Grifes europeias buscam sucessores dentro das próprias equipes

Matthew Schneier - O Estado de S.Paulo

Com a saída de grandes estilistas e o sucesso do novato Alessandro Michele na Gucci, uma nova geração de designers tem a chance de assumir postos de comando 

 Último desfile da Balenciaga em Paris, o último de Alexander Wang para a grife

 Último desfile da Balenciaga em Paris, o último de Alexander Wang para a grife Foto: Landon Nordeman/The New York Times

Em janeiro, quando foi nomeado diretor de criação da Gucci, Alessandro Michele era pouco conhecido entre os jornalistas que cobrem moda e as equipes de compras - o que dirá do restante do mundo. Depois de anos trabalhando discretamente nos bastidores da grife, ele tornou-se o sucessor da ex-chefe, Frida Giannini, quando ela deixou a empresa. Na época, pouca gente  havia ouvido falar no nome dele. Uma grande diferença em relação a hoje, poucos meses depois: Michele se tornou o homem mais celebrado de Milão e a renovada loja da Gucci, na Via Montenapoleone, vive lotada de clientes, incluindo editores de várias revistas e executivos de marcas concorrentes.

A ascensão de Michele a partir dos bastidores indica um modelo estratégico para as nomeações para os cargos mais importantes, e quem dá as cartas na indústria fashion mostra-se cada vez mais firme na tarefa de identificar e contratar a próxima geração de profissionais talentosos dentro de suas próprias companhias.  “Há em nossa indústria um apetite e um desejo de ser relevante, para a próxima geração e a seguinte, sempre”, diz Karen Harvey, diretora executiva do Karen Harvey Consulting Group, consultoria de recrutamento de executivos que levou Stuart Vevers à Coach e Danielle Sherman à Edun. “Se tivesse que apontar uma tendência, seria alcançar a tão almejada relevância sem perder o DNA. Isso significa que ouvimos com frequência a pergunta: ‘Nossa, quem é o número 2?’."

A pergunta envolvendo a sucessão é de grande importância para muitas grandes marcas - e não apenas para aquelas cujos líderes já somam certa idade (Karl Lagerfeld, da Chanel e da Fendi, já passou dos 80; Giorgio Armani está com 81). Mesmo entre os jovens estilistas, reviravoltas na estrutura de comando são uma ocorrência regular. Está vago, por exemplo, o posto de diretor criativo da Balenciaga, deixado por Alexander Wang na última temporada. E, mais recentemente, Raf Simons e Alber Elbaz surpreenderam o mundo da moda ao anunciar que estavam saindo da Dior e da Lanvin, respectivamente. 

Muito se especula sobre as possíveis substituições aos três. Mas enquanto os rumores e a cobertura da mídia tendem a se concentrar nos nomes já conhecidos, o grande sucesso de Michele na Gucci indica que um nome reconhecido e legiões de fãs prontos para a adoração não são fatores determinantes para os feitos futuros. Dentro das fileiras das maiores marcas da moda há estilistas cujo trabalho pode vender milhões de dólares em roupas ou acessórios, cujos nomes jamais chegam ao conhecimento do público. Diz-se que a Balenciaga está pensando em candidatos com alguma experiência na casa, seja presente ou anterior. 

Um interesse especial é dedicado aos diretores de design cujo trabalho é supervisionar as pré-coleções, linhas que não costumam ser mostradas na passarela durante as principais semanas da moda, mas que, apesar do perfil mais discreto, podem ter um impacto desproporcional no varejo: as lojas investem até 70% do seu orçamento de temporada nas pré-coleções (vale lembrar que Peter Copping, hoje na Oscar de la Renta, e Julie de Libran, da Sonia Rykiel, foram apresentados ao público pela primeira vez quando receberam permissão para apresentar as pré-coleções que tinham supervisionado para a Louis Vuitton durante o período em que Marc Jacobs era diretor artístico).

‘'Com frequência, a pré-coleção é o sucesso da marca”, afirma Mary Gallagher,sócia europeia da Martens & Heads, empresa de recrutamento de executivos para as indústrias da moda e do varejo.  “Por isso, há interesse em saber quem é o talento responsável por ela.” Embora os grupos LVMH e Kering tenham investido recentemente em estilistas que já têm um perfil condizente com os cargos de maior responsabilidade - Jonathan Anderson para a Loewe, Maxwell Osborne e Dao-Yi Chow da Public School para a DKNY e Wang para a Balenciaga -, tais profissionais trazem a bagagem de suas próprias coleções independentes. 

O trabalho de Wang em sua marca homônima, baseada em Nova York, pressionou as equipes da Balenciaga a adaptar a rotina aos demais compromissos dele. Wang não alugou um apartamento em Paris, preferindo os hotéis, e não fala francês. Já Anderson divide seu tempo entre Londres e o estúdio da Loewe, em Paris, e continua a administrar coleções simultâneas em diferentes países. Porém, a tolerância das empresas diante dessa necessidade de dividir as atenções tende a diminuir. “Do ponto de vista intelectual, é possível”, diz Floriane de Saint Pierre, cuja consultoria de recrutamento de executivos, Floriane de Saint Pierre & Associés, é conselheira do Kering Group. "Mas acho que a pressão agora é grande, pois o ritmo ficou muito acelerado. É provável que a prática se torne mais e mais difícil”.

Nenhum dos recrutadores de executivos entrevistados disse que dispensaria um candidato que tivesse uma coleção própria à mão e há poucas regras inquebráveis no que consiste um candidato interessante, incluindo experiência anterior (ou falta desta). Para os especialistas, um currículo longo fica em desvantagem se comparado ao entendimento do zeitgeist, o espírito do tempo. "E, para isso, não há regras, felizmente e infelizmente”, afirma Floriane, que integrou a equipe que recomendou Michele, com experiência específica nos acessórios Gucci, para o cargo de diretor de criação da linha pret-a-porter.

Pierpaolo Piccioli e Maria Grazia Chiuri também eram desconhecidos estilistas de acessórios antes de serem nomeados diretores de criação da Valentino, supervisionando as linhas pert-a-porter e haute couture além das bolsas, sapatos e artigos de couro.E as habilidades necessárias para a direção de criação não se limitam aos desenhos. “Os melhores líderes têm responsabilidades que vão muito além do design das coleções”, acredita Robyn Soto, consultora do departamento de varejo e consumo de luxo da Russel Reynolds Associates. “As marcas não vendem apenas com base na qualidade de suas coleções. Elas têm que se preocupar com muito mais do que o público supõe.”

As responsabilidades da gestão de marca numa era digital de rápidas mudanças - habilidades que não foram necessariamente trabalhadas nas faculdades de moda há 20 ou 30 anos - aumentaram o valor da juventude e da qualidade de sentir-se à vontade no espaço digital. “Sempre existe aquele apetite ou desejo por um talento em profundidade aliado à relevância para o momento”, afirma Karen Harvey. “Não acredito que tenha necessariamente a ver com a geração do milênio. A mim parece que a próxima geração de estilistas será composta por nativos digitais. Pensarão mais naturalmente nesses aspectos. É por isso que há tantas marcas pensando: ‘O que virá agora? O que virá a seguir?’”

Tradução de Augusto Calil