Cavalera une desfile de moda e ritual indígena

Mariana Belley - O Estado de S.Paulo

Com a presença de Reynaldo Gianecchini, grife apresentou coleção inspirada em tribo do Acre e trouxe vinte índios de lá para a SPFW

Três dias de imersão profunda no cotidiano e na cultura da tribo Mutum, da etnia Yawanawá, no coração da Floresta Amazônica acreana, quase divisa com o Peru. Mais do que uma inspiração, Alberto Hiar foi buscar referências reais na tribo indígena para criar sua coleção para o verão 2016 da Cavalera. 'A marca sempre procura falar de Brasil, de referências culturais e de comportamento brasileiro. Coisas que estão na minha história, momentos que eu já passei e vivenciei', diz o estilista justificando sua escolha e o motivo pelo qual quis ir tão longe.  'Foram 8 horas de avião, 8 de carro e 8 horas de voadeira, aqueles barquinho de alumínio sem encosto.' conta Alberto. 

De lá, além de inspirações, Alberto trouxe 20 índios para poder dividir com seu público um pouquinho do que ele presenciou no Acre. Um ritual com danças, cantos e celebrações foi feito em volta de uma fogueira na Ilha Musical dentro do Parque Villa Lobos, enquanto o público, composto por celebridades como João Gordo, Otto, Ronaldo Fenômeno e a cantora Alice Caymmi, sentavam ao chão em círculo. Durante o ritual, as modelos surgiam vestindo as criações da marca para a coleção. Vestidos soltinhos com decote V, jeans, jaquetas patchwork bordadas com miçangas... As miçangas também aparecem em colares e pulseiras feitos artesanalmente pelos índios. Capas de chuva e maxicasacos para os meninos. Transparência e comprimento mini para as meninas. 'Olhamos pra formigas, cupinzeiros e sentimos que aquilo poderia virar referência para nossa coleção, mas o que nós nos aprofundamos mais foram nos kenês, que são os desenhos que eles usam pra fazer os acessórios e adornos', afirma Alberto. 

As ilustrações de cores fortes e remetem às pinturas nos corpos dos índios e aos animais encontrados na tribo. "Todas as estampas foram feitas pelos índios e pagamos pelos desenhos' conta Alberto, que mandou fazer parte da coleção na Índia. O estilo rocker característico da marca apareceu nos sapatos superpesados. 'Eu não queria fazer um índio literal. Somos uma marca com um DNA rock´n´roll´, diz Davi Pollack, responsável pelo styling do desfile

Tudo foi uma grande novidade para os índios convidados: dos 20 índios, 17 nunca haviam saído da aldeia. 'Estamos muito impressionados com tudo isso. Pra nós é muito forte deixar a floresta e estar aqui. Ver toda essa movimentação, barulho, pessoas que nunca vimos, cabelos e roupas diferentes. Muitas câmeras, entrevistas. Isso pra nós é muito forte. É uma experiência muito grande.' afirma o pajé Martsini. 'O ritual durante o desfile é uma forma de agradecimento por essa oportunidade.'