As novidades dos desfiles, a autoajuda que vem da moda e a chegada da classe C à Fashion Week

Maria Rita Alonso - Especial para O Estado de S. Paulo

Um resumão do que se viu (e do que faltou) na última edição da São Paulo Fashion Week

No desfile da Gig Couture, a marca apostou novamente no tricô

No desfile da Gig Couture, a marca apostou novamente no tricô Foto: MARCELO SOUBHIA / FOTOSITE/SPFW

Roupas são só roupas quando elas não passam uma mensagem. A maioria dos desfiles da São Paulo Fashion Week, nesta última edição, realmente ficou devendo em termos de conceito e de discurso. Numa era na qual tudo o que interessa ganha repercussão exponencial na internet, as coleções passaram quase batidas, nada foi debatido o suficiente para chegar aos trending topics.

Faltou um olhar político, faltou engajamento e a abordagem de temas que tocassem em feridas atuais. Em alguns casos, também faltou poesia. Com a crise econômica, a preocupação geral foi a de apresentar coleções comerciais com apelo de vendas.

Em termos de peça-chave, modelagens e tecidos tiveram novidades sim. Neste outono, as parkas esportivas tomam o lugar do paletó, as botas pesadas substituem o tênis branco e o decote de um ombro só reina desbancando o ombro-a-ombro. Descem os bordados, sobem os babados.

Os corturnos de cano longo da À La Garçonne prometem virar hit

Os corturnos de cano longo da À La Garçonne prometem virar hit Foto: Agência Fotosite/SPFW

O problema é que com o dinheiro curto e consumo em queda, essas mudanças dizem pouco. O que importa agora é agregar audiência e compartilhar valores. Nesse sentido, os corredores do evento falaram mais alto do que as passarelas. O que se ouviu por ali foi uma conversa de empoderamento e de autoajuda.

Com o Brasil em baixa, a economia complicada, os empregos em diversas áreas da moda estagnados (ou decrescendo, assim como em vários outros setores),  faltava mesmo uma injeção de ânimo motivacional.

Não à toa a cabine montada pela revista Elle na Bienal, na qual se tirava retratos (com a estética da selfie), impressos em uma espécie de lambe lambe com os dizeres Love-Se, bombou. A caixa de acrílico transparente que mimetizava uma capa da revista Glamour, com logo e chamadas, também gerou filas (bem menores do que a da Elle, é verdade). Ali, as pessoas entravam dentro da caixa e eram fotografadas como se fosse a estrela de capa.

 Enquanto isso, os estilistas jovens, representantes da chamada moda de ateliê, focaram em seus nichos, lembrando a moda de tribos dos anos 80 e 90, que fazia com que as pessoas se sentissem parte de um grupo só pelo o que vestiam ou ouviam. Ou se sentissem excluídas dele.

Agora a conversa é totalmente diferente. Com o ativismo na moda, a classe C chegou a Fashion Week. Nos bate-papos promovidos pela marca TNT, uma das patrocinadoras do evento, o PIM (Periferia Inventando moda), um grupo de Paraisópolis, foi destaque falando sobre a capacitação de jovens para o trabalho em diversas áreas do universo fashion (de modelos a designers). “Moda não é só para as classes A e B. A gente também sabe fazer e existem pessoas bonitas na periferia”, disse Alex Santos, o idealizador do projeto.

Mais democrática e em busca de relevância, a moda brasileira está experimentando coisas e se abrindo. As palavras de ordem agora são: agregar, pertencer, ser entendido e ser visto como bem entender. É moda que segue, de cabeça erguida.