você escolheu fazer documentários de moda? 

Acredito que a moda me escolheu e não o contrario. Trabalhei em diversos filmes e oportunidades levam a oportunidades. Você se apaixona pela história ou personagem e decide fazer um documentário. Não foi algo planejado, simplesmente aconteceu. Agora, estou tentando voltar para ficção, escrevendo um roteiro que não tem nada a ver com moda, mas que tem alguns elementos de documentários, como uma continuação do que eu venho fazendo.