Cinco destaques da semana de moda de Lisboa

Gabriela Marçal - O Estado de S.Paulo

Cultura brasileira, roupas sem gênero, pijamas, grunge e minimalismo são as principais tendências que a ModaLisboa deve exportar para o mundo este ano

Batizada de 'Kiss', a edição do ModaLisboa outono-inverno 2016/2017  tinha como objetivo promover o amor no processo de criação de moda e comemorar os 25 anos do evento. 

Batizada de 'Kiss', a edição do ModaLisboa outono-inverno 2016/2017  tinha como objetivo promover o amor no processo de criação de moda e comemorar os 25 anos do evento.  Foto: Divulgação

Coleções antenadas com tendências internacionais, tecidos de primeira qualidade, acabamentos e modelagens exímios são os principais trunfos da semana de moda de Lisboa, a ModaLisboa, que ocorreu entre os dias 10 e 13 de março na capital portuguesa. A combinação acaba resultando em peças desejáveis, verdadeiras promessas de sucesso comercial. A marca Banda, do português Tiago Loureiro, por exemplo, trouxe referências brasileiras.  Outros estilistas investiram em roupas sem gênero, pijamas, grunge e minimalismo - tendências que já estão em lojas do mundo inteiro.

Também merecem destaque a alfaiataria e os calçados com identidade portuguesa, já reconhecidos na indústria da moda internacionalmente e bem representados por nomes como Miguel Vieira e Carlos Gil, estilistas que desfilaram suas coleções em Portugal e também na mais recente edição da Semana de Moda de Milão, na Itália. As peças apresentadas em Lisboa já estão sendo exportadas para toda a Europa e parte da Ásia. “Minha marca tem uma presença grande em Milão, mas tenho as portas abertas no mundo inteiro. Estamos nos quatro cantos do mundo”, diz o estilista Miguel Vieira, que destina 80% da produção para exportação.

Estilistas renomados e jovens talentos também estão trabalhando para tornar Portugal uma referência em criação. “A moda portuguesa, cada vez mais, não se preocupa apenas com qualidade. Estamos focados no design e na estética”, afirma Carlos Gil. Batizada de 'Kiss', a edição do ModaLisboa outono-inverno 2016/2017  tinha como objetivo promover o amor no processo de criação de moda e comemorar os 25 anos do evento. 

Veja os cinco destaques do evento:

Referências brasileiras

O português Tiago Loureiro, de 25 anos, foi um dos estilistas que apresentaram seu trabalho no projeto ‘Sangue Novo’, que reúne jovens talentos. O tema coleção de sua marca, a Banda, foi ‘Brazil not revisited’ e prometia ‘descobrir o Brasil sem nunca ter lá estado’. O designer buscou inspiração na arte, cultura, TV, gastronomia e história brasileira e abriu o desfile ao som de ‘Sampa’, de Caetano Veloso. Uma proposta ousada e arriscada. Mas o estilista português se saiu bem ao fugir de clichês tropicais e apostar na antropofagia de Oswald de Andrade para levar referências indígenas às roupas. As peças de alfaiataria traziam estampas sutis de índios ou padrões étnicos. A cartela de cores reuniu bege, cinza, vermelho e azul. Veio da obra da arquiteta Lina Bo Bardi a inspiração para a silhueta minimal das roupas.

Além do gênero

As marcas Awaytomars, Filipe Faísca, Inês Duvale e Ricardo Andrez levaram para as passarelas de Lisboa um tema que vem sendo cada vez mais debatido no mundo da moda: composições de roupas que desafiam os padrões de masculino e feminino. As criações dos estilistas foram além do unissex. Peças que tradicionalmente são do guarda-roupa feminino foram usadas por homens e vice-versa. As mulheres não terão dificuldades para usar as peças com silhuetas mais simples e cores básicas, como preto e cinza. Mas para os homens essa tendência pode causar certo desconforto inicialmente. Uma maneira sutil encontrada pelos estilistas para inserir a tendência sem gênero no universo masculino foi alongar as camisetas e os casacos, criando uma sobreposição que se parece de vestidos com calça. Miguel Vieira usou lenços de seda coloridos para dar movimento e cor a ternos clássicos.

O pijama saiu de casa

Carlos Gil, um dos principais nomes desta edição do ModaLisboa, apresentou uma coleção primorosa com composições de casacos poderosos com conjuntos com peças que lembravam pijamas e camisolas vintages. Peça sofisticadas e com muito apelo comercial. Miguel Vieira, outro estilista português renomado, levou para a passarela um conjunto branco mais minimalista do que as peças de Gil. A cor alva e o detalhe dourado deram à peça bastante refinamento. Um pijama mais colorido, leve e com silhueta mais solta foi a proposta de Filipe Faísca para as mulheres; a versão masculina era bastante literal e branca também. Ricardo Andrez levou o conceito de roupa de dormir à risca e colocou na passarela um modelo usando um camisolão comprido.

Extra-grunge 

A modelagem solta, a estampa xadrez e a displicência, características do grunge, chegaram em peso à semana de moda de Lisboa. A silhueta extrapolou ainda mais os contornos do corpo e a proporção ficou mais alongada. As mangas vão além da ponta dos dedos, como na passarela de Ricardo Andrez, e as saias e casacos ganharam muitos centímetros no comprimento. O estilista Pedro Pedro foi o que mais apostou no mix de estampa xadrez, coletes e cardigã de lã - clássicos dos anos 90. As amarrações e mistura de estampas dessa coleção são boas saídas para tirar o inverno da mesmice. Christophe Sauvat buscou inspiração nos países nórdicos, mas a coleção acabou trazendo combinações com xadrez e vermelho criando uma versão mais sofisticada do estilo que Kurt Cobain eternizou.

Festa minimalista

Os estilistas Luís Carvalho e Miguel Vieira levaram a seriedade do inverno para roupas, que podem ser usadas em ocasiões formais ou festivas. Renda, aplicações e brilhos não são os destaques dessas coleções. Mas sim os tecidos de excelente qualidade, os cortes impecáveis e os detalhes modernos que conferem sofisticação imediata. A cartela de cores de Luís Carvalho reúne branco, nude, verde militar, vinho e preto. Miguel Vieira também apostou em cores neutras como preto, branco e azul marinho, no entanto deixou espaço para o azul Bic ser um dos destaques.