'A gente tem que usar o que nos representa'

Mariana Belley - O Estado de S.Paulo

Em entrevista ao Estado, Elke Maravilha fala sobre o seu estilo exuberante, sua história na moda e sobre o seu recente trabalho como modelo aos 70 anos de idade

Elke encarna Maria Bonita contemporânea na campanha de inverno do estilista Lucas Magalhães

Elke encarna Maria Bonita contemporânea na campanha de inverno do estilista Lucas Magalhães Foto: Divulgação

Elke Maravilha é uma personagem difícil de resumir. Foi intérprete musical, apresentadora, atriz e modelo. Desfilou para nomes como Clodovil e Zuzu Angel. Estudou oito idiomas: alemão, italiano, espanhol, russo, francês, inglês, grego e latim. Casou oito vezes. Trabalhou como bancária, secretária trilíngue e bibliotecária. É filha de pai russo, mãe alemã, avó paterna mongol da facção dos tártaros e avô paterno azerbaijano. "Uma vira-lata", como ela mesma se define. 

Língua afiada, risada fácil, dona de um estilo único, impossível de definir, mas fácil de compreender. "A gente tem que usar o que nos representa. E eu sou assim", diz. Com tanta personalidade, Elke acabou sendo precursora de um estilo inovador e ousado. E trilhou caminhos estéticos poucas vezes vistos e visitados. Hoje, aos 70 anos completados em 22 de fevereiro, sabe que a beleza dos 20 anos ficou para trás, mas não tem dificuldades em enxergar as coisas boas que o tempo lhe trouxe. "Trabalho desde os 12 anos. Não sei ficar parada." 

Nesse embalo de vida, Elke acaba de estrelar a nova campanha de inverno de Lucas Magalhães. A marca apostou na força e na beleza da cultura nordestina brasileira com um olhar contemporâneo para criar a coleção. Aqui, Elke encarna Maria Bonita, um dos grandes ícones dessa história. A personalidade forte da artista chamou a atenção de Lucas. Tanto que o resgate que o estilista propõe parte da cultura e das raízes de um povo e de uma região do país, que conversa diretamente com o estilo de Elke. Buscar elementos culturais do passado, afinal, sempre foi uma enorme fonte de inspiração para ela. 

Na entrevista a seguir, Elke fala de sua relação com a moda, sua experiência como modelo, seu estilo exuberante e esclarece: 'Algumas pessoas acham que eu me fantasio. E eu digo que não. Eu sou assim! Fantasia é quando você veste algo que você não é.' 

Como foi pra você participar da campanha de Lucas Magalhães?

Foi muito bom! Ele é um rapaz criativo e eu gosto de criatividade. Nessa altura do campeonato, eu não posso mais deixar de ser eu. Posso deixar de ser eu quando eu faço um filme, quando interpreto um personagem, mas como ele chamou a Elke, ele foi muito fiel ao que eu sou. Achei bom trabalhar pra ele. Tenho 70 anos, mas preciso aprender coisas novas. Ficar velha é muito bom, mas ficar ultrapassada é f.... 

As fotos ficaram expressivas.

Claro! A gente precisa ter expressão. Até mesmo quando eu era modelo, sempre entrava dando risada na passarela. Eu era a única! Como não tinha técnica, resolvi ser eu mesma. O que me dava na cabeça, eu fazia. Eu sou assim: diferente.

Como você vê esse momento da moda em que em busca de novos consumidores, as marcas começaram a apostar em mulheres mais velhas para ilustrar campanhas?

É mesmo? Eu não sei. Eu não acompanho moda.

Por exemplo, a cantora Joni Mitchell foi rosto da campanha da Saint Laurent e a escritora Joan Didion, da Celine.

Eu acho ótimo. Isso quer dizer que eles não estão mais fazendo roupa para uma idade específica, mas para todas as idades. Por que nós, velhas, não podemos ficar bonitas? Claro que eu não tenho mais a beleza dos 20, nem dos 30, nem dos 40 e nem dos 50, mas tenho a beleza dos 70. Cada coisa no seu tempo.

Você começou como modelo aos 25 anos. Como foi esse começo?

Comecei com o Guilherme Guimarães. Mas, quando eu era mais nova, eu não sabia dizer o que seria quando crescesse. Até hoje eu não sei, confesso. As pessoas sempre me colocavam nas situações. A única coisa que eu escolhi fazer, escolhi errado. Foi medicina. Não tinha o menor talento. Agora, quando as pessoas escolheram para mim, deu certo. Eu já fui professora de línguas, tradutora, interprete, secretária trilíngue, bancária... E como modelo não foi diferente. Quando cheguei no Rio de Janeiro, em novembro de 1969, com meu primeiro marido, eu já tinha feito um ano de medicina, depois fiz 3 anos de Letras Clássicas em Porto Alegre e quando cheguei ao Rio estudei Filosofia. E, então, perguntei ao Alex, meu marido: 'Com o que eu trabalho?' E foi então que ele disse: 'Você vai ser modelo'. Eu respondi: 'Você está maluco?'. E ele: 'Você vai ser modelo e ainda será a maior modelo dessa País.' Então, ele descobriu que o Guilherme Guimarães, um dos maiores costureiros da época, ia dar um desfile, e sugeriu que eu fosse até a casa dele pedir para desfilar para ele. Bateu uma curiosidade e eu fui. Fizemos alguns testes e deu certo. 

Eu tive medo. Quando eu entrei na passarela no Copacabana Palace, dei de cara com Vera Barreto Leite, que era a modelo preferia de Coco Chanel. Ai eu tremi. Mas depois, eu pensei 'dane-se o mundo! Eu não sei fazer isso que ela sabe, mas eu sou eu'. E fiz tudo do meu jeito. Até disseram que eu inovei. 

Para quem mais você desfilou?

Nossa! Desfilei para muita gente! Clodovil, Hugo Rocha, muitas butiques... Foi uma época muito legal. 

E como que o cinema chegou na sua vida?

Ele chegou em 1972, junto com a televisão e o teatro. Comecei com o Chacrinha em 1972 e no mesmo ano fiz cinema. O diretor Miguel Borges, que também era pernambucano como o Chacrinha, me chamou para fazer o filme 'O Barão Otelo no Barato dos Milhões', primeiro filme que eu fiz. Nele, trabalhei com meu ídolo de infância, o Grande Otelo! E no mesmo ano, o diretor Luiz Mendonça me chamou para fazer 'Viva o Cordão Encarnado', que era uma peça do folclore nordestino em que eu fui a protagonista. 

Como foi trabalhar com o Chacrinha?

Era a melhor coisa do mundo! Ele era um gênio no palco e fora dele.

E com o Silvio Santos?

Ah, sem comentários. Já falei muito dele. Não quero mais falar.

E sua amizade com Zuzu Angel?

Maravilhosa. Eu a conheci em um salão de cabeleireiro e começamos a conversar. Também fotografei e desfilei para ela. Mas fui mais amiga do que modelo. Eu a comparo com a comédia grega Antígona. Antígona queria enterrar o irmão e não conseguiu e a Zuzu também queria enterrar o filho e também nunca conseguiu. Ela era um amor. Foi um privilégio conhecê-la. Eu só conheci pessoas extraordinárias na minha vida. Tive muita sorte. Ter amigo é muito melhor do que ter dinheiro no bolso. 

Em qual momento da sua vida você começou com esse estilo mais exuberante?

Eu nasci assim! Quando morávamos na roça, quando éramos imigrantes, meu pai não tinha dinheiro. Nós tínhamos alimentos porque nascia da terra. Nós morávamos no meio de pessoas negras e quando as mulheres soltavam as tranças e surgia aquele cabelão enooooorme eu ficava encantada e dizia: 'Eu queria tanto ter esse cabelo'. E, então, meu pai disse 'dá um jeito, Elke!' E eu dei! (risos)! Se eu quero cabelo de negro eu faço! Cabelos enormes. Eu não gosto de mixaria. Por isso que muita gente acha que eu sou travesti. Porque o homem quando vai virar mulher ele soma e multiplica. Já a mulher diminui e se divide. Então, é claro que tem gente que olha pra mim e não sabe se eu sou homem ou se eu sou mulher. 

Você tem algum estilista preferido?

Alexander McQueen, John Galliano, Walério Araújo, Ronaldo Fraga e Lucas Magalhães. Ele é primoroso. Gosto muito dos estilistas japoneses também, mas não é meu estilo porque eles são muito clean. Mas eu não acompanho moda. Aliás, faço questão de não acompanhar. Quero ser eu mesma. Porque, às vezes, a peça é linda, mas não é para gente. A gente tem que usar o que nos representa. Algumas pessoas acham que eu me fantasio. E eu digo que não. Eu sou assim! Fantasia é quando você veste algo que você não é. Eu não. Essa não é a minha fantasia, é a minha realidade. E cada um tem a sua. 

Da onde veio o 'maravilha' que compõe seu nome?

Foi o jornalista Daniel Más quem deu. Ele era bravo, mas eu cai no gosto dele. Foi em 1972 quando eu era modelo, vazia cinema e Chacrinha.

E suas roupas e penteados?

Sempre quis ter cabelo de negro. E o Silvinho, o cabeleireiro que cuidava de mim na década de 1970, fazia permanente nos meus cabelos e eu ficava parecendo um negro afro! Ele entendia o que eu gostava. Depois que ele morreu, eu mesma decidi fazer. A loja Estoril, em São Paulo, me ajuda com as minhas perucas. Eu gosto muito de usar dreads. Quando eles já estão feitos, eu mesma monto as perucas. Eu faço os meus bordados, colares e adereços. As minhas roupas também são todas feitas em casa. Eu tenho uma senhora que me ajuda, a Agagil, que tem uma máquina de costura, e eu explico para ela o que eu quero e ela faz. E assim é minha estética hoje. 

Quais são suas inspirações?

Gosto de me inspirar na cultura africana antiga, misturo com Rússia, vikings, Egito, misturo com tudo e resulta em algo moderno. Às vezes, eu pego uma tampa de vaso, misturo com prata e faço um colar divino! As vezes pego peças barrocas e faço colares também.

Como está sua carreira hoje? Quais são seus projetos?

Estou ensaiando um novo repertório para um show que vamos estrear em junho. E também vou fazer 'Paixão de Cristo' no Piauí.