Como um casamento solidário pode revigorar um relacionamento

Alison Bowen - O Estado de S.Paulo

"A bondade é, de fato, o cimento que com frequência pode conservar um casamento", explica terapeuta

Ser mais solidário começa por reconhecer que não se trata de mudar seu parceiro

Ser mais solidário começa por reconhecer que não se trata de mudar seu parceiro Foto: Creative Commons/Jeff Belmonte

Quando seu cônjuge larga roupa suja a meio metro do cesto, a última coisa que vem a sua mente é meditar sobre seus sentimentos.

Mas alguns especialistas dizem que estar presente no momento - ou ter um casamento "solidário" - pode se traduzir em casais mais felizes.

Nós observamos pela primeira vez a menção a casamento solidário quando Jennifer Garner e o colega ator e marido Ben Affleck disseram, anos atrás, que pretendiam ter um casamento solidário. O deles azedou de lá para cá - eles anunciaram recentemente que estão se divorciando depois de dez anos. Outros que mencionaram um relacionamento solidário incluem Gwyneth Paltrow e Chris Martin, que anunciaram seu próprio "desligamento solidário" em 2014.

A solidariedade não levou esses casais a um final feliz, mas terapeutas dizem que ela ajuda tantos casamentos que alguns estão construindo sua prática em torno dela. A consultora matrimonial Maxcia Lizarraga, baseada em Nashville, Tennessee, chega a creditá-la pelo sucesso de seu próprio casamento de 44 anos.

"Ser solidário tem a ver com estar presente no momento sem uma agenda de mudança daquele momento", disse a psicóloga clínica de Durango, Colorado, Darrah Westrup, coautora de The Mindful Couple: How Acceptance and Mindfulness Can Lead You to the Love You Want (O casal solidário: como aceitação e solidariedade podem levá-lo(a) ao amor que deseja, em tradução livre). "Você está atento a este momento e o observando."

Isto é útil tanto para indivíduos como para casais - todos podem se beneficiar de discutir os pensamentos do outro mais positivamente. E num relacionamento, isto pode acarretar mais paciência e compaixão.

Westrup disse que focou sua prática cada vez mais nesse conceito, acrescentando que sente que há "mais e mais pessoas neste caminho".

Evitando concepções erradas. A chave para compreender a solidariedade, disse Westrup, é que não é preciso ter uma agenda. Estar presente no momento não significa ficar atento a cada detalhe - por exemplo, tomar nota de quando seu parceiro não lava a louça. Ser mais solidário começa por reconhecer que não se trata de mudar seu parceiro.

Casais também cometem o erro de ver a solidariedade como um conserto rápido que torna algo incômodo menos incômodo ou um hábito irritante menos irritante, disse Westrup."As pessoas falarão sobre aceitar o estar presente, mas é por trás disso que está esta (concepção equivocada) de que se eu fizer isto, não vou ficar tão incomodada pelo presente", disse ela. É preciso, ao contrário, adotar a prática do nível seguinte: dar tempo para se centrar no momento, observando onde está e como está se sentindo - sem julgamento. Aceite suas reações e as do seu parceiro. Se há roupa suja no chão, reconheça a emoção de frustração, por exemplo, bem como sua reação.

Ajustar o foco. A terapeuta Lizarraga, cujo trabalho está centrado em casais e realiza oficinas de Casamento Consciente, disse que aconselha seus clientes a dar um passo atrás durante um momento difícil (ou mesmo mundano) e reconhecer tanto suas próprias emoções como as do ser com o qual que eles acreditam estar num relacionamento.

"A bondade é, de fato, o cimento que com frequência pode conservar um casamento", disse ela.

Aproveitar seus pensamento pode ser tão direto quanto notar o pensamento, "Meu cônjuge é tão rabugento" e alterá-lo para "Estou tendo aquele pensamento sobre meu cônjuge de novo". Pare para pensar no tipo de cônjuge e pessoa com quem gostaria de estar, sugeriu Lizarraga, e como isso pode se manifestar no momento.

"Aquilo em que você foca, cresce", seja ele positivo ou negativo, disse Lizarraga.

Curso refrescante. Corey Allan, um terapeuta especializado em família e casamento baseado em Dallas, disse que a solidariedade também pode combater a rotina inevitável do casamento.

"Meses, anos depois, você fica com a ideia que nós somos colegas de quarto, apenas vivemos juntos, e não há nenhuma conexão, a centelha se foi", disse ele. "Eu resumo a ideia toda de solidariedade como intencionalidade."

Mas no turbilhão de suas vidas, quando levar os filhos para a escola é um milagre matinal, como os casais podem se educar para reservar momentos para a solidariedade?

Alguns momentos após o alarme soar pode ser um primeiro passo, disse Lizarraga. "Começa de manhã, dizer bom dia, dormiu bem, como foi sua noite?" disse ela. "Há aquele sentimento de conexão: 'Oh, meu parceiro se importa com o meu sono'.”

Em casamentos, estas perguntas - "O que você acha?", "Como você se sente?" - são igualmente importantes, mas podem ser eclipsadas pelas tarefas do dia a dia. 

A solidariedade pode lembrar casais de fazer esses tipos de perguntas. Mas esta mira na veracidade, disse Lizarraga, começa num nível individual. "A ideia é ser capaz de compartilhar um sentimento pessoal autêntico, 'Estou com medo disto' ou 'Estou preocupado com aquilo'", disse ela.

Esteja você dizendo "bom dia" ou mobilizando sua energia numa zona de guerra de roupa suja espalhada, tirar um tempo pessoal para se dedicar a alguns momentos para meditar pode ter um efeito duradouro.

"A noção toda de demonstrar solidariedade nesse momento pode fazer a diferença num dia inteiro", disse Lizarraga.

Tradução de Celso Paciornik