Mãe do Emicida fala sobre turbante: ‘Vamos discutir por que usamos, mas não criar um apartheid'

Gabriela Marçal - O Estado de S. Paulo

Jacira Roque Oliveira, a artista plástica que fez bordados para a coleção da LAB desfilada na SPFW, diz que é contra impedir que pessoas brancas vistam o acessório

Jacira é autora dos patchworks das peças mais conceituais que serão desfiladas hoje na LAB

Jacira é autora dos patchworks das peças mais conceituais que serão desfiladas hoje na LAB Foto: Amanda Perobelli/ Estadão

O uso do turbante por pessoas que não são negras é uma discussão latente da nossa sociedade. É, praticamente, impossível fugir da polêmica quando o assunto é moda, identidade cultural e representatividade. Foi o que aconteceu em entrevista do ‘Estadão’ com a artista plástica Jacira Roque Oliveira sobre os bordados que ela produziu para o desfile da LAB - marca criada por seus filhos, os músicos Emicida e Fióti, em parceria com o estilista João Pimenta - na São Paulo Fashion Week (SPFW).  

“Compreendo que o turbante tem uma história. Nosso turbante é uma reverência, uma resistência. Com ele, nos sentimos aceitas e seguras para discutir nossos assuntos. Isso é maravilhoso. Vamos discutir por que nós usamos turbante, mas não vamos criar um apartheid para que as outras pessoas não possam usar, porque sempre usaram”, defende Jacira.

Segundo o relato da artista, essa postura separatista criaria uma divisão em sua própria família. “Todas as mulheres do meu tempo usavam pano na cabeça; minha vó usava, minhas bisavós usavam, e elas eram loiras, não negras. Eu tenho parte da minha família que é branca e eu não posso matar essa parte”, diz.

Jacira usou turbante quando participou do clipe 'Mãe', do seu filho rapper Emicida

Jacira usou turbante quando participou do clipe 'Mãe', do seu filho rapper Emicida Foto: https://www.youtube.com/watch?v=D_-j32_Ryc0

Além dos antepassados, a família de Jacira também tem brancos nas gerações atuais e eles se identificam com símbolos da cultura africana. Ela se mostra inconformada ao pensar em censurá-los por isso: “Minha neta mais velha, Maria, é branquinha e põe trança, tira trança, usa turbante. Como é que não vai poder? É minha neta!”.

Um dos temas mais presentes nos trabalhos de Jacira hoje é a diáspora africana, mas nem sempre a temática foi valorizada por ela. “Antigamente, eu achava feio turbante e não usava. Passei a usar quando comecei a fazer parte dos movimentos de resistência. E eu vi que, realmente, o rosto da gente fica lindo: eu sou negra! Iansã usa, Iemanjá usa. A outra pessoa também pode usar. Eu não posso falar que isso é da minha etnia, então só eu posso usar. Nós vamos ter que dividir, gente! O mundo é de todo mundo! Eu não pertenço a esse grupo que quer dividir e redividir. Na nossa luta, quanto mais gente melhor. De certas coisas as pessoas brancas não podem falar, mas de ser mulher elas podem.”

Jacira mantém sua opinião inclusiva ao falar sobre Thauane Cordeiro, a jovem que usou turbante durante o tratamento de câncer. “Quando a pessoa está com câncer não é hora dessa discussão. Se você não vai ajudar, não se mete”, afirma incisivamente.    

Assista ao clipe 'Mãe', do rapper Emicida, que conta com a participação de Jacira: