Indústria cosmética busca novos ingredientes para a pele sensível

Courtney Rubin - The New York

Proteína hidrolisada de ovas de salmão, óleo de copaíba amazônico e tipo de chá branco raro colhido na China estão entre as soluções de empresas como Restorsea e Chanel

Indústria cosmética busca novos ingredientes para a pele sensível 

Indústria cosmética busca novos ingredientes para a pele sensível  Foto: Reprodução/ NYTimes/ Betsy Everitt

Quando a ilustradora Kim Moffitt usa a maioria dos cremes para a área dos olhos, eles pinicam. Quando tenta usar protetor solar e hidratante, fica empipocada. Esfoliantes tradicionais com enzimas de frutas ou ácido glicólico fazem sua pele parecer que foi lixada.

"Quando tentei depilar a sobrancelha com cera, parecia que tinha me queimado", conta ela, que vive na cidade americana de Portland, no estado do Oregon. Kim tem pele sensível e acha difícil encontrar produtos que possa usar.

Recentemente, porém, a busca ficou mais fácil: empresas grandes e pequenas estão na corrida para atender o número cada vez maior de adultos com pele sensível. Aproximadamente um quarto dos produtos lançados em 2014 e 2015 tinha essa função, de acordo com a empresa de pesquisa de mercado Mintel.

A pele sensível, assim como a complicada intolerância a certos alimentos, está na moda. Já para aqueles que têm o problema de fato, a coisa é bem séria. "As pessoas querem se sentir especiais", diz Zoe Diana Draelos, dermatologista e fundadora da Dermatology Consulting Services, empresa que trabalha em associação com a indústria de cosméticos e que testa dezenas de produtos.

Para fazer a seleção entre os voluntários em potencial, todos dizendo ter pele sensível, ela aplica água na pele do sulco nasolabial (também conhecido como linha do sorriso) de um lado e ácido láctico de outro, perguntando se alguma coisa está pinicando. Apenas metade das pessoas identifica corretamente, ou seja, elas realmente têm o que os cientistas chamam de "elevada consciência neurossensorial".

Para fazer produtos adequados para a pele reativa, muitas empresas apenas misturam à fórmula substâncias calmantes como alantoína anti-inflamatória (um extrato de confrei) ou bisabolol (extrato de camomila) e assunto encerrado. "Esses ingredientes podem ajudar, mas tudo depende do que mais existe na formulação", explica Zoe.

Outras empresas gastam milhões de dólares em novos ingredientes. A linha Restorsea, por exemplo, é baseada no derivado de uma enzima liberada pelo salmão no nascimento para romper as ovas. 

A fundadora da empresa, Patti Pao, que sofre de pele sensível, pagou US$ 25 milhões para ter direitos exclusivos sobre a proteína hidrolisada de ovas de salmão por 20 anos, ingrediente que descobriu na Noruega quando insistiu em visitar um centro de incubação. 

Patti, que já trabalhou na área de gerenciamento de produtos na Avon e na Guerlain, imediatamente notou como as mãos dos trabalhadores eram macias e sem manchas se comparadas com a pele de seus rostos, sempre expostos às intempéries, e começou a investigar.

Segundo ela, a enzima pode fazer a esfoliação sem causar vermelhidão, comichão ou descamação porque, ao contrário dos esfoliantes tradicionais, afeta somente as células mortas da pele e para de funcionar quando encontra tecido vivo.

 "A própria enzima está viva e trabalha constantemente descamando a pele morta", afirma Patti. Como ela, Amy Wechsler, dermatologista de Manhattan, tem pele reativa – ela chega a viajar com seu próprio sabonete. 

Quando o departamento de cuidados com a pele da Chanel a contratou como consultora há cinco anos, timidamente abordou o assunto de um produto sem fragrância, o que poderia ser uma grande fonte de irritação, considerando que a maison faz alguns dos perfumes mais conhecidos do mundo.

Em vez disso, a Chanel passou quatro anos testando 117 formulações de seu creme para pele sensível La Solution 10, sem fragrância, que foi lançado no fim do ano passado. Ele inclui chá branco Silver Needle, especialmente rico em antioxidantes e que só é colhido durante uma semana por ano na província de Fujian, na China.

"Se alguém no nosso teste aparecesse como uma simples espinhazinha, começávamos tudo de novo", lembra Amy.

Uma terceira empresa, a Pai, de Londres, também tem uma desenvolvedora de produto com a pele sensível: a fundadora, Sarah Brown. 

Ao longo dos anos, Sarah gastou milhares de dólares em cremes hipoalergênicos e naturais para tratar a pele, sem sucesso. "Eu me sentia enganada", diz sobre as promessas feitas pela maioria. 

Sua empresa, que só produz produtos para a pele sensível, tem certificação orgânica conferida pela organização britânica sem fins lucrativos Soil Association. A Pai batalhou por vários anos para formular seu Perfect Balance Blemish Serum, lançado no ano passado.

O complicador foi que o ácido salicílico e a maioria das outras substâncias contra espinhas são ásperas e secas e Sarah queria um produto sem álcool (que danifica a pele, mas é extremamente importante para produtos de cuidados da beleza graças à sua capacidade de manter as fórmulas estáveis e mais leves).

Depois de rejeitar dezenas de ingredientes à base de plantas, pois estes sempre são preservados em álcool, ela encontrou o óleo essencial de copaíba – tirado de uma resina de árvores da floresta amazônica, através do mesmo processo do xarope de bordo – que tem moléculas que combatem infecção e inflamação. Um estudo financiado pela empresa mostrou uma redução "estatisticamente significativa" de espinhas ao longo de um período de quase dois meses.

Você não tem que acreditar no estudo. Graças a seu histórico de consumidora frustrada, Sarah aceita a devolução dos produtos dentro de 30 dias, independentemente de quanto tenham sido usados.

"Não quero ser dramática, mas você se sente completamente impotente quando precisa continuar comprando mais produtos para experimentar. É libertador recuperar pelo menos um pouco do controle", afirma ela.