Moda autoral revigora desfiles da SPFW

Maria Rita Alonso e Marília Kodic - Especial para O Estado de S. Paulo

No último dia do evento, coleções fortalecem a identidade das marcas menos comerciais, dando novas versões aos mesmos códigos de estilo

Apartamento 03, Helo Rocha e Giuliana Romanno 

Apartamento 03, Helo Rocha e Giuliana Romanno  Foto: Agência Fotosite

Existe, sim, moda autoral no Brasil. Além das causas nobres e discursos pertinentes - que contemplaram diversidade, engajamento, inclusão e trabalho coletivo -, o que se viu de tangível na 44a edição da São Paulo Fashion Week, que chegou ao fim ontem, foram coleções verdadeiramente originais.

 Com uma sequência de 32 desfiles, a semana de moda brasileira expôs uma produção conectada com o que as pessoas querem vestir - e, mais importante, dizer por meio da roupa. E comprovou o que há tempos vem se dizendo no mundo da moda: conceitos como certo e errado definitivamente não têm mais vez. “Moda é oferta, e estilo é escolha. Hoje, a moda tem oferta para todo o mundo, para que o consumidor possa escolher aquilo que o represente”, sintetiza bem a consultora Glória Kalil.

Isso não quer dizer, no entanto, que não haja percalços no caminho de quem produz moda no Brasil. Pouco antes de seu desfile, Juliana Jabour, que se apresentou ontem, falou abertamente sobre alguns desses desafios. “Andei pulando algumas temporadas, porque um desfile custa supercaro, e eu dependo de patrocínio para viabilizá-lo”, contou a estilista, que há três anos vem fazendo apresentações de sua marca homônima na SPFW graças ao apoio da grife Lez a Lez, da qual é diretora criativa. 

“Algumas vezes, a gente precisou abrir mão de algumas coisas por motivos comerciais. É triste, mas é assim mesmo. Tem que fazer isso, tem que fazer aquilo, tem que vender... você se perde um pouco. Mas agora eu me reencontrei”, disse Juliana, que apresentou uma coleção pop e solar, unindo a estética náutica com modelagens volumosas, amplas e repletas de babados. Tudo com uma pegada bem urbana, característica forte de seu trabalho ao longo dos 20 anos de carreira.

Outra veterana do evento, Helo Rocha também fez um desfile com códigos pelos quais é reconhecida. Bordados, babados e uma leveza romântica e etérea em uma paleta de tons pastel tomou conta de sua passarela, inspirada em camisolas e lingeries vitorianas. “É uma atmosfera de sonho tropical, com técnicas de bordado inspirados na flora tropical. Fizemos um raio-x das plantas em cima da modelagem para um desenho abstrato”, diz ela, que considera o bordado a parte mais importante da coleção.

É comum para editores de moda apontarem o dedo para as falhas e as cópias que as marcas nacionais fazem das tendências internacionais. Faz parte do ofício de um crítico. Mas é preciso, também, reconhecer quando há um talento autêntico. É o caso de Luiz Cláudio Silva, estilista da marca Apartamento 03. Seu desfile, inspirado na arquiteta Lota de Macedo Soares, responsável pelo projeto do Parque do Flamengo nos anos 60, trouxe uma alfaiataria bem estruturada, que remetia às formas retas da arquitetura modernista carioca, enquanto os conjuntos brancos de laise traziam um trabalho rigoroso de bordado com vidrilhos. 

"Hoje, como as pessoas têm acesso a tudo de modo muito fácil, as tendências se desgastam rapidamente. Parece tudo muito igual. Não acho que esse seja o melhor caminho - o ideal é fugir disso", contou o estilista. "O que faço é criar para diferentes corpos e idades. É por isso que visto quase todas as mulheres - Karol Conká, Maria Rita, Renata Sorrah... crio pensando nas pessoas. É nisso que eu foco, e não no que está vendendo."