Eu me recuso a postar uma única foto de meu bebê no Facebook

Emily Kaye Lazzaro - O Estado de S.Paulo

A primeira vez de meu bebê na praia e sem nenhum registro disso! Seria indiferença minha não ter documentado aquela felicidade fugaz?

Em meu feed de notícias no Facebook, é comum pais de primeira viagem postarem fotos de seus bebês como um anúncio de nascimento moderno. Eu adoro estas postagens. Adoro receber atualizações sobre como o bebê e a mãe estão passando, e adoro fotos fofinhas porque sou um ser humano com um coração batendo em meu peito. Mas eis uma má notícia para meus amigos do Facebook: não postarei fotos de meu bebê no Facebook.

Ponto contra: é menos fácil as pessoas verem como meu bebê é fofinho

Ponto contra: é menos fácil as pessoas verem como meu bebê é fofinho Foto: Danny Cain/Creative Commons

Há prós e contras nesta atitude.

Pró: a satisfação da privacidade

Sempre me pareceu que as pessoas que realmente valorizam sua privacidade são muito importantes e também têm uma quantidade enorme de autocontrole. Como as celebridades realmente na sua. Ou pessoas que nem têm Facebook. Bem que eu gostaria de ser uma dessas pessoas!

Mas, em vez disso, eu periodicamente finjo que não tenho Facebook, me sinto ótima por uma semana e aí me entrego como naquela cena no filme. Voo e me refestelo no meu feed de noticias por algumas horas. Não sou importante, e estou constantemente compartilhando demais. Quase postei fotos de bebê algumas vezes, mas a coisa que me impediu, mais do que a insistência do meu marido e meu próprio medo de sua imagem ser usada impropriamente, foi a deliciosa autossatisfação que sinto. Acho que Buster disse isto melhor: Ela se compraz em ser retraída.

Contra: de que vale se sentir satisfeita se as pessoas nem sabem como ele é fofinho?

Beyoncé provavelmente se sente ótima sobre pessoas que não veem fotos de Blue Ivy porque todo o mundo sabe de Blue Ivy. Se ninguém sabe nada sobre meu bebê, não há por que elas ficaram impressionadas por eu não ter postado fotos dele.

Isso me faz lembrar de quando entrei na universidade. Enviei uma porção de e-mails a meus colegas próximos do secundário, detalhando todos os novos amigos que estava fazendo e as experiências que estava tendo. Fui obsessiva sobre comunicar as minúcias de minha experiência universitária porque sentia que se os meus velhos amigos não tivessem conhecimento dela, ela não existiria. Agora isto é verdade numa escala muito maior. Se uma árvore cai na floresta e ninguém está lá para colocar o fato no Instagram, será que ele realmente aconteceu?

Eu também me sinto assim sobre pores de sol e, às vezes, quando meu cachorro e meu gato se aconchegam e coisas que eu preparo na cozinha. Evidentemente, pores de sol e aconchegos de animais e coisas assadas existem, mas todas essas coisas, como este momento da vida de meu bebê, são efêmeras. Não será por isso que fotografamos coisas desde que a câmera foi inventada? Para reter momentos enquanto eles escoam por entre nossos dedos?

Um alcance e tanto. Talvez seja apenas que eu queira compartilhar os momentos legais com minha rede porque não há tantos momentos legais, especialmente na maternidade. Ou talvez seja porque sou extremamente egocêntrica e meu bebê é apenas uma extensão minha. Quem sabe?

Pró: Ninguém da internet se apropriará de fotos de meu precioso bebê para me fazer parecer uma idiota

Esta é uma questão real e pessoal para mim, já que cometi o grave erro de ser uma blogueira e escrever sobre gravidez e dinheiro. Ocorre que muitas pessoas não gostam do que tenho para dizer. E algumas decidiram ilustrar sua aversão roubando fotos minhas e escrevendo coisas não muito bonitas.

Aliás, um tabloide encontrou um texto que escrevi e decidiu escrever algo sobre mim. Para ilustrá-lo, eles usaram fotos minhas do Facebook, de meu marido, e meu cachorro (tirada da conta de meu marido). Eu estava usando um chapéu bizarro em uma delas. Em outra, estou fazendo uma careta e coçando a barriga do meu cachorro.

Usar imagens minhas e de meu marido já é suficientemente ruim, mas minha beagle? Isso é uma baixaria. Ela já tem problemas emocionais, não precisa de mais este. Agora, as postagens privadas de meu marido eram muito fracas, e nos corrigimos isso depois do incidente, mas a situação toda me chateou um bocado. Portanto, não postar fotos de meu bebê no Facebook significa que nenhum estranho da internet poderá usar sua imagem contra mim. Este é o mundo em que vivemos.

Contra: é menos fácil as pessoas verem como meu bebê é fofinho

Ele é muito fofo! Mas ninguém sabe. Recusar-me a postar fotos dele na internet significa que estou dispensando dezenas de curtidas e comentários e as levas de validação e satisfação que vim a esperar de grandes momentos da vida.

Não é nem mesmo que meus amigos íntimos não podem vê-lo, pois eu ainda me permito enviar fotos a amigos íntimos e familiares. São os conhecimentos periféricos, as pessoas de quem fui colega nos secundário, os rapazes pelos quais tive um fraco na universidade. Eles são minha verdadeira preocupação. Eles jamais verão como meu bebê é fofo, e com isso jamais saberão como estou indo bem e como estou feliz. Conseguirei viver com isso?

Evidentemente, isso toca na questão de cultivar nossas personas online, só revelando as coisas boas e ocultando as mazelas cotidianas. Mas seja o que for, quando outras pessoas postam fotos de bebês sorrindo isso me faz querer postá-las também. Esqueça o fato de que ainda estou com 16 quilos acima do peso, isso não faz parte de minha imagem. Minha marca pessoal não inclui a revelação que tive na noite passada de que o maior desafio da maternidade recente é não assassinar o próprio bebê quando ele não para de chorar. O Facebook é para momentos felizes. Enfeites fofos, primeiros sorrisos e aqueles braços roliços com as tiras de borracha no pulso. Se não posto fotos fofinhas do meu bebê no Facebook, isso significa que preciso confiar em mim para impressionar. Preciso ter boa aparência e realizar coisas em minha carreira e isso é difícil. No mínimo, terei de fazer piadas em minhas atualizações de perfil, sem fotos para reforçar. Como se já não tivesse o suficiente em curso.

Pró: Há outras maneiras

A noite em que meu filho nasceu, meu marido, atordoado pela falta de sono, passou horas procurando um aplicativo que pudéssemos usar para compartilhar fotos do bebê com familiares e amigos. Usamos o 23snaps: ele não permite que outros usuários copiem suas fotos ou as usem em outras plataformas. E quase parece que nos libertamos dos grilhões do Facebook, ao menos um tiquinho. E não parece tanto que estamos enfiando fotos de bebê pelas goelas das pessoas e mais que estamos compartilhando com pessoas que realmente se importam, o que é legal.

Vejam, eu certamente não estou dizendo como cada pai ou mãe recente deve se comportar. Nem mesmo tenho certeza de quanto tempo eu durarei. Se isto os deixar felizes, postem fotos de seus garotos sempre que isso lhes agradar. Esta é a América. Mas uma coisa eu digo. Dois dias atrás, levamos nosso filho de sete semanas à praia pela primeira vez. Soltamos nosso cachorro da coleira e meu marido carregou o bebê acomodado no seu peito. Nós sentimos o cheiro do oceano e da areia embaixo de nossos pés e nos esquecemos de tirar fotos. O que inicialmente me causou um pequeno pânico. A primeira vez de meu bebê na praia e sem nenhum registro disso! Seria indiferença minha não ter documentado aquela felicidade fugaz? Mas talvez parte de ser uma mãe e do crescimento que vem com isso seja a capacidade de apenas gozar de um momento de paz e felicidade com minha família, mesmo que a internet não saiba disso.

Tradução de Celso Paciornik