A arte da Prada

Michelli Provensi - O Estado de S.Paulo

O ano só começa na moda depois que passa o carnaval e o desfile da Miuccia

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É isso, já tem ovo de Páscoa sobrevoando nossas cabeças no supermercado. Tenho aquela sensação de que o ano não engatou e, quando desenrolar, o coelho da Páscoa aparecerá no fim do tapete.

Foi o carnaval mais longo da história. São Paulo reviveu as marchinhas e virou a terra oficial do pré e do pós carnaval.

Dai veio o ano novo chinês pra dar mais uma quebrada no mês fevereiro. Só por aquário! Que mês mais avoado. Bom que moro longe do bairro da Liberdade, e nesta economizei o fígado de mais uma festa.

Mal deu pra Cabra berrar e Lady Gaga quebrou a internet com os mêmes do Oscar. Umas 24 pessoas trabalharam na confecção que monsieur Azzedine Aläia criou para a moça, que ficará gloriosamente eternizado em nossas memorias e no Google, como a “diarista do tapete vermelho”.

“Lady Gaga vem lavar uma louça aqui em casa”, rendeu mais comentários do que os dois episódios de Madonna em fevereiro, bunda de fora e o tombo no British Awards.

Diz a lenda, nos corredores fashionistas, que o ano realmente só começa depois que o desfile feminino da Prada passar. Da China  ao Chui, todos os apaixonados por moda param para ver o live streaming  do Prada Art Center, direto de Milão.

Miuccia Prada, que é uma senhora danada, vem sempre com surpresas. Hoje na moda, no tapete vermelho e nos desfiles das escolas de samba está difícil inovar. Até mesmo os ovos de Páscoa já se esgotaram em possibilidades, só não vi ovo mezzo Lacta, mezzo Nestlé.

A sala de desfile feita pelo arquiteto Rem Koolhaas, sempre é a primeira surpresa. Do normcore de Miuccia desfilado em dunas de areia lilás temporada passada, para uma versão sweet sweet candy  mezzo 60, mezzo 50 - há quem diga futurista -, num ambiente rosa e verde bebê contrastados com metal industrial.

Quando dava meus pivôs em Milão,  o burburinho-mór entre as modelos era quem seria a modelo exclusiva da Prada. Fazer o desfile da Prada para uma modelo é como jogar na liga dos campeões para um jogador de futebol. Abrir o desfile da Prada seria jogar a liga dos campeões e marcar um gol de bicicleta.

Na última temporada foi lindo ver a modelo australiana Gemma Ward, ressurgir na indústria da moda depois de um hiato de sete anos. Foi a Prada que alguns anos atrás trouxe as modelos com mais curvas para a passarela.

No desfile de ontem, a new face Willow, de 16 anos, veio na comissão de frente com um corpo que passa longe de uma rainha de bateria, trazendo a estética que seria repetida pelas outras modelos que a seguiram, com corpo e jeito de adolescente.

A força estaca no andar duro das meninas, com passadas fortes, trazendo toda a segurança que a mulher que veste Prada costuma mostrar.

Tecidos riquíssimos, tweed, couro, pele, lã, neoprene... Os tons pastel das roupas  combinaram com o grupo de modelos baby face. Broches de acrílico e cristais, luvas que se estendiam por todo o braço e cabelos a la Bethy Flinstones.

Quando entrei no mercado da moda e vi o primeiro desfile da Prada achei tudo muito estranho e difícil de compreender. Como alguém queria vestir aquilo? Até o dia em que questionei uma stylist que então me disse: “O dia que você gostar de arte vai entender a Prada”.