A temporada sem diretores criativos

Vanessa Friedman - O Estado de S.Paulo

Em Paris, algumas das principais grifes, como Dior e Lanvin, permanecem com indefinições sobre quem deverá assumir o cargo. Entenda como isso afeta o sistema e o mercado de moda

Desfile da Dior na sexta feira, 04, durante a temporada outono/inverno 2016 em Paris. A grife está sem direção criativa desde a saída de Raf Simons, em outubro

Desfile da Dior na sexta feira, 04, durante a temporada outono/inverno 2016 em Paris. A grife está sem direção criativa desde a saída de Raf Simons, em outubro Foto: AFP PHOTO / FRANCOIS GUILLOT

Na mitologia do mês da moda, Paris é considerada a jóia da coroa. É a cidade onde a criatividade encontra a história e isso tudo é misturado à visão, o que então é traduzido nas roupas que vestimos. É o lugar onde tudo aquilo que é absurdo é perdoado em nome da moda, e o ridículo pode se tornar cool do dia para a noite.

 

Ou assim era. Nesta temporada, Paris representa algo completamente diferente: limbo.

 

Duas marcas vão estar sem diretores criativos: Christian Dior, que apresenta a coleção nesta sexta-feira, 4, e Lanvin, que apresentou a coleção na quinta-feira, 3. As coleções deles foram sendo produzidas por seus times de estilistas, liderados pelos "número 2" das grifes (na Dior, Lucie Meier e Serge Ruffieux; na Lanvin, Chemena Kamali), mas ainda não ficou claro se isso é algo temporário ou testes para quem vai ocupar o cargo mais cobiçado. E há ainda uma terceira grife, a Saint Laurent, que provavelmente vai se separar do diretor criativo Hedi Slimane. Isso significa que o desfile de segunda-feira, 7, poderá ser visto com um ar nostálgico.

 

A saída de Slimane pode significar também que um quarto estilista, Anthony Vaccarello, que apresentou a coleção na terça-feira, 1, talvez seja cotado para a vaga-ainda-não-aberta na Saint Laurent. A informação veio do site Women's Wear Daily, que afirmou que o estilista seria o mais cotado para o cargo. E, como se não bastasse, na Céline, que apresenta a coleção no domingo, 6, há boatos desde o ano passado de que a diretora criativa Phoebe Philo está prestes a sair. Internamente, a grife não admite que vá haver qualquer mudanças, mas externamente permanece em silêncio - o que não ajuda a acabar com os rumores. A marca que ela supostamente iria assumir, a francesa Azzedine Alaïa, declarou publicamente que não pretende trocar de diretor criativo tão cedo. Mesmo assim, por algum motivo, ainda há desconfianças. Uma ideia de que onde há muito fumaça, deve haver fogo, e quem realmente sabe o que está acontecendo? Parece bobo (eles negaram! Superem), mas isso é um indicativo do nível de desconfiança com a indústria no momento.

 

Tudo é exacerbado por uma noção de que todo o sistema de desfiles está num precipício, com a declaração de Ralph Toledano, presidente da Fédération Française de la Couture, de que os membros da mais alta organização da moda francesa e representantes de grifes como Hermès, Dior, Balenciaga, Kenzo e Lanvin votaram unânimes contra a ideia do Council of Fashion Designers of America e o British Fashion Council de considerar mudar o calendário para que os desfiles aconteçam exatemente antes de as roupas chegarem às lojas.

 

"O status quo não é estúpido", disse Toledano, transformando a discussão em uma possível batalha nós-contra-eles. Ele pode estar certo, mas o status quo também não é interamente o status quo.

Modelos na passarela da Lanvin na quinta-feira, 03, de março. A ausência de Alber Elbaz como estilista principal da marca foi sentida. 

Modelos na passarela da Lanvin na quinta-feira, 03, de março. A ausência de Alber Elbaz como estilista principal da marca foi sentida.  Foto: AP Photo/Francois Mori

 

Normalmente o buzz ao redor de uma semana de moda tem a ver com a excitação de ver um novo estilista em uma grande maison - veja Demna Gvasalia na Balenciaga, que vai ter seu grande debut no domingo, 6 - e a emoção das possibilidades que ela representa. Mesmo assim, até isso ficou escanteado nesta temporada por causa das tantas perguntas que envolvem o mundo da moda. Em Milão, toda vez que o assunto "Paris" surgia nas pausas entre desfiles, membros do mundinho fashion balançavam a cabeça e diziam: "vai ser tão estranho".

 

Houve tantos boatos, e tantos que foram deixados para apodrecer, que ninguém acredita mais em nada. Ou melhor, acreditam em qualquer coisa, não importa o quão mal estiver comprovado. Isso criou uma atmosfera voyerística mais comparável aos curiosos que acompanham desastres do que os gritos de surpresa quando diante de algo genial em um desfile (não importa o quão exagerado eles parecem para quem vê de fora). E é uma distração do negócio real da semana, que tem a ver com as roupas e o que eles dizem sobre a identidade das mulheres que as vestem.

 

Ou ao menos deveria ter a ver com as roupas. Mas quando as grifes que por tanto tempo determinaram a agenda da moda - Dior, na qual Raf Simons puxou a moda para a Era digital; Lanvin, onde Alber Elbaz transformou a generosidade em um valor estético; Saint Laurent, onde Hedi Slimane quebra todas as regras; e Céline, onde Phoebe Philo reinventou o minimalismo - estão todas envoltas em nuvens de incertezas, é difícil discutir sobre suas coleções com convicções reais. Afinal, tudo pode mudar na próxima temporada se algum novo estilista entrar e mudar toda a estética, da mesma forma que Alessandro Michele fez na Gucci.

 

Existem outras marcas para nos alegrar, claro. Grifes que têm ideias grandiosas e motivadoras, como Valentino, Givenchy, Comme des Garçons, Chanel, Undercover e Louis Vuitton. Os nove dias de semana de moda em Paris são lotados. No entanto, pela primeira vez, o tom da conversa não é o que ela é ou o que poderia ser, mas o que ela não é.

 

Isso importa não só no mundo fechado da moda, mas também para o mundo externo, porque cria um problema real para os compradores - muitos deles ficaram confusos quando questionados sobre como enxergariam a semana de moda de Paris, e reconheceram que estavam relutantes em comprometer o orçamento com marcas, mesmo as famosas, que têm futuro indefinido.

 

E também cria um problema para quem está no desfile e nas redes sociais, que não conseguem decidir se aceitam o que veem ou se esperam pacientemente pela próxima temporada. Eles podem não saber o nome do diretor criativo por trás das marcas, mas eles sabem quando um vestido ou um casaco é uma cópia de algo que eles já viram, ou uma cópia de uma cópia; as linhas de definição, que tornam uma peça diferente e portanto atrativa, estão incrivelmente embaçadas.

 

E o que isso tudo cria? Uma temporada fantasma. Bu.