Educação do bebê: pais devem respeitar identidade do filho

Marcela Lima - O Estado de S.Paulo

Segundo especialista, nova mãe deve adaptar conselhos de outras mães e de médicos à sua rotina e à do bebê

Muitas são as dicas de amigos e familiares sobre como educar um bebê de 0 a 12 meses, mas a nova mãe deve considerar os conselhos de médicos e especialistas. “Ao generalizar situações, você pode negligenciar casos de desespero da criança. É importante respeitar a identidade dela”, alerta Ricardo Monezi, psicobiólogo e pesquisador do Instituto de Medicina Comportamental da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O especialista aconselha às mulheres ter consciência de que as habilidades maternas se iniciam na gravidez e são aprimoradas durante o convívio com a criança.

A partir dos 8 meses, a criança tem muita energia para gastar, e a indicação é levar o pequeno para fora do ambiente do condomínio, do apartamento ou da casa

A partir dos 8 meses, a criança tem muita energia para gastar, e a indicação é levar o pequeno para fora do ambiente do condomínio, do apartamento ou da casa Foto: Reuters

O contato entre mãe e filho se desenvolve no decorrer dos meses. E, com ele, habilidades como a de identificar diferentes tipos de choro e o significado das expressões corporais e faciais do bebê – as únicas formas dele se comunicar com o mundo.

Diante do desafio de entender os tipos de choro do bebê e da agonia de ver o filho sofrendo de alguma forma, o ideal é que é a mãe não se desespere. Nesse momento em que ela passa por mudanças psicológicas, sociais e fisiológicas, é importante respirar fundo e entender que se trata de um período de adaptação.

“Às vezes é extremamente importante conversar com quem já passou por isso. Mas, se a mãe está se sentindo sufocada, estressada, com episódios de choro e desespero, é recomendado que busque a ajuda de um profissional [psicólogo ou terapeuta]”, afirma o psicobiólogo, dedicado à pesquisa experimental da base biológica dos processos mentais.

Para Monezi, a mulher deve fazer o que achar confortável para ela e para a criança, adaptar recomendações de outras mães e de médicos à sua rotina e à do bebê. Além disso, é aconselhado que o parceiro – caso exista – tenha participação ativa no dia a dia do pequeno, dividindo as tarefas com a companheira. “A mãe não tem a obrigação de cuidar do filho sozinha. É importante que compartilhe suas habilidades e aflições com alguém. Nesse ponto, o diálogo com a família é fundamental”, diz.

Rotina do bebê

Mas, afinal, pegar o bebê no berço sempre que chorar faz com que a criança fique mimada? Amamentar toda vez que ela desejar também? A pediatra Maria Amparo Martinez Descalzo, do Hospital Santa Catarina, afirma que não há uma regra sobre essas situações e que “o correto é o que vai deixar a família em equilíbrio”.

Segundo a especialista, até completar 3 meses de vida, a criança chora quando está desconfortável ou incomodada com algo. Por isso, é importante que os pais atendam sempre que o bebê se manifestar. “Principalmente se são ‘marinheiros’ de primeira viagem, eles têm de sentir a criança e entender as necessidades dela”, diz.

Para criar uma rotina que contemple as necessidades do filho, da mãe e do pai, é indicado procurar um pediatra. A dica é escolher um profissional que ofereça atendimento mais humanizado, com tempo de ouvir e compreender os pais. A partir desse acompanhamento, o médico entende a fisiologia do bebê e estabelece horários de sono e alimentação, a fim de respeitar o relógio biológico do pequeno. É importante fixar tais hábitos desde o nascimento, mas com certa flexibilidade no primeiro trimestre.

A partir dos 4 meses, no entanto, os pais já têm visão crítica e, em geral, sabem identificar quando o filho faz algum tipo de manha. Nessa situação, a pediatra acredita que o bom senso é o melhor aliado. Os horários têm de ser respeitados e se deve evitar atender aos pedidos da criança durante a madrugada, a fim de não criar maus hábitos. No entanto, quando os pais acabam de chegar do trabalho e a criança acorda, por exemplo, não deve haver rigor com a rotina. Dar colo e brincar é uma forma de carinho, saudável para o crescimento, exemplifica Maria Amparo.

Monezi reitera que a disponibilidade da mãe deve ser levada em conta na educação do bebê. Segundo ele, não há mal algum em ficar com a criança no colo, pois isso fortalece os laços maternos. Mas, se a mãe trabalha e tem de voltar ao emprego após o fim da licença maternidade, o pequeno, acostumado ao calor dos braços da mãe, pode ficar angustiado por não estar mais com ela em todos os momentos. “É muito importante que a mãe tenha um diálogo muito aberto com o pediatra e que confie nele, mas também é necessário que ela dê ouvidos aos próprios instintos”, aconselha.

Na fase mais interativa e cheia de energia, que geralmente se dá dos 8 meses em diante, o conselho é o mesmo, mas a rotina já deve ter sido implantada. Neste período, a criança tem muita energia para gastar, e a indicação é que os pais levem o pequeno para fora do ambiente do condomínio, do apartamento ou da casa, mesmo que seja para dar uma volta no quarteirão. Segundo a pediatra, é importante que haja interação com a sociedade e convivência com o que está em movimento. Assim, o filho gasta energia e aprende um pouco sobre o mundo. “Estipulando a rotina do bebê desde novinho, a criança não dará problema no futuro”, diz a especialista.