Não existe desculpa para essa moda feia e entediante

Robin Givhan - Washington Post

Na Semana de Moda de Paris, desfiles revelam o grande problema da indústria

Modelos usam as criações de primavera-verão 2018 da Lanvin 

Modelos usam as criações de primavera-verão 2018 da Lanvin  Foto: AP Photo/Francois Mori

Você sente isso quando a primeira modelo entra na passarela. Você pode sentir o cheiro. Supostamente, aquele look seria a abertura do espetáculo, dando o tom e definindo expectativas. Como o primeiro parágrafo de um conto, são as linhas iniciais que fazem você querer virar a página e ver o que virá em seguida. 

Então, quando a primeira modelo surgiu na passarela da Lanvin na estreia de Olivier Lapider - o designer encarregado de rejuvenescer o empoeirado legado da marca depois de algumas temporadas de turbulência após a chocante saída de Alber Elbaz, em outubro de 2015 -, sua roupa deu um sinal de alerta de que o que viria não seria muito bom. 

Na verdade, foi horrível. 

Não foi surpreendente, agradável nem violentamente desconcertante. Mas também, não foi o tipo de coleção que explode catastroficamente, como um display de fogos de artifício fora de controle. Não tinha nenhum fogo. Não tinha paixão. Só um triste vestidinho preto. 

A maioria das mulheres sabe da necessidade de um vestido preto. Eles são versáteis e seguros. Feitos bem, eles podem ser chiques e fazer uma mulher se sentir sedutora - como a personagem Holly Golightly, de Bonequinha de Luxo. Com os acessórios certos, um vestido preto pode ser tão versátil quanto um terno masculino. 

Mas, se feito errado, ele é maçante. É um sinal de rendição. É desdém.  

Os vestinhos pretos da Lanvin

Os vestinhos pretos da Lanvin Foto: AP Photo/Francois Mori

Aquele primeiro vestidinho preto foi seguido por outro. Logo veio um conjunto de sutiã preto coberto com alguns retalhos de tecido também preto, caindo no corpo de uma maneira que fez parecer que a modelo tinha um pneu em volta de cintura. 

No momento em que ele desfilou um grupo de vestidos estampados com o logo Lanvin, as pessoas só puderam suspirar com discrença. Quem quer se enrolar em um símbolo vazio de significado? 

As paredes da sala que ficava no segundo andar do Grand Palais eram mais interessantes do que o que estava na passarela. 'Hmm, é isso o que eles chamam de passamanaria?'. O teto era fascinante. Até o chão tinha um certo charme - 'ooh, isso é assoalho?'.  Tudo isso era mais intrigrante do que o que acontecia no desfile, que bem antes do final já parecia um jogo de futebol que virou uma goleada. Lapidus foi massacrado pelo desafio de refazer uma marca. Tudo que restou foi o barulho das cigarras. Game over. 

O estilista Olivier Lapider investiu na logomarca da Lanvin como estampa

O estilista Olivier Lapider investiu na logomarca da Lanvin como estampa Foto: AP Photo/Francois Mori

Mas não foi sempre assim. Quando Elbaz entrou na grife, em 2011, ele construiu uma sensualidade poderosa e sofisticada. Sua visão era de que as consumidoras não eram mulheres perfeitas, mas sim que as imperfeições delas as faziam bonitas, que a sua confiança vinha da humanidade. 

Como uma moda ruim acontece? Às vezes é simples: uma boa ideia sendo mal executada. Ou um designer que não consegue deixar clara sua mensagem, e o resultado é confuso. Mas, nesse caso, não existe um ponto de vista claro. A nova Lanvin parece ter saído de uma reunião que ninguém queria participar em primeiro lugar. 

A Guy Laroche e seu novo estilista Richard René tiveram outros problemas, mas um resultado similar. René não criou uma coleção chata, mas foi uma afronta ao progresso que a moda vem fazendo ao respeitar a diversidade e a dignidade das mulheres. 

René foi contratado para reenergizar uma marca que estava acendendo e apagando por anos. Como essas coisas acontecem neste mundo, Elbaz fez um pit stop nesta grife também. Antes de chegar na Lanvin, ele deu a Guy Laroche um charme tranquilo. Ele a tornou encantadora. 

Agora, a Guy Laroche parece bastante bruta. Nos fundos da loja da grife na rua François 1er, modelos desfilaram usando uma coleção de vestidos pretos e brancos com grossos bordados de lantejoulas matte, saias assimétricas e jaquetas pálidas. 

As jovens foram estilizadas com cabelos bob platinados, com o único propósito de as homogenizar como clones. A única coisa pior do que a tentativa de limitar a identidade delas foi um maiô tão cavado que mostrou a metade de cima das nádegas de uma das meninas. 

O estilista Richard Rene também cirou um maiô muito revelador 

O estilista Richard Rene também cirou um maiô muito revelador  Foto: REUTERS/Gonzalo Fuentes

Estudantes de moda devem lembrar-se do burburinho causado por Alexander McQueen com suas calças de cintura baixissíma, que também mostravam essa parte do corpo. Ele argumentou que sua intenção foi alongar o torso. Talvez, René também estava pensando em fazer um exercício intelectual de proporções. Mas teria sido útil ter testado suas teorias em outras peças, não em uma que, por sua definição, é apenas um pouco mais do que um retalho de tecido. 

Ao invés disso, ele apostou nesse conceito questionável, colocando uma modelo na passarela com seu bumbum descoberto, sem que sua exposição enriquecesse o conceito da coleção. 

Como René errou tanto? Focando na moda como sua expressão pessoal ao invés da mulher que irá vesti-la. E em tentar chocar mais do que engajar. 

Sim, é difícil fazer boa moda. É duro prever o que estará em alta de uma temporada para outra. Mas, às vezes, parece que a parte mais desafiadora da moda para um estilista é lembra-se que uma mulher não é sua musa, seu problema ou sua embaixadora. Ela é sua cliente. 

O estilista Richard Rene também cirou um maiô muito revelador 

O estilista Richard Rene também cirou um maiô muito revelador  Foto: REUTERS/Gonzalo Fuentes