Como viver sabiamente

Richard J. Light - O Estado de S.Paulo

O que significa viver uma boa vida? E uma vida produtiva? Que tal uma vida feliz? Como devo pensar nessas ideias se as respostas conflitarem?

O que é mais importante para você: ter pouco, realizar pouco, mas ser tranquilo e feliz e gastar tempo com a família? Ou trabalhar duro, usar seus talentos, talvez criar uma empresa, talvez até tornar o mundo um lugar melhor no percurso?

O que é mais importante para você: ter pouco, realizar pouco, mas ser tranquilo e feliz e gastar tempo com a família? Ou trabalhar duro, usar seus talentos, talvez criar uma empresa, talvez até tornar o mundo um lugar melhor no percurso? Foto: James Yang/ The New York Times

Imagine que você é 'Reitor por um Dia'. Que mudança imediata você implementaria para melhorar a experiência universitária no câmpus?

Fiz esta pergunta a estudantes por anos. As respostas podem ser reveladoras. Alguns anos atrás, as respostas começaram a se afastar de "corrigir o curso de História" ou "mudar a maneira como os laboratórios estão estruturados". Surgiu um comentário distinto sobre aprender a viver sabiamente.

O que significa viver uma boa vida? E uma vida produtiva? Que tal uma vida feliz? Como devo pensar nessas ideias se as respostas conflitarem? E como devo usar meu tempo aqui na universidade para construir as respostas a essas perguntas difíceis?

Alguns câmpus começaram a oferecer recentemente uma oportunidade para alunos enfrentarem essas perguntas. Em meu câmpus, Harvard, um pequeno grupo de professores e reitores criou um seminário que não dá créditos chamado "Como Refletir sobre Sua Vida". O formato é simples: três discussões de 90 minutos para grupos de 12 alunos de primeiro ano, dirigidos por professores, consultores ou reitores. Mais de cem estudantes participam a cada ano.

Em seguida, apresentamos cinco exercícios que os alunos consideram particularmente interessantes. Cada um procura ajudar os calouros a identificarem seus objetivos e refletirem sistematicamente sobre vários aspectos de suas vidas pessoais, e relacionarem o que descobrem ao que realmente fazem na universidade.

1. Para o primeiro exercício, pedimos para os estudantes fazerem uma lista de como querem gastar seu tempo na universidade. O que tem importância para você? Isto pode ser ir à aula, estudar, passar tempo com amigos, talvez se oferecer como voluntário na comunidade fora do câmpus ou ler livros fora das bibliografias recomendadas dos cursos. Depois, os alunos fazem uma lista de como eles realmente gastaram seu tempo, em média, a cada dia, na última semana e comparam as duas listas.

Por último, fazemos a pergunta: Em que medida suas ocupações realmente batem com seus objetivos?

Alguns alunos descobrem uma forte superposição das listas. A maioria não. Eles ficam espantados e consternados de descobrir que estão gastando muito de seu tempo precioso em atividades que não valorizam muito. O desafio é como alinhar a ocupação de seu tempo para refletir suas convicções pessoais.

2. Decidir por uma especialização pode ser extremamente difícil. Uma estudante em nosso grupo estava tendo dificuldade de escolher entre administração pública e ciência. Como ela estava gastando seu tempo livre? Ela descreveu que era ativa no Instituto de Política, rodava a simulação de modelos de organizações internacionais e escrevia regularmente para The Political Review. O líder da discussão observou que ela não havia mencionado a palavra "laboratório" em seu resumo. 

Laboratório?" respondeu a estudante, parecendo incrédula. "Por que eu mencionaria laboratório quando falo de meu tempo livre?" Depois de meia hora de sessão, o líder do grupo recebeu um e-mail agradecendo por ele ter feito a pergunta.

3. Eu chamo isto de Exercício Amplo contra Profundo. Se puder se tornar extraordinariamente bom em uma coisa contra ser bastante bom em muitas coisas, que abordagem você escolheria? Convidamos os alunos a pensar em como organizar sua vida universitária para seguir seus caminhos escolhidos de maneira deliberada.

4. No Exercício Valores Centrais, os alunos recebem uma folha de papel com cerca de 25 palavras. As palavras incluem "dignidade", "amor", "fama", "família", "excelência", "riqueza" e "sabedoria". Elas são solicitadas a selecionar as cinco palavras que melhor descrevem seus valores centrais. Agora, perguntamos, como você poderia lidar com uma situação em que seus valores centrais entram em conflito uns com os outros? 

Os estudantes consideram essa pergunta particularmente difícil. Um trouxe seu dilema pessoal: ele que ser cirurgião, e também deseja ter uma grande família. De modo que seus valores centrais incluem as palavras "útil" e "família". Ele disse que se preocupa bastante sobre sua capacidade de ser um cirurgião bem-sucedido e também um pai dedicado. Os estudantes não paravam de falar nesse exemplo já que muitos se viam diante de dilemas parecidos. 

5. Este exercício apresenta a parábola de um pescador feliz que vive uma vida simples numa pequena ilha: o sujeito sai para pescar por algumas horas a cada dia. Ele apanha alguns peixes, os vende a amigo, e passa o resto do dia com a mulher e os filhos, e cochilando. Ele nem conseguiria imaginar mudar alguma coisa em sua vida fácil e tranquila.

Um visitante com MBA recente chega a essa ilha e rapidamente nota como o pescador poderia enriquecer. Ele poderia pescar mais peixes, criar uma empresa, comercializar o peixe, abrir uma fábrica de conservas, talvez até fazer um IPO. Ele seria então realmente bem-sucedido. Poderia doar um pouco de seu peixe a crianças famintas do mundo e poderia até salvar vidas.

"E daí?" - pergunta o pescador.

"Daí você poderia passar muito tempo com sua família", responde o visitante. "Mas teria feito diferença no mundo. Teria usado seus talentos, e alimentado algumas crianças pobres, em vez de ficar cochilando o dia todo."

Nós pedimos aos alunos para aplicarem essa parábola a suas próprias vidas. É mais importante para você ter pouco, realizar pouco, mas ser tranquilo e feliz e gastar tempo com a família? Ou é mais importante para você trabalhar duro, usar seus talentos, talvez criar uma empresa, talvez até tornar o mundo um lugar melhor no percurso?

Tipicamente, essa simples parábola provoca discordâncias substanciais. Essas discussões encorajam os calouros a pensar no que realmente é importante para eles, e o que cada um de nós sente que poderia dever ou não dever à comunidade em geral - ideias que nossos alunos podem capitalizar durante seu tempo na universidade.

Ao fim de nossas sessões, eu digo a meu grupo: "Diga-me uma coisa que mudou sua mente neste ano", e muitas respostas refletem um nível notável de introspecção. Três anos depois, quando conferimos com participantes, quase todos reportam que as discussões foram valiosas, um passo para tornar a universidade a experiência transformadora que ela se propunha a ser.

O autor é professor na “Harvard Graduate School of Education” e autor de “Making the Most of College”

Tradução de Celso Paciornik