A moda que vem da periferia

Mariana Belley - O Estado de S.Paulo

Shortinho jeans, estampas, bonés de aba reta, tatuagens… Com "I Love Paraisópolis", Mc Guimê e Valesca, as barreiras de estilo entre centro e periferia começam a ser quebradas

Mari ( Bruna Marquezine ) e Grego ( Caio Castro ) em cena na novela I Love Paraisópolis

Mari ( Bruna Marquezine ) e Grego ( Caio Castro ) em cena na novela I Love Paraisópolis Foto:

Mari gosta de jeans justinho, tops curtos e vestidos floridos de alcinha. Danda usa saias estampadas, shorts com a barra desfiada e blusas com recortes nos ombros, que deixam uma faixinha da barriga aparecendo. Grego é adepto do look ostentação e curte regata, boné de aba reta e correntes e aneis dourados. Interpretados por Bruna Marquezine, Tatá Werneck e Caio Castro, respectivamente, os três personagens da novela ‘I Love Paraisópolis’, da Rede Globo, têm levado o estilo de Paraisópolis, a segunda maior favela de São Paulo, para o restante do país.”Fizemos pesquisas nas redes sociais e entramos nos perfis das blogueiras da comunidade para entender qual o comportamento de quem vive ali”, afirma Labibe Simão, responsável pelo figurino do folhetim. “Em Paraisópolis, São Paulo não é cinza. A paleta de cores é viva, cheia de estampas geométricas, cores e texturas que se misturam. Além disso, os looks das meninas são práticos, com shorts e bermudas stretch e sapatilhas no dia a dia.”

Cada vez mais, quando se trata de moda e comportamento, as barreiras entre centro e periferia vêm sendo quebradas. Valesca Popozuda, a funkeira nascida no subúrbio carioca, acaba de virar garota-propaganda da grife Morena Rosa, ao lado da modelo Isabeli Fontana, da modelo Lea T., e da consultora de moda Costanza Pascolato. De Osasco para o País todo, Mc Guimê, o pai do funk ostentação, tem suas músicas tocadas em grandes rádios e é amigo de Neymar - com seu corte de cabelo moicano, suas tatuagens e suas joias brilhantes, o jogador, aliás, é um bom símbolo dessa união. ‘Acho legal eliminar a distância, pois a moda vem da rua’, afirma o estilista João Pimenta. ‘Dentro da favela a moda é pulsante e viva porque tem muita gente, muitos tipos de pessoas vestindo coisas diferentes. E a moda precisa de contrastes.’ 

Pimenta faz parte do projeto Moda no CEU, uma parceria entre a São Paulo Fashion Week e a Prefeitura de São Paulo, que leva desfiles, palestras, workshops, filmes e exposições para bairros pobres da cidade, e que já recebeu nomes como Alexandre Herchcovitch e Raquel Davidowicz, da marca UMA. 'A ideia é romper os muros que separam o centro da periferia da cidade. Para ter uma cidade só, tem que trazer para os bairros aquilo que era privativo dos moradores do centro expandido', declarou o prefeito Fernando Haddad em novembro passado, após o desfile de Herchcovitch no CEU Vila Curuçá, na zona leste da capital. Meses antes, em abril de 2014, Pimenta apresentou sua coleção de roupas masculinas no CEU Meninos, na zona sul, e despertou a atenção do estudante de design de moda Alex Santos, que estava na plateia. 

Encantado com o que viu, o jovem teve a ideia de criar o 'Periferia Inventando Moda', no CEU Paraisópolis, para incluir mais gente no universo fashion. “Realizamos oficinas de produção de desfiles, criação e preparação de modelos e manequins', conta Nilson Mariano Filho, diretor executivo do projeto. A iniciativa está crescendo e já conta com cerca de 30 jovens inscritos, que têm entre 17 e 24 anos e moram em Paraisópolis e em bairros próximos, como Jardim Angela e Capão Redondo. Alguns dos modelos descobertos ali, inclusive, participaram de um editorial só com roupas de João Pimenta, publicados na revista de moda FFW. 

No ensaio, fotografado na favela, as cores das casas, as paredes desgastadas e o chão de terra fazem contraponto às peças de alfaiataria de corte e acabamentos impecáveis. 'Venho de uma família humilde e sentia vergonha disso. Então, percebi que poderia usar o sentimento como mote para o meu trabalho’, afirma Pimenta. ‘A periferia inspira a moda a pensar o oposto, o avesso, o contrário.' Essa influência que vem das comunidades é também o tema de um estudo de antropologia de Leticia Abraham, vice presidente executiva da consultoria de tendências WGSN na América Latina. ‘'Trabalhei em diferentes capitais e conversei com pessoas que têm renda familiar entre 2 e 8 salários mínimos e têm mais de duas horas de deslocamento entre a casa e o trabalho”, conta Leticia. ‘'Meu objetivo era entender o que eles levam e o que trazem de valores do centro urbano para a periferia, já que transitam por diferentes realidades sociais todos os dias.’

Em termos de estilo, Leticia notou que as mulheres sempre andam na rua com a bolsa e uma sacola de marca de moda para levar o que não coube. Calça skinny, blusinhas curtas e tênis ou sapatilha complementam o visual. ‘O cabelo é sempre uma prioridade e o salto alto não tem vez’, afirma Leticia. Isso, no caminho até o trabalho - afinal, o look noite pede plataformas altas, vestidos justos e maquiagem. No melhor estilo Kim Kardashian, Valesca, Anitta e tantas outras mulheres que agradam consumidoras de diversas classes sociais. ‘Todo esse movimento de convergência só se acelera com a tecnologia’, acredita Costanza Pascolato. ‘A questão da moda hoje segue absolutamente a questão do comportamento e tem uma velocidade impressionante. Ontem eu fazia roupa para a popozuda, hoje faço para o funk ostentação e amanhã já vai ser diferente.’