Vende-se conhecimento

Ciça Vallerio - O Estado de S.Paulo

Vender know-how para empresas, por meio de consultoria, é uma alternativa profissional que tem se difundido

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Bem que André Staffa poderia curtir sua aposentadoria, após 42 anos de labuta. Mas a vida mansa nunca esteve em seus planos. Para quem foi um alto executivo, puxar o freio de mão de repente e parar de trabalhar seria frustrante. "Não queria ficar em casa de pijama, assistindo à sessão da tarde na TV", confessa. A solução foi tornar-se consultor – profissão que está cada vez mais comum no Brasil, assim como em mercados internacionais.

 

Trabalhar como consultor tem sido uma alternativa para profissionais de alto escalão que perderam o posto, ficaram desempregados e, por causa da idade, dificilmente conseguiriam uma recolocação. Ou para aqueles que decidiram deixar para trás a vida estressante que tinham, ocupando um cargo de comando, e estão em busca de maior autonomia e qualidade de vida. Em ambos os casos, o conhecimento e a experiência adquiridos são os bens mais valiosos de um consultor, que passa a vendê-los para várias empresas.

 

André Staffa, de 57 anos, é um bom exemplo. Depois de 20 anos na direção dos hospitais São Luiz, ele encerrou sua vida de executivo, tirando das costas a responsabilidade de conduzir 5 mil funcionários. Apesar do reconhecimento profissional, com direito a honrarias, passou a apostar numa nova trajetória. "Como consultor na área de saúde, posso transmitir meu conhecimento para outras empresas, mas com mais liberdade", avisa. Só tem um problema: desde que largou seu posto de presidente, há sete meses, engatou tanto trabalho que não conseguiu diminuir seu ritmo como sonhava. "Esse não era o espírito da coisa", diverte-se, esbanjando bom humor. A diferença é que, agora, Staffa tem autonomia para aceitar ou recusar um trabalho.

 

Ao que tudo indica, assumir esse novo caminho profissional está em alta. No último levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro dos Consultores de Organização (IBCO), referente ao período de 2006 a 2008, o volume de negócios aumentou em 70% para os 137 consultores espalhados pelo Brasil que responderam ao questionário. Com relação ao futuro, a perspectiva da maioria é de mais crescimento no setor. Mas, se por um lado o mercado de consultoria está em plena ascensão, a concorrência também aumentou, acreditam 86% dos entrevistados. Com isso, clientes tornaram-se mais exigentes na hora de escolher um profissional.

 

"O setor deu um salto", atesta Luiz Affonso Romano, presidente do IBCO, uma instituição sem fins lucrativos, e membro do ICMCI (International Council of Management Consulting Institutes). "O crescimento trouxe também gente despreparada, que tem competência, mas não dispõe de ferramentas essenciais para atuar como consultor. Razão pela qual criamos um curso de treinamento e capacitação."

 

ANDRÉ STAFFA – Autonomia para escolher projetos

 

A mesma opinião é compartilhada por Elisabete Adami Pereira dos Santos, coordenadora do curso de Administração da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP). Para ela, o mercado de consultoria é fruto, em boa parte, da "dança de cadeiras" do mundo corporativo. "Depois de um certo tempo de serviço em determinada área, a pessoa resolve vender sua experiência. O problema é que, na maioria das vezes, ela não tem habilidade para prestar consultoria, uma vez que precisa saber lidar com o cliente, mapear o problema, oferecer o diagnóstico e uma solução."

 

Além da formação técnica e experiência, um consultor deve saber se relacionar, lidar com adversidades e agir de forma ética. São alguns dos preceitos que o IBCO faz questão de frisar. Dificilmente sobreviverá quem comete deslizes, pois, de acordo com a instituição, a maioria das propostas chega por meio de indicação. "É o tipo de função que exige credibilidade", diz Romano.

 

ESTRELA DO ESPORTE

Envolvida com várias atividades profissionais, a ex-jogadora de basquete Maria Paula Gonçalves da Silva, a Magic Paula, de 47 anos, incluiu trabalhos de consultoria na sua já agitada rotina de trabalho, como diretora do Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa, órgão da Secretaria de Esportes voltado para a formação de atletas. Sua bagagem como esportista de destaque foi somada a uma formação específica, para que pudesse atuar com mais propriedade fora das quadras.

 

LAURENT – Migrou para a consultoria após 37 anos

 

Paula, que é formada em Educação Física, preparou-se para o dia em que encerraria sua carreira no basquete. "Imagine parar tudo aos 38 anos! Estava no auge da idade e, depois da minha experiência como atleta, tinha a convicção de que poderia contribuir muito mais." Buscou especialização para complementar seu conhecimento prático, com o curso de pós-graduação em Administração Esportiva da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Faculdade Trevisan. Teve fôlego ainda para inaugurar o Instituto Passe de Mágica, que oferece programas de inclusão social por meio do basquete para mais de 400 crianças e jovens, entre 7 e 15 anos.

 

A consultoria tornou-se, então, um caminho natural para Paula. É constantemente escalada para orientar, analisar e elaborar projetos sociais para empresas, ou para montar uma equipe de atletas em determinada categoria, traçando toda a estrutura necessária para mantê-los. "Não é porque me destaquei nas quadras que entrei para esse ramo", explica. "Minha formação e credibilidade são essenciais para trabalhar como consultora."

 

KNOW-HOW GASTRONÔMICO

O festejado chef Laurent Suaudeau, de 51 anos, passou a trabalhar como consultor após uma carreira de sucesso de 37 anos na alta gastronomia. "Na verdade não foi uma opção, mas sim a consequência da credibilidade conquistada pelo meu trabalho, o que foi construído no mercado ao longo de anos", avisa. A nova função caiu como uma luva, já que, depois de cozinhar, uma das coisas que mais lhe dá prazer é "transmitir conhecimento".

 

No auge de sua carreira, Laurent fechou seu restaurante para inaugurar sua escola de gastronomia. Além de dar aulas para aspirantes a chefs, repassa seu know how para indústrias alimentícias, grupos hoteleiros e restaurantes. Esse trabalho engloba não somente a montagem de um cardápio, mas também a sua boa execução, o que vai depender de um bom fluxo de logística e da qualidade dos equipamentos a serem escolhidos para a montagem de uma cozinha.

 

Entre os convites para o chef desenvolver projetos, há até aqueles de cunho social e educativo. Mas, conforme explica, para colher os louros e se destacar nessa área, o profissional tem de estar sempre atualizado e atento ao anseio do investidor, e jamais deve assumir um comportamento arrogante, acreditando que é o dono da verdade.

 

CARTILHA DO CONSULTOR

Competências necessárias:

linkAtualização constante, e capacidade de diagnosticar e intervir.

linkSaber se comunicar adequadamente e trabalhar em equipe.

linkTer foco em resultado, e comprometer-se com a ética.

linkTer visibilidade ( produzindo artigos, dando palestras, etc.) e independência profissional.

 

Principais problemas:

linkDiagnóstico mal elaborado; desconhecimento do negócio; quebra do sigilo profissional; não-cumprimento de prazos