Escolha ser grato. Isso fará você mais feliz

Arthur C. Brooks - O Estado de S.Paulo

É relativamente fácil ser grato pelas coisas mais importantes e óbvias da vida. Mas, pessoas realmente felizes encontram formas de agradecer por coisas pequenas e insignificantes

'Faça da gratidão uma rotina, independentemente de como você se sente, e não apenas no fim do ano, mas durante o ano todo'

'Faça da gratidão uma rotina, independentemente de como você se sente, e não apenas no fim do ano, mas durante o ano todo' Foto: Carson Elis/ NYT

Vinte e quatro anos atrás neste mês, minha mulher e eu nos casamos em Barcelona, na Espanha. Duas semanas após nosso casamento, cheio de idealismo internacional, eu tive a brilhante ideia de compartilhar um pouco da cultura norte-americana com meus sogros espanhóis e decidi fazer um jantar de Ação de Graças.

Foi mais fácil falar do que fazer. Perus não são uma ave comum em Barcelona. O açougue local teve de pedir a ave de uma fazenda especial na França e ela chegou apenas parcialmente depenada. Nosso minúsculo forno era muito pequeno para o peru. Ninguém havia ouvido falar em Cranberries. 

No que diz respeito ao jantar, minha nova família tinha muitas perguntas. Algumas eram de natureza prática como "o que este animal come para estar tão cheio de pão?". Mas outras eram filosóficas: "você deve celebrar este feriado mesmo se não se sentir grato?"

Eu tropecei na última questão. Naquela época, eu acreditava que uma pessoa deveria sentir-se grata para agradecer. Fazer outra coisa parecia de alguma forma desonesto ou falso, um tipo de insinceridade burguesa e melosa que deveria ser rejeitada. É melhor ser emocionalmente autêntico, certo? Errado. 

Construir o melhor da vida não exige fidelidade a sentimentos em nome da autenticidade, mas sim rebelar-se contra impulsos negativos e agir da forma correta mesmo quando não dá vontade. Em poucas palavras, agir com gratidão pode realmente fazer de você uma pessoa grata.

Para muitas pessoas, a gratidão é difícil, porque a vida é difícil. Além da privação e da depressão, há muitas circunstâncias normais nas quais a gratidão não vem facilmente. Esta afirmação vai extrair um riso desconfiado de leitores para quem jantares de Ação de Graças são geralmente arruinados por um tio bêbado que sempre precisa compartilhar suas opiniões políticas. Obrigado por nada.

Além dessas circunstâncias extremas, algumas pessoas são simplesmente mais gratas do que outras. Um artigo de 2014 publicado na revista Social Congnitive and Affective Neuroscience identificou uma variação do gene (CD38) associado à gratidão. Algumas pessoas simplesmente herdaram uma tendência genética para a experiência de gratidão, ou, nas palavras dos pesquisadores, "satisfação global com relacionamentos, capacidade de resposta e emoções positivas (particularmente, amor)".

É isso, aquelas pessoas extremamente positivas que você conhece e que parecem ser gratas o tempo todo podem ser simplesmente mutantes.

Mas nós somos mais do que escravos de nossos sentimentos, circunstâncias e genes. Evidências sugerem que podemos escolher ativamente praticar a gratidão e que, ao fazermos isso, aumentar nossa felicidade.

Isso não é apenas bobagem de autoajuda. Pesquisadores de um estudo de 2003 escolheram aleatoriamente um grupo para fazer uma pequenas lista semanal de coisas pelas quais essas pessoas eram gratas, enquanto outros grupos listaram aborrecimentos ou eventos neutros. Então, dez semanas depois, o primeiro grupo demonstrou maior satisfação com a vida do que os demais. Outros estudos mostraram o mesmo padrão e levaram à mesma conclusão. Se você quer um feriado realmente feliz, escolha manter o "agradecimento" de Ação de Graças, independentemente de sentir-se ou não grato.

Como isso tudo funciona? Um explicação é que, agir de forma feliz, independentemente de seus sentimentos, condiciona o cérebro a processar emoções positivas. Num famoso experimento de 1993, pesquisadores pediram a pessoas que sorrissem de forma forçada por 20 segundos enquanto tensionavam seus músculos faciais, notadamente os músculos ao redor dos olhos, chamados deorbicularis oculi (que criam os "pés de galinha"). Eles descobriram que esta ação estimula a atividade cerebral associada a emoções positivas. 

Se dar um largo sorriso por um período longo e inconfortável como um maluco não é com você, tente então expressar gratidão. Segundo uma pesquisa publicada na revista Cerebral Cortex, a gratidão estimula o hipotálamo (uma importante parte do cérebro, que regula o estresse) e a área ventral tegmental (parte do nosso "circuito de recompensa", que produz a sensação de prazer).

É ciência, mas também é bom senso. Escolher se concentrar em coisas boas faz você se sentir melhor do que quando se concentra em coisas ruins. Como muitos adolescentes diriam, "obrigado, capitão óbvio". 

Numa linguagem um pouco mais elegante, o filósofo estoico Epiteto disse "ele é um homem de bom senso que não se aflige pelo que não tem, mas se regozija pelo que tem".

Além de criarmos nossa própria felicidade, escolher a gratidão pode também extrair o melhor dos que estão à nossa volta. Pesquisadores da Universidade do Sul da Califórnia mostraram isso em um estudo de 2001 com pessoas com muito poder mas baixa segurança emocional (pense no pior chefe que você já teve). 

A pesquisa demonstrou que quando sua competência foi questionada, os participantes tendiam a revidar com agressões e difamações pessoais. Quando gratidão era demonstrada, porém, elas reduziam o comportamento negativo. Esta é a melhor forma de desarmar um interlocutor irritado: um caloroso "obrigado".

Eu aprendi essa lição dez anos atrás. Na época, eu era um cientista social acadêmico labutando na obscuridade profissional, escrevendo artigos técnicos e livros que seriam lidos por umas poucas dezenas de pessoas, quando muito. Logo após garantir meu emprego, porém, eu publiquei um livro sobre doações de caridade que, para minha profunda surpresa, conquistou o público. Do dia para a noite eu comecei a receber comentários de pessoas que eram absolutamente estranhas para mim, pessoas que haviam me visto na televisão ou me ouvido no rádio.

Uma tarde, eu recebi um e-mail. "Querido professor Brooks", começava o texto. "Você é uma fraude". O conteúdo parecida pouco promissor, mas eu o li mesmo assim. Meu remetente apresentou, com detalhes brutais, uma argumentação contra cada capítulo do meu livro. Enquanto eu lia o longo e-mail, porém, meu pensamento dominante não era de ressentimento, mas sim "ele leu o meu livro!". E assim, eu escrevi de volta, refutando alguns de seus argumentos, mas principalmente expressando gratidão por seu tempo e atenção. Eu me senti bem escrevendo a mensagem e ele quase imediatamente respondeu de volta com um tom caloroso e amigável.

Mas expressar gratidão tem alguma desvantagem? Na verdade, pode ter. Há algumas pesquisas que sugerem que a atitude pode deixar você gordo. Um novo estudo no Journal of Consumer Psychology mostra evidências de que as pessoas começam a desejar doces quando se pede a elas que expressem gratidão. Se a descoberta se mostrar verdadeira, poderemos chamá-la de Paradoxo da Torta de Abóbora.

Apesar dos custos ao seu peso, a prescrição para todos nós é clara: faça da gratidão uma rotina, independentemente de como você se sente, e não apenas no fim do ano, mas durante o ano todo.

Há estratégias concretas que cada um de nós pode adotar. Primeiro, comece com "gratidão interior", a prática de agradecer privadamente. Como tenho um emprego que envolve fazer discursos frequentes - não apenas para audiências amigáveis - tentei adotar um mantra de trabalho que é ser grato pelas pessoas que vieram me ver.

A seguir, vá para a "gratidão exterior", que se concentra na expressão em público. O psicólogo Martin Seligman, pai da "psicologia positiva", dá algumas sugestões práticas sobre como fazer isso. No seu best seller "Felicidade Autêntica", ele recomenda que os leitores expressem sistematicamente gratidão em cartas para pessoas amadas e colegas. Uma forma disciplinada de colocar isso em prática é fazer da ação uma rotina, como o café tomado pela manhã. Escreva dois e-mails breves a cada manhã para amigos, familiares ou colegas, agradecendo-os pelo que fazem. 

Finalmente, seja grato por coisas inúteis. É relativamente fácil ser grato pelas coisas mais importantes e óbvias da vida, um casamento feliz, filhos saudáveis ou por viver no seu país. Mas, pessoas realmente felizes encontram formas de agradecer por coisas pequenas e insignificantes.

 

Considere a alegria impraticável no poema de Gerard Manley Hopkins, "Pied Beauty".

"Glória a Deus pelas coisas manchadas,

pelos céus de cores combinadas como vacas malhadas,

pelas manchas rosadas pintalgando trutas que nadam,

pelas castanhas caídas cor-de-brasa, pelas asas do tentilhão,

pela terra toda quadriculada - em pasto, em pousio ou depois de arada -,

e todos os ofícios, suas engrenagens e roldanas e ornamentos."

Seja honesto. Quando foi a última vez que você foi grato pelas pintas de uma truta? Mais seriamente, pense a respeito das pequenas e inúteis coisas que acontecem, o cheiro do outono no ar, um pedaço de uma música que lembra de quando você era criança. Agradeça.

Neste fim de ano, não expresse gratidão apenas quando sentir vontade. Agradeça especialmente quando não tiver vontade. Rebele-se contra a "autenticidade" emocional que contém sua felicidade. No meu caso, estou usando meus próprios conselhos e atualizando minha lista de gratidão. Ela inclui minha família, fé, amigos e trabalho. Mas também a tez manchada do meu pássaro, alimentado com pão. E inclui você, por ler este artigo. 

Tradução de Priscila Arone